O problema da hierarquia católica com o sexo (parte 1)

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02 Outubro 2018

Esta é uma série de três partes que explora o problema da hierarquia católica com o sexo. A parte 1 examina a compreensão ultrapassada da Igreja sobre a base biológica do próprio sexo e o que isso significa para as crenças sobre as diferenças entre homens e mulheres.

A parte 2 compara a visão da Igreja sobre homens e mulheres com a maneira como costumávamos pensar sobre a raça e descreve isso como uma ideologia.

A parte 3 mostra como os ensinamentos da Igreja baseados nessa visão dos homens e das mulheres contradizem outros ensinamentos morais de longa data da Igreja e não foram recebidos pelos fiéis.

A análise é de Jeanne Follman, autora do livro When the Enlightenment Hit the Neighborhoods: The Waning of the Catholic Tradition — and Hope for Its Future, publicada em La Croix Internacional, 17-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não se trata apenas da crise dos abusos sexuais e do encobrimento – o que já é pavorosamente suficiente. Se pensarmos no período de tempo desde o Vaticano II, quase todas as controvérsias divisivas dentro da Igreja Católica tinham a ver com o sexo.

A encíclica Humanae vitae, do Papa Paulo VI, de 1968, deu o pontapé inicial ao declarar o uso de contraceptivos artificiais como um pecado mortal. Essa proibição gerou uma enorme divergência entre os fiéis, o clero e os teólogos, e até mesmo entre muitos bispos.

Ela se acalmou depois de um tempo, com o acordo tácito entre as partes de que os fiéis e o clero ignorariam a proibição e que os bispos ignorariam que aqueles a ignoravam.

O sexo ainda incomoda a Igreja hoje: a cobertura da contracepção por parte dos planos de saúde; o celibato sacerdotal obrigatório; a homossexualidade e o casamento gay; a ordenação de mulheres; a coabitação antes do casamento.

A luta em torno da recepção da Eucaristia pelos divorciados em segunda união novamente gerou ameaças de cisma.

Os sínodos dos bispos de 2014 e 2015 e o recente Encontro Mundial das Famílias acabaram ficando presos ao sexo. A hierarquia católica simplesmente não consegue parar de brigar sobre quem deve fazer sexo com quem e sobre como deve fazê-lo.

No entanto, quando se trata de sexo, a Igreja institucional regularmente se comporta de um modo dolorosamente infeliz ou tragicamente destrutivo. Por que é assim?

O fracasso em lidar com o sexo é impulsionado por uma série de coisas, incluindo o celibato sacerdotal obrigatório, uma cultura clerical e uma estrutura de governo autocrática que espera a obediência e recompensa o sigilo.

Isso é especialmente verdade em relação à crise dos abusos sexuais e ao encobrimento. Mas, subjacente a tudo isso, está uma compreensão antiquada da base biológica do próprio sexo e do que isso significa para as diferenças entre homens e mulheres.

Essa compreensão afeta não apenas os seus ensinamentos, mas, em última análise, o modo pelo qual a Igreja governa a si mesma e se comporta no mundo. Portanto, vale muito a pena um esclarecimento.

O gênio feminino

O Papa Francisco sempre admirou as mulheres, descrevendo-nos até mesmo como pessoas que têm um “gênio feminino” especial que os homens não compartilham.

Ele expressou isso quando falou à União dos Superiores Gerais em maio de 2016: “... a mulher olha a vida com olhos próprios, e nós, homens, não podemos olhá-la assim. E o modo de ver um problema, de ver qualquer coisa é diferente em uma mulher em comparação com um homem. Eles devem ser complementares, e, nas consultas, é importante que haja mulheres”.

Por mais lisonjeira que essa atitude possa parecer, o que vem junto com ela é um pouco mais complicado.

