O que aconteceu com a Igreja Católica? Parte II

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13 Outubro 2018

Dinheiro, sexo e o poder absoluto que corrompe absolutamente.

A reportagem é de Arthur Jones, publicada por National Catholic Reporter, 11-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

A Primeira Parte de "O que aconteceu com a Igreja Católica" pode ser lida aqui.

O “Lessons to be Learned from the Catholic Church” (“Lições para se aprender com a Igreja Católica”, em tradução livre), um estudo de práticas de gestão realizado pelo American Institute of Management (Instituto Americano de Gestão) nos anos 1940 e atualizado em 1960, fez as seguintes recomendações:

  • Evitar o nepotismo
  • Agilizar atitudes no sentido de algumas direções, e retardar em outras
  • Ter homens idosos no contingente
  • Ter eficiência operacional: a atmosfera do Vaticano emana eficiência. Uma imensidão de detalhes é tratada com eficácia e rapidez. Grandes decisões são frequentemente tomadas rapidamente, apesar do protocolo e do sigilo. Literalmente, tudo é guardado a sete chaves. A atual autoridade da Igreja (na época, Pio XII) carrega a chave da sua própria mesa
  • Ter eficácia de liderança: a liderança recente da Igreja (na época, João XXIII) foi “extremamente eficaz”. O Papa atual selecionou sabiamente bispos num patamar mais elevado do que o anterior
  • Ter boas políticas fiscais: nenhuma outra organização dentro de nossa área de conhecimento faz tanto com tão pouco

A palavra “nepotismo” vem da ação daqueles cardeais de Roma que beneficiaram seus “sobrinhos” de maneira desproporcional.

O que os dois relatórios do American Institute of Management refletem é um ritmo febril dentro do Vaticano. Desde o meu tempo como repórter vaticanista em 1984, a Secretaria de Estado, particularmente, tinha essa atmosfera frenética.

Isso, é claro, contradiz as queixas, já familiares e bastante justificadas, de dioceses e arquidioceses em todo o mundo de que não estavam recebendo respostas imediatas – ou mesmo eventuais – para suas dúvidas e problemas.

Esta comparação foi traçada, no artigo da Forbes em 1985, meio que em tom de brincadeira: a Cúria Romana – que funciona tanto como o centro administrativo quanto como “back office” [escritório administrativo sem contato com o ‘público’, nde] da Igreja – tinha 1.800 funcionários. Um burocrata para cada 450.000 católicos. Se o centro administrativo e o back office do governo dos EUA adotassem a mesma proporção na época, haveria 511 funcionários.

Olhando em sentido inverso, os números podem indicar que o Vaticano, após a Segunda Guerra Mundial, estava e ainda está com falta de pessoal. Contudo, contando com o trabalho “de graça” de padres e mulheres religiosas, o contingente está sobrecarregado. Em falta e sobrecarregado. Nenhum desses dois fatores está na receita da eficiência.

Tudo apontava para um Vaticano em que o alto escalão era livre de restrições, exceto pelas exercidas pelo Papa. A única esperança de mudança interna é de cima para baixo. Todos os outros estão ocupados demais.

As condições de trabalho dentro do Palácio Apostólico eram apertadas. Não havia escritórios “pessoais” no sentido americano, e as reuniões aconteciam em salas pequenas. A maioria das arquidioceses metropolitanas ocidentais tem salas de trabalho mais espaçosas e provavelmente muitas têm, ou tinham, orçamentos anuais maiores.

A força de trabalho decadente do Vaticano mencionada no relatório de 1985 da Forbes é agora onipresente na Igreja ocidental. Então, de volta à parte do “o que aconteceu?”, e o que não aconteceu.

Pobreza franciscana

Depois dos primeiros séculos, o compromisso pleno com os pobres que Jesus proclamou não teve continuidade. A pobreza permaneceu um tema importante no ensinamento da Igreja, mas na prática uma questão secundária. O grande exemplo do quão longe a Igreja se desviou é São Francisco de Assis, que também ofereceu uma solução.

Segundo o biógrafo Adolf Holl, Francisco tirou a virtude da pobreza dos que são pobres involuntariamente e deu-a aos ricos. Ele redefiniu a pobreza “de tal maneira que somente os cristãos poderiam realmente apreciá-la e aspirar a ela”.

“Essa foi uma mensagem assustadora para grande parte da hierarquia da Igreja da época”, escreve Holl em seu livro, The Last Christian: A Biography of Francis of Assisi (O Último Cristão: Uma Biografia de Francisco de Assis), “e continua sendo assustadora para a maioria dos cristãos ocidentais da atualidade”.

Francisco de Assis desencadeou “uma violenta crise ideológica na Igreja” que “entrou em conflito por seu testamento e seu ideal de pobreza, e seus efeitos sobre uma sociedade corrupta”, disse Holl. Um século depois da morte de Francisco, Dante Alighieri o saudou como “o sol nascido em Assis”. Três anos antes da morte de Dante, os primeiros franciscanos reformados – aqueles que retornaram ao estilo de vida e pregação de Francisco – foram queimados na fogueira em Marselha.

