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17 Setembro 2018

“Hoje somos chamados a escolher de que lado queremos estar. Não se pode crer em Deus e ser mafioso.”

O comentário é de Piero Schiavazzi, professor de geopolítica vaticana da Link Campus University, em artigo publicado por L’Huffington Post.it, 16-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo. 

Pode ser o impacto midiático da mensagem. Pode ser o nível místico da paisagem. O fato é que, no pano de fundo, o Monte Pellegrino , em Palermo, na Itália, parecia o Sinai, e ao povo do Êxodo, enfileirado em versão Mar Vermelho, pareceu que Francisco descia de lá em vez do helicóptero: proferindo e esculpindo o seu “ou-ou” diretamente nas consciências. Baixando o “aplicativo” nas telas dos tablets e dos celulares, como se fossem tábuas dos mandamentos divinos.

Cenário semelhante ao da Calábria, no gramado de Sibari, quando, no sopé do maciço de Pollino, ele pronunciou a excomunhão dos homens de honra, impondo-lhes o isolamento de Deus, junto com o sequestro preventivo do bem mais cobiçado, a vida eterna. Conceitos e preceitos pesados como pedras, mas jogados e sussurrados, do púlpito, com leveza e serenidade, a “gentileza” do estilingue de Davi, levantando o tiro e abaixando o tom: “Eu digo a vocês, mafiosos, se não fizerem isso, a sua vida estará perdida e será a pior das derrotas”.

Acolhido como um libertador, o papa sul-americano chegou à Sicília como herói dos dois mundos. Quase como um Garibaldi vestido de branco, tentando uma missão impossível, diante de um adversário invisível, resistente, muito menos provisório e transitório do que o rei Bourbon.

A partir do cais de Punta Favarolo, em Lampedusa, ao metropolitano, etimológico de Palermo“panormos” em grego, que significa “tudo porto” – o herdeiro do pescador da Galileia voltou a lançar uma rede universal, muito além das margens do Mare Nostrum: Mediterrâneo e oceano juntos. [...]

Uma viagem italiana e internacional, portanto. Mais uma vez, como em julho de 2013, a Trinacria tornou-se o pivô de um compasso planetário: que, na época, serviu para inverter o eixo geopolítico do papado de Norte a Sul, ao longo da rota dos migrantes. E agora completa o processo de um périplo teológico, que começou epicamente no Valle dei Templi, no dia 8 de maio de 25 anos atrás, com o grito de guerra de João Paulo II: “Um dia virá o juízo de Deus”, e que continuou trágica e barbaramente em um pátio de Brancaccio, poucos meses depois, no dia 15 de setembro, com a resposta violenta da Cupola e os disparos do assassino do Pe. Puglisi.

Se a cultura da legalidade para o papa polonês, no fim do século XX, era um ponto de chegada e uma consequência necessária e obrigatória da evangelização, para o pontífice argentino, em tempos e cenários de globalização – além de urbanização – selvagem, ela define, pelo contrário, a premissa imprescindível, invertendo leitura e procedimento, ótica e tática.

“A máfia e o crime organizado, que muitas vezes dominam os não lugares da globalização”, sintetizou Andrea Riccardi eficazmente, “constituem o principal desafio para a Igreja das periferias... É nessas selvas urbanas que vive o povo de Deus, como Bergoglio o concebe”.

Nesse contexto, a transparência das instituições e do laço social torna-se condição preliminar para que a comunidade dos homens possa ser atravessada pela luz divina. E ascender ao nível superior da comunhão com Deus.

Se, portanto, no glossário náutico de Joseph Ratzinger o perigo vinha de cima e do vento do relativismo, que sacode o barco de Pedro, na percepção de Francisco, que assumiu o leme, o perigo sobe de baixo, dos tentáculos do polvo que envolvem o navio e a sua carga de almas, arrastando-o para o fundo.

Na imersão siciliana total de Francisco, Palermo se encontrou e escutou dois papas: o da acolhida sem fronteiras e o da luta sem quartel. O construtor de pontes e o devastador-surpresa. Protagonista de uma guerra preventiva, em que o que está em jogo, estrategicamente, é o controle do território, não só na dimensão espacial, mas também na sua distensão temporal, em relação ao futuro e às novas gerações.

“Para ser construtores do futuro, também se deve dizer não”, recordou ele aos jovens à tarde, na Praça Politeama: “Não ao muro da omissão, um ecomonstro que deve ser demolido para construir um futuro habitável”.

No dia 15 de setembro de 2018, o Pe. Puglisi teria completado 81 anos. Os mesmos de Bergoglio, sabor de festa e de presságio de tempestade: “Talvez, toda a Itália está se tornando Sicília... E sobe como a agulha de mercúrio de um termômetro, essa linha da palma da mão, do café forte, dos escândalos: subindo a Itália, e já está para além de Roma...”.

Sessenta anos depois da profecia secular de Leonardo Sciascia, torna-se realidade e transfere-se das páginas do romance para o veredito dos juízes, que sanciona o caráter mafioso do “mundo do meio”. “Mafia capitale” de nome e de fato: isto é, caso jurisprudencial, não só manchete de jornal.

Sentença magistral, mas também magisterial, que, em singular coincidência – para não dizer providencial – com a visita do pontífice, preparou “o caminho do Senhor”, atualizando e visualizando a mudança de perspectiva.

Como se a revolução cultural, de sensibilidade e de mentalidade em relação às máfias, avançasse sincronizada e o Tribunal de Apelações tivesse rompido o cerco na Urbe, apoiando os esforços do bispo de Roma de sair dos muros de uma interpretação restritiva e apoiando-o na sua campanha no Orbe.

Na gradualidade peculiar e siciliana de santidade terrena, idealizada por Sciascia e dada a conhecer pelo sucesso do best-seller Il giorno della Civetta, Pino Puglisi se alistaria e certamente figuraria entre os protagonistas, mas perderia instantaneamente o título de “padre”. Também de “bem-aventurado”. Seria um Homem” e ponto final, mas com o H maiúsculo. Daqueles raros, muitas vezes solitários que o escritor insere no topo dos hits. Acima dos “homúnculos” e já celebérrimos “quaquaraquá”. Categoria que, a partir do Pe. Abbondio em diante, pode ter acesso à batina, ou até à púrpura, conquistando fama – e infâmia – literária. Mas se vê inexoravelmente impedida a glória dos altares, no imaginário coletivo dos contemporâneos e no julgamento conclusivo, inapelável, de Deus e do seu vigário.

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