No ensinamento da Igreja sobre o assunto, o gênio feminino é definido por quatro atributos-chave. As mulheres têm uma natureza receptiva, tanto biologicamente, pois foram feitas para receber uma nova vida, quanto espiritualmente.

Elas são sensíveis e são capazes de ver as necessidades mais profundas do coração. Elas são generosas e disponíveis para atender às necessidades da comunidade ao seu redor. E são maternas, tanto dentro da família individual quanto dentro de toda a família humana.

O gênio feminino das mulheres que criam seus filhos, um filho de cada vez, pode mudar a face da sociedade.

O papa vê esse gênio feminino como uma questão de eclesiologia – a teologia da própria Igreja, sua natureza e estrutura.

Como o Papa Francisco explica: “Na eclesiologia católica, há duas dimensões: a dimensão petrina, que é a dos apóstolos – Pedro e o colégio apostólico, que é a pastoral dos bispos –, e a dimensão mariana, que é a dimensão feminina da Igreja”.

A dimensão petrina inclui Pedro e os apóstolos, e os papéis dos padres e bispos na construção e na manutenção da vida da Igreja.

A dimensão mariana ou feminina inclui o trabalho materno de carregar e criar os filhos. Isso exercita o gênio feminino e deveria ser generalizado para a sociedade, de modo que as mulheres possam humanizar as suas estruturas e tornar a sociedade mais familiar.

Essa visão sobre os homens e as mulheres como inatamente diferentes e complementares é fundamental no conceito da Igreja sobre si mesma e sobre a sua resposta ao mundo.

A ideia de que homens e mulheres são inatamente diferentes e complementares sustenta a sua visão do matrimônio como uma parceria entre um homem e uma mulher como a raiz da família; esta é vista como uma certeza dada por Deus em um tempo incerto, em que a Igreja é o último baluarte contra um Ocidente secular invasor que busca obscurecer as identidades sexuais.

Como o sexo é apropriado apenas dentro dos limites do matrimônio e somente se estiver sempre aberto à procriação, o controle de natalidade e o sexo fora do casamento são moralmente errados.

Como a complementaridade masculino-feminina é essencial para o matrimônio, os atos homossexuais são desordenados, e qualquer tentativa de tornar as uniões entre pessoas do mesmo sexo equivalentes ao matrimônio também está errada, porque desconsidera a natureza essencial de uma instituição estabelecida por Deus.

E como os homens compõem a dimensão petrina da Igreja, e as mulheres, a dimensão mariana, a ordenação ao sacerdócio (e, portanto, o governo da Igreja) é reservada apenas aos homens.

A questão é: essa é uma maneira correta de a Igreja pensar nos homens e nas mulheres?

Obviamente, é difícil argumentar sobre o fato de que os homens e as mulheres em geral são diferentes. Isso é uma obviedade.

De fato, grande parte do pensamento feminista se esforça para identificar as formas pelas quais o sexo afeta o modo como vemos e interagimos com o mundo e para compreender e experimentar essas perspectivas diferentes.

O inovador livro In a Different Voice: Psychological Theory and Women's Development, de Carol Gilligan, de 1982, é um exemplo clássico disso. É claro, homens e mulheres são diferentes. Essa não é a questão.

A questão é que, nos ensinamentos da Igreja, os homens e as mulheres devem ser diferentes, devem ser totalmente diferentes, e suas diferenças imutáveis e complementares devem servir para definir e restringir o que cada indivíduo é obrigado a fazer, assim como aquilo de que cada um é excluído.

Homens de um lado, mulheres de outro, cada um com sua própria essência sexual inata. E aí está o problema.

Já vimos essa história de diferença inata antes, no fim do século XIX e início do século XX, no modo como costumávamos pensar as raças.

Na parte II, vamos explorar como a visão da Igreja sobre as diferenças inatas entre homens e mulheres é misteriosamente semelhante à antiga compreensão da raça, agora desmentida, e vamos mostrar que, de fato, isso é uma ideologia.

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