Como a instituição lidou com a pobreza franciscana? De certa forma, ela a enterrou. O exemplo está na própria cidade de Assis. A humilde Igreja de Francisco, La Porziuncola, está envolta por uma basílica cheia de adornos que o próprio santo desprezou.

Francisco morreu quando a Igreja de Roma se preparava para se tornar o principal poder financeiro da Europa Ocidental. No século XV – com os planos para a Basílica de São Pedro em andamento – a Igreja, segundo os autores de Sacred Trust: The Medieval Church as na Economic Firm (Truste Sagrado: A Igreja Medieval como uma Firma Econômica, em tradução livre), controlaria 40% das terras agrícolas mais valiosas da Europa Ocidental.

Francisco entendeu o que estava acontecendo. Jesus não veio para fundar uma comunidade que dentro de 1.500 anos poderia ocupar o seu lugar na lista de ricos da Forbes. Jesus não pretendia que os sucessores de Pedro fossem exaltados como alguns dos melhores gerentes corporativos da história pelo American Institute of Management. Ele havia fundado uma comunidade de e para os pobres, embora a maioria de seus principais líderes estivesse nadando na sua própria riqueza ou aproveitando a de outros ricos.

Centros lucrativos

Durante a Idade Média, os mosteiros eram manufaturas. Os lucros da cerveja, do vinho e de artigos de couro, criados nas fábricas engenhosamente movidas a água dos monges, foram canalizados para Roma. A Igreja controlava o mercado de lã, um verdadeiro monopólio, e fixava preços mínimos e máximos. Os mosteiros criaram riqueza de uma maneira que só se viu novamente na Revolução Industrial.

O dinheiro fluía para Roma, e Roma aprendeu a tratar suas fontes periféricas de riqueza como divisões corporativas. Não importava quanto dinheiro chegasse, Roma sempre precisava de mais.

A renda das indulgências (garantias de favores de Deus) se tornou uma fonte barata de riqueza rápida com pouco esforço.

O fracasso das indulgências foi fundamental para o desastre e levou a Igreja de Roma a perder o domínio da Igreja Católica no norte da Europa. O centro de poder já havia perdido, então, a maioria de suas 400 dioceses no sul do Mediterrâneo para o Islã, “perdido” a Igreja Cristã Oriental para Constantinopla e perdido o norte da Europa para Lutero e o Protestantismo. As perdas atuais nos Hemisférios Norte e Sul já estão demais nas notícias para que seja necessário discuti-las aqui.

A Igreja de Roma se acostumou a gastar quantias enormes de dinheiro. Para aliviar seu fluxo de caixa irregular pós-reforma, dependia cada vez mais de empréstimos da família Fugger, que eram renomados banqueiros internacionais e capitalistas de risco, e depois, com o passar dos séculos, da família Rothschild.

Internamente, a recompensa financeira chegava aos bispos e cardeais favoritos através de preferências papais: nomeações para arquidioceses lucrativas, ou outros postos em que o retorno financeiro era alto.

Através dos séculos, o que aconteceu na Igreja de Roma permaneceu na Igreja de Roma. O Vaticano ergueu suas paredes como uma barreira em torno de seus erros financeiros e sexuais.

Tudo isso foi possível porque a Igreja de Roma era, e é, essencialmente um culto exclusivamente masculino: indumentária, vestes ritualísticas, preocupação com a minúcia, objetivo de controle total – mais misoginia e sigilo. Durante séculos, as panelinhas prevaleceram ou sobreviveram nas sombras do Vaticano. Em geral, com uma prestação de contas interna desleixada ou inexistente e a aceitação de predadores sexuais, os membros desse “clube do bolinha” geralmente encontravam maneiras de cuidarem um dos outros, de si mesmos ou de fingirem que não viram nada. Aqueles membros corajosos e obviamente quase sempre ignorados que buscaram a mudança, se defrontaram com o sistema e acabaram sendo ignorados ou mesmo rejeitados.

Fazer a transição neste artigo do dinheiro para o sexo nos faz voltar ao tópico da pedofilia. Era difícil de se escrever sobre esse assunto em 1985, e ainda continua; contudo, a cobertura noticiosa era imprescindível em 1985, e não menos o é agora.

Uma maneira de voltar ao tópico é através de Leão X, o Papa da época das 95 teses de Wittenberg feitas por Martin Lutero. Há um debate entre os historiadores sobre o caráter e a conduta desse Papa. O historiador Michael Mullet argumenta que Lutero foi contra o veto de Leão X que restringiu o número de meninos que os cardeais poderiam manter para fins sexuais.

