Eleições 2018. Bispos anglicanos do Brasil condenam ódio e mentiras

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20 Outubro 2018

Bispos da Igreja Episcopal Anglicana no Brasil (IEAB) estão estimulando os cristãos brasileiros a "lerem sua Bíblia de maneira profunda e em oração", principalmente em meio ao segundo turno da eleição presidencial. O primeiro turno das eleições, em 07 de outubro, viu o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal, ficar com com 46,03% dos votos. No dia 28 de outubro, Bolsonaro, que está se recuperando após ter sido esfaqueado durante campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais, enfrentará um segundo turno contra o segundo colocado Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, que ficou com 29,28% dos votos no primeiro turno.

A reportagem é publicada por Anglican Communion News Service (ACNS), 17-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen

O homem que esfaqueou Bolsonaro, Adelio Bispo de Oliveira, 40 anos, alegou ter sido “ordenado por Deus para realizar o ataque”. Seu advogado, Pedro Possa, disse à rede de notícias Bloomberg que Oliveira “afirmou ter agido por motivos políticos e religiosos contra os preconceitos de Bolsonaro. Ele agiu sem a participação de ninguém e nem sob a encomenda de ninguém”.

Em declaração, oito bispos diocesanos, inclusive o Primaz da IEAB, Dom Naudal Alves Gomes, e mais sete bispos eméritos dizem: “Queridos cristãos deste país, nós os convidamos a ler sua Bíblia de maneira profunda, confrontando mensagens que são claramente opostas ao Evangelho de Cristo, evitando o uso do nome de Deus em vão e rejeitando propostas anticristãs e anti-democráticas.

“A escolha que vamos fazer tem efeitos que podem durar mais do que os quatro anos de governo. Todos os sinais apontam para o aumento da violência e da discriminação, criando um sério risco à liberdade, justiça e paz. Que possamos fazer nossa escolha guiada por esses três princípios. Só assim abraçaremos nossa identidade anglicana e cristã, e mostraremos nosso compromisso com a democracia. Vamos orar juntos”, continua a carta.

Por meio de sua declaração, os bispos dizem que estão “convocando publicamente todos os cristãos e a sociedade brasileira em geral para uma séria reflexão sobre as eleições. Estamos vivendo uma época em que comportamentos agressivos e intolerantes e a disseminação de notícias falsas violam os princípios inegociáveis ​​da fé cristã”, diz a carta.

“Os seguidores de Cristo não podem ignorar o quanto nosso Senhor Jesus exaltou aqueles que são justos, que são pacificadores e que são perseguidos por causa da justiça (Mateus 5: 9). A verdadeira religião é a prática do amor, da bondade e do estabelecimento da justiça para todas as pessoas (cf. Jeremias 9:23, Miquéias 6: 8 e Tiago 1: 9)”.

“Não é que não haja conflito na sociedade. Todas as sociedades humanas, em todos os momentos e lugares, passaram por algum tipo de conflito. Isso expressa, em termos simples, desacordo com injustiças, com violação de direitos, com opressão econômica e com discriminação. O que nos preocupa como pastores é o encorajamento do conflito negando o diálogo e os debates públicos, o ódio daqueles que pensam de forma diferente e usando a mentira como arma para demonizar pessoas e projetos”, continua.

“A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil faz parte da Comunhão Anglicana que se encontra em mais de 150 países do mundo e, através de sua reflexão teológica e posições públicas, se estabeleceu em prol dos direitos humanos e ao lado das instituições públicas através de ações concretas para promover justiça e paz”.

“Nossa comunhão de Igrejas respeita todas as opiniões e posicionamentos sobre nossa fé, além de aceitar as escolhas sociais e políticas de seus membros. Somos uma Igreja que se empenha em construir um caminho de igualdade e coexistência pacífica, em meio a diferenças doutrinárias, éticas e sociais entre as pessoas. Nos preocupa quando nossos irmãos e irmãs ignoram esse chamado que sai de sua própria tradição de fé, e que assim acabam não discernindo corretamente um caminho a seguir”.

“Não podemos concordar com o uso de uma linguagem que atormenta, amaldiçoa, envergonha e desrespeita as pessoas como forma de confrontar diferenças políticas e ideológicas. Não podemos tolerar o uso de uma linguagem que glorifica e incita a violência como uma maneira de resolver problemas sociais, políticos ou econômicos. Isso expressa uma clara discordância com os padrões globalmente aceitos de proteção social e que não garantem os direitos dos pobres, das mulheres e das minorias”.

“Diante do momento pelo qual nosso país está passando, precisamos saber como reconhecer a árvore e pelos seus frutos. É uma situação que exige o reconhecimento de que este é um país de maioria cristã, e demonstrar as consequências de ensinar o que eles acreditam ser o legado da tradição ou a verdade bíblica, sabendo que, sem conhecimento, as pessoas podem ir para o lado errado. Sem liderança sábia e justa, a sociedade pode entrar em colapso a partir de uma forte desintegração social. Não há como construir a paz e promover a justiça”.

“Reconhecemos que tanto as Igrejas como a sociedade brasileira em geral estão divididas. Nós clamamos por discernimento através da reflexão e oração, e pela coexistência harmoniosa das maiorias e minorias, construindo políticas públicas que tratem dos problemas brasileiros num clima de absoluto e incondicional respeito pelas instituições democráticas”.

“Pedimos aos nossos funcionários que avaliem seriamente os programas dos candidatos e não minimizem ou ignorem os principais problemas, como por exemplo: pessoas sendo espancadas ou assediadas por seu modo de vida ou ativismo, a opinião pública internacional alarmada pelas direções a serem tomadas pelo Brasil, intelectuais e ativistas sociais que nos informam sobre nossa realidade e a vida cotidiana das comunidades locais, redes nacionais e internacionais de ação social e líderes religiosos que nos advertem que ao escolher Jesus como modelo, devemos obter bons resultados em termos de solidariedade, cura, cuidado e transformação para o bem comum”, diz a carta.

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