Bênção e autoridade. Em Palermo, Papa Francisco decepciona os pequeno-burgueses. Artigo de Andrea Grillo

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18 Setembro 2018

“A liberdade de Francisco é verdadeira autoridade. Nós a havíamos esquecido, preocupados com uma urgência de ‘controle’. Ela é fiel à antiga consciência eclesial, que sabe, já há muitas décadas, que ‘celebrar’ não é principalmente ‘repetir um repertório e observar normas’.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua, em artigo publicado por Come Se Non, 17-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A visita do Papa Francisco a Palermo e à Praça Armerina causou uma certa apreensão por causa de uma “bênção livre” que o papa reservou aos jovens, no fim do encontro com eles. Ele os saudou improvisando palavras de bênção, com autoridade.

Como já havia acontecido em outros casos – no lava-pés na prisão ou nos encontros ecumênicos – o “tradicionalista” (ou, pelo menos, aquele que assim se crê) lamenta a liberdade do papa em relação à rubrica. E cai facilmente na armadilha de pensar que o papa é propenso demais a “abusos” litúrgicos. Por que não “recitar a solene bênção papal” e recorrer a palavras improvisadas no momento? Ainda mais que o papa as justificou com a “identidade não só católica” do auditório! Um papa que assim – para eles – parece renunciar à identidade católica para agradar o mundo!

Na realidade, o Papa Francisco sabe muito bem o que é a tradição, ao contrário dos seus críticos pequeno-burgueses, que pretendem reduzir o papa a um “controlador da ordem pública eclesial”. Para Francisco, “confirmar na fé” não é, acima de tudo, “repetir um repertório sagrado”, mas “dar voz à inquietude de todo coração”. Essa é a mais antiga função do pastor, que nós corremos o risco de confundir com um “controlador de abusos”.

Essa deformação chega até nós dos últimos séculos, que, por contraposição, correm o risco de interpretar o papa com um “modelo napoleônico”. O “chefe” deve dar o bom exemplo: e o bom exemplo é, para os pequeno-burgueses, não se permitir qualquer liberdade.

Mas Francisco sabe que o papa, assim como todo bispo e todo padre, deve ser capaz de “abençoarlivremente. Precisamente a bênção, que é o nível mais elementar de relação com Deus, aquele que “não pede nada a ninguém”, deve permanecer como uma linguagem livre e frouxa. Eu posso abençoar um barco, posso abençoar um estábulo, posso abençoar homens e mulheres, jovens e velhos, santos e pecadores. Sem pedir nada. Não são necessários certificados, carteiras de identidade, registros assinados, estados de graça: nada. A bênção é “palavra primeira e última”, sem condições.

Tratar a bênção como se fosse uma “missa” – ou seja, tratar o gesto mais externo como se fosse o ato mais íntimo – significa perder a liberdade interior com que a Igreja sabe que tem um centro e uma periferia, uma linguagem de iniciados e uma de apaixonados, e tantos registros diferentes, com regras diferentes e interlocutores diferentes.

Aqueles que criticam Francisco, porque ele se permite “inventar uma bênção”, são tão surdos e cegos com respeito à tradição que pensam que “abençoar” equivale a ler em um texto uma fórmula de bênção. Temos um repertório alto e solene, e ai de nós se não recorremos a ele ricamente. Mas ele continua sendo grande apenas se nos der a inspiração para “abençoar” em cada língua e em cada registro.

Francisco fez isso muitas vezes. Ainda na noite da eleição, ele improvisou com autoridade. Mas como podemos esquecer quando, sentado em frente a Shimon Peres, em Israel, ele improvisou uma “nova bem-aventurança” para dar graças pela acolhida recebida?

Essa liberdade de Francisco é verdadeira autoridade. Nós a havíamos esquecido, preocupados com uma urgência de “controle”. Ela é fiel à antiga consciência eclesial, que sabe, já há muitas décadas, que “celebrar” não é principalmente “repetir um repertório e observar normas”.

Quem também diz isso com clareza é a Sacramentum caritatis (nn. 38 e 40), a exortação apostólica sobre a eucaristia, que sabe que a “ars celebrandi”, a arte de celebrar, deve passar pela escrupulosa observância de todas as rubricas (típica do ritus servandus) à ativação de todas as linguagens que caracterizam a atuosa participatio. Francisco, com o gesto de bênção que encerrou o encontro com os jovens, indicou um importante caminho de implementação da Reforma litúrgica.

Devemos nos resignar: Francisco não é um papa pequeno-burguês. Portanto, não deveria surpreender que ele escandalize os comentaristas que gostariam como papa o estereótipo previsível de um pontífice tranquilizador para os burgueses pequenos, pequenos. Que não querem ser “confirmados na fé”, mas apenas tranquilizados “naquilo que eles pensam que se deve crer”. E, sobre isso, Francisco absolutamente não os tranquiliza.

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