Levantar a acusação de Mullet contra Lutero-Leão traz à tona que a pedofilia nos círculos superiores da hierarquia centrada em Roma não era desconhecida naquela época, ou no decorrer das eras, e foi sempre um tópico igualmente difícil e que provocava grandes tensões e debates inflamados.

Agora adicione o celibato à essa mistura. No século antes do nascimento de Francisco de Assis, Roma havia imposto o celibato obrigatório aos padres (Segundo Concílio de Latrão, 1139). Por que o celibato? Dinheiro, como de costume.

O celibato já era um dom que um monge ou padre poderia oferecer a Deus. Não era um requisito. O primeiro Papa, Pedro, era um homem casado e os padres e bispos casados existiram durante os primeiros 1.100 anos ou mais. Com o celibato como um requisito para a ordenação, a Igreja de Roma havia imposto um limite à atividade sexual que muitos (a maioria?) dos homens acham extremamente difícil na prática.

A questão era dinheiro, pois, sob a primogenitura, os filhos dos bispos e padres tinham uma reivindicação legal sobre a terra e as posses dos que “viviam” para o sacerdócio. O celibato destruiu isso de uma só vez e contribuiu ainda mais para um problema existente de atividade sexual clerical.

Fora de Roma, ao longo dos séculos, nos seminários, escolas religiosas e seculares para meninos e orfanatos a situação era propícia para o abuso.

Eu era católico em uma escola anglicana para garotos que datava do século XVI. Era uma escola diurna, não um colégio interno com coletes engomados e paletós pretos. Mas mesmo lá se ouvia os meninos anglicanos, falando em relação às suas próprias igrejas, ocasionalmente proferirem advertências como: “não entre sozinho na sala do coral com o pároco auxiliar”.

A questão, no entanto, não é como evitar. É o abuso, o abuso de muitos milhares de meninos e meninas, homens jovens e mulheres jovens, cometidos por padres católicos em todo o mundo. O abuso roubou das vítimas sua inocência, sua confiança e sua autoestima, ao passo que as atormentou com a confusão sobre seu próprio desenvolvimento sexual.

Por mais grotesco que esse abuso seja, seu encobrimento pelos bispos é “um pecado que clama ao Céu por justiça”. Ele revela a podridão no “centro de proteção da imagem da Igreja”.

Fora da nossa escola anglicana, os católicos tinham os beneditinos. Sabíamos que éramos uma religião minoritária (8%), que o catolicismo havia sido proscrito até o século anterior e que não tínhamos bispos até meados do século XIX (1850).

O que também aprendemos foi que, além de São Bento como modelo, tivemos três grandes exemplos de fiéis católicos ingleses no século XIX:

  • Cardeal John Henry Newman: “consciência em primeiro lugar”.
  • Cardeal Henry Edward Manning: “os pobres e despossuídos”.
  • E, para voltar ao ponto apresentado no início da Primeira Parte: o historiador e cavaleiro da rainha Vitória, Lord Acton, que declarou corretamente: “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Aqui chegamos ao coração de "O que aconteceu com a Igreja Católica?". De alto a baixo, do paroquiano ao Papa, através dos séculos "o poder corrompeu, e o poder absoluto corrompeu absolutamente".

É, da mesma forma que foi, uma cultura de poder e corrupção. Como a varíola, há grandes e pequenas pústulas de poder e corrupção. O gene maligno está ativo há quase dois milênios. A maneira como o sistema é configurado torna isso possível, faz com que floresça. A corrupção floresce de acordo com o grau de sigilo e de proteção.

É isso. Foi o que aconteceu com a Igreja Católica.

Muitas vozes podem contribuir com formas de banir o sigilo da Igreja Católica. A maioria delas levaria apenas alguns movimentos da caneta papal.

Aqui está minha contribuição: Transparência em todos os níveis. Tomada de decisão pelo mais amplo espectro disponível, leigo e clerical. Publicação de todas as prestações de contas da Igreja em todos os lugares, especialmente de Roma, e certamente em sua totalidade. Exigir que cardeais, arcebispos, bispos e padres enviem uma conta auditada de seu próprio patrimônio antes da aposentadoria. A maior parte do dinheiro que manipulam não é deles, embora muitos o tratem como tal. O que mais? Admitir as mulheres nos cargos mais altos. Isso acabaria com o culto masculino. Finalmente, homem ou mulher, permitir que os padres se casem.

Será que alguma coisa dessas acontecerá?

Pós-escrito: Tenho um jovem amigo que recentemente saiu para estudar para o sacerdócio. Sentado ao lado dele em um banco de Igreja no dia de sua partida, disse a ele neste tempo de incerteza em Roma, somado à ascensão do fundamentalismo católico nos Estados Unidos, e em outros lugares, "Você e aqueles como você talvez tenham que viver como monges dos séculos V e VI. Serão os lampejos de luz numa nova Idade das Trevas, mantendo a verdadeira chama acesa e viva”.

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