Vítimas de abuso. “Não somos inimigos, ajudamos a Igreja”

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05 Outubro 2018

“Não somos inimigos da Igreja. Nós a estamos ajudando a mudar”. As vítimas de abuso reivindicam escuta, e não ser estigmatizadas. Por isso, um grupo simbólico de 50 pessoas se manifestou nas imediações do Vaticano na tarde desta quarta-feira, 3 de outubro, justamente enquanto o Papa abria as sessões do Sínodo dos Bispos que se estenderá até o domingo, dia 28, e analisará o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

A reportagem é de Andrés Beltramo Álvarez, publicada por Vatican Insider, 04-10-2018. A tradução é do Cepat.

Cerca de umas 50 pessoas se detiveram na praça contígua ao Castel Sant’Angelo, no início de uma avenida que une a Praça São Pedro com a cidade de Roma, mostrando cartazes e fotografias alusivas a diversos casos de abuso, em sua maioria italianos. Contudo, permaneceram no local apenas uns 15 minutos, quando a polícia italiana as obrigou a sair do lugar e entrar em um parque próximo, longe do olhar dos turistas e curiosos.

Um dos manifestantes é Mattias Katsch, líder da organização Eckiger Tish, membro do Conselho de Sobreviventes da Alemanha e da Aliança Ending Clergy Abuse. Em entrevista ao Vatican Insider, explica as dúvidas e as motivações das vítimas.

Eis a entrevista.

O que significa este protesto?

Eu não chamaria isso de protesto, mas, sim, de vigília. Queremos chamar a atenção dos bispos e especialistas que chegam a Roma de diversas partes do mundo para discutir a juventude e sua vocação. Queremos lhes recordar que há um tema central como o abuso de menores que deve ser abordado em um momento assim. Quando se fala de vocação também é necessário pensar nos seminários. Sabemos que muitos casos no Chile, México e Estados Unidos ocorreram com ataques sexuais a jovens dentro dos seminários. O abuso, a violência sexual é um tema chave no centro da Igreja e de suas instituições.

O que pedem concretamente à Igreja?

Além de escutar as vítimas, justiça para elas, abrir os arquivos, uma política de tolerância zero de verdade. Que mudem as leis da Igreja, porque um sacerdote que abusa de um menor não pode continuar sendo sacerdote, um bispo que acoberte não pode seguir como bispo. Com isto, teríamos mudanças fundamentais que não somente serviriam para o passado, para as vítimas, para nós, mas também protegeriam as crianças de hoje.

Qual a opinião de vocês acerca da atuação do Papa Francisco em matéria de abusos sexuais?

Ele tem uma linguagem forte, fala de um sistema e de uma cultura do abuso, do acobertamento; mas o que nos faltam são as ações, os fatos. Chega de palavras, por favor, que comece a fazer coisas. Não somente anunciá-las.

Então vocês reconhecem um avanço com Francisco neste tema?

Sim, reconheço. Foi muito importante este fato de ter recebido três vítimas do Chile para lhes pedir pessoalmente perdão por seus erros. Isso é um avanço enorme, mas é necessário que saibamos quem foram os responsáveis não somente dos abusos, mas também dos acobertamentos. Por que durante décadas estes casos puderam ser mantidos na obscuridade [?]. Além disso, as vítimas têm direito a algum tipo de indenização por essas falhas da Igreja.

Como percebem a resposta da sociedade a suas reivindicações?

Para as pessoas ainda é difícil falar deste problema, causa muito espanto. O abuso de um menor é uma coisa horrorosa e não é fácil que se fale livremente disso. Entendo isso, mas por décadas tivemos escândalos por todo o mundo: Irlanda, Austrália, México, Estados Unidos e países da Europa; por todas as partes. Agora, estamos em um ponto no qual a opinião pública mundial entende que este é um problema global da Igreja e que aqui em Roma está o centro da crise. Acredito que isto é uma mudança significativa.

Em países como o Chile e os Estados Unidos, as autoridades judiciais começam a abordar os casos não individualmente, mas em conjunto, considerando também os acobertamentos.

Acredita ser possível que alguns bispos acabem na prisão, inclusive dentro de pouco tempo?

Sim, isso é muito provável, porque se estamos falando de um acobertamento sistemático, devem existir responsáveis por isso: sacerdotes, vigários gerais, bispos, arcebispo e cardeais. Claro, eles formam este sistema. É preciso falar de responsabilidades e de prestação de contas. Estou certo de que haverá mais processos como na Austrália, onde recentemente um bispo foi condenado em um julgamento por ter acobertado um abuso cometido décadas atrás.

O que vocês dizem às pessoas que os consideram inimigos da Igreja ou pensam que levam adiante uma campanha injusta?

Não somos inimigos da Igreja. Acredito que estamos fazendo um favor à Igreja, estamos mostrando onde as coisas andam mal e dando a ela uma oportunidade de mudar para melhor. A Igreja tem um papel muito importante no mundo, sobretudo na educação de crianças e jovens. Para servi-los bem e ser um lugar seguro. As mudanças que estamos falando servem para fazer da Igreja um lugar assim.

É muito difícil fazer os bispos e as pessoas da Igreja entender isto?

Não, refiro-me ao próprio Papa, por exemplo. Ou ao presidente da Conferência Episcopal Alemã, (o cardeal Reinhard Marx), que na semana passada apresentou um documento em que reconhece que isso é um fato real, uma falha sistemática da Igreja. Tudo isto não é uma invenção nossa, nem da imprensa, são problemas reais que requerem atenção. Este Sínodo dá uma possibilidade para falar disso, com jovens, especialistas e bispos. Espero que ocorra.

Qual sua opinião a respeito desse relatório da Conferência Episcopal Alemã?

Este relatório é científico, contabiliza números e não casos concretos, nem se refere às pessoas. Por isso, o que estamos demandando agora é avançar em uma investigação independente, não da Igreja, que possa ter acesso aos arquivos e esclarecer os casos concretos, para fazer justiça em nome das vítimas.

Que instituição alemã pode realizar esta investigação, se não for a Igreja?

Deve ser o Estado, que tem o poder. Os juízes não podem fazer isso porque se trata de muitos casos históricos que já prescreveram, mas acredito que se irá formar uma comissão independente com especialistas jurídicos da magistratura. A Igreja deveria colaborar, precisa fazer isso, porque reconheceu a falha e deveria abrir os arquivos para realizar uma investigação a fundo.

O que acredita que ocorrerá na Igreja com este problema?

Eu não sou um profeta. Também não acredito que seja minha tarefa reformar a Igreja, eu tenho demandas concretas das pessoas que sofreram pelos sacerdotes e pela forma como fomos tratados nas últimas décadas. Imagino que a Igreja falará do celibato, do papel onipotente dos sacerdotes, mas nós esperamos que sejam realizadas investigações independentes em todos os países e também aqui no Vaticano. Espero uma oferta de ajuda e indenização para as vítimas, a partir da instituição. A Igreja deveria reconhecer: “Foi nossa falha, foi nosso erro e queremos reparar o dano”.

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