Para reformar a Igreja, é preciso tornar as mulheres cardeais. Artigo de James Keenan

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11 Setembro 2018

“Nas reformas mencionadas à luz da crise atual da Igreja Católica, vejo muitas propostas punitivas mas poucos modelos construtivos de empoderamento”, escreve James Keenan, padre jesuíta, teólogo moral, fundador do Catholic Theological Ethics in the World Church e diretor do Instituto Jesuíta do Boston College, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 08-09-2018. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

“Acredito que enquanto as mulheres não tiverem poder na Igreja, não teremos reforma”, afirma Keenan.

Segundo ele, seria “bom pensar em leigas no cardianalato. Se o Papa quiser formar um grupo de oito ou nove cardeais para ser seus conselheiros mais confiáveis, por que todos têm de ser ordenados? E por que todos têm de ser homens?”.

Eis o artigo.

Nas reformas mencionadas à luz da crise atual da Igreja Católica, vejo muitas propostas punitivas mas poucos modelos construtivos de empoderamento.

Acredito que enquanto as mulheres não tiverem poder na Igreja, não teremos reforma.

Em relação a ter poder, não acho que torná-las diaconisas seja um passo considerável, mas sim torná-las cardeais.

No consistório de junho de 2017, o novo cardeal sueco Anders Arborelius sugeriu que o Papa pensa em criar um conselho consultivo especial de mulheres associado ao Colégio dos Cardeais para proporcionar mais oportunidades para a liderança feminina na Igreja. Numa entrevista à NCR em que declarou que "o papel das mulheres é extremamente importante na sociedade e na economia”, Arborelius acrescentou que “muitas vezes, na Igreja, estamos um pouco atrasados”.

Ele disse que o órgão consultivo “pode ser mais oficial”: “temos um Colégio dos Cardeais, mas poderíamos ter um colégio de mulheres que aconselhasse o Papa”.

Quando ouvi isso, pensei na conversa de alguns anos atrás sobre tornar as mulheres cardeais. Prefiro a proposta anterior. Criar um conselho consultivo feminino, como sugere o cardeal sueco, me lembra das alegações de “separado, mas igual” - que nunca se torna verdade. O conselho consultivo feminino seria inevitavelmente secundário se as mulheres fossem excluídas do Colégio dos Cardeais.

Há apenas 100 anos a lei canônica determinou que os cardeais deveriam ser ordenados. Antes disso, o Colégio dos Cardeais era composto de homens ordenados e leigos.

Na minha visão, o Código de Direito Canônico de 1917, que na época era novo, procurava uma forma de controlar os abusos na nomeação de cardeais. Alguns tinham pouco conhecimento de teologia e outros eram muito jovens.

Por exemplo, o Papa Clemente XII decidiu que Luis Antonio de Borbón, filho do rei Felipe V da Espanha, seria cardeal quando ele tinha apenas 8 anos de idade. Exigir a ordenação sacerdotal coibia tais abusos. Em 1983, outro código foi desenvolvido (Cânone 351) exigindo ordenação episcopal para que alguém fosse cardeal.

O Papa pode facilmente remover as exigências por ordenação episcopal ou sacerdotal.

Acho bom pensar em leigas no cardianalato. Se o Papa quiser formar um grupo de oito ou nove cardeais para ser seus conselheiros mais confiáveis, por que todos têm de ser ordenados? E por que todos têm de ser homens?

Essa é a ideia que circula. Em 2012, outro cardeal, Timothy Dolan, disse o seguinte ao Padre Franciscano Benedict Groeschel, numa entrevista na EWTN: “Sabe, na verdade, e eu já ouvi essa história de mais de uma pessoa, uma vez alguém disse para João Paulo II: 'A Madre Teresa de Calcutá deveria ser cardeal.' E o Papa respondeu: 'Eu já convidei, mas ela não quer.' "

Na verdade, o então cardeal Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI) relatou a oferta também. Em uma entrevista ao The Irish Times em 2013, pouco antes do primeiro consistório do Papa Francisco, o padre jesuíta Federico Lombardi, na época diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, considerou a questão do cardinalato feminino.

“Teológica e teoricamente, é possível”, disse Lombardi. “Ser cardeal é um dos papeis na Igreja em que teoricamente não há necessidade de ser ordenado”.

Mas pouco antes do consistório, ele acrescentou: “dessa ideia a sugerir que o papa nomeie cardeais mulheres no próximo consistório é uma realidade remota”.

Minha proposta, assim como a do cardeal sueco, continua sendo teológica e teoricamente possível. Outro cardeal, Reinhard Marx, da Alemanha, membro do Conselho dos Cardeais, disse recentemente que "precisamos de uma nova imagem do que a Igreja deve ser, ou seja, uma Igreja mundial liderada por homens e mulheres de todas as culturas trabalhando em conjunto”.

O cardeal comentou sobre quantas mulheres têm cargos administrativos em dioceses e observou crescimento significativo ao redor da Alemanha e da Áustria. Para ele, assim como para a maioria de nós, precisamos ver as mulheres com autoridade na Igreja.

Ninguém precisa dar ouvido a mim ou ao cardeal Marx. Deem ouvidos a Lucetta Scaraffia, professora da Universidade Sapienza de Roma, que contribui com o L'Osservatore Romano e é editora da edição complementar mensal Donne Chiesa Mondo ("Mulheres, Igreja, Mundo"). Ouçam seu chamado às mulheres para terem cargos reais de autoridade que correspondam à sua capacidade.

Quando penso em verdadeiras líderes femininas, penso em teólogas. Quando quiser ver liderança na Igreja, olhe para elas. São uma liderança que têm consistência e autoridade. Pense em M. Shawn Copeland, Lisa Sowle Cahill, Irmã de São José Elizabeth Johnson, Irmã de Misericórdia Margaret Farley, Cathleen Kaveny, María Pilar Aquino, Irmã Dominicana Mary Catherine Hilkert, Susan Wood, Phyllis Zagano, C. Vanessa White e Irmã do Imaculado Coração de Maria Mary Ann Hinsdale. Do mundo todo, pense em Linda Hogan, Agnes Brazal, Philomena Maura, Maria Clara Bingemer, Marianne Heimbach Steins, Virginia Saldanha, Ivone Gebara, Irmã Beneditina Teresa Forcades, Irmã Teresa Okure e centenas de outras.

Temos uma lição para aprender com essas teólogas. Antes de 1975, dava para contar as teólogas do mundo todo em uma mão. Nestes últimos 40 anos, as mulheres não apenas entraram nessa área, mas se tornaram grandes teólogas, liderando o campo atual.

Ao trabalharmos para que as mulheres surjam em escritórios eclesiásticos - seja como cardeais leigas, conselheiras, diaconisas ordenadas, administradoras diocesanas ou qualquer outro cargo -, é bom reconhecer que quando assumirem essas posições elas também vão se tornar líderes.

E essa é a reforma mais necessária para a Igreja: que as mulheres sejam empoderadas e iguais aos homens em termos de autoridade. Quanto tiverem autoridade, terão liderança.

O primeiro passo, portanto, é que as mulheres possam ser cardeais. Elas não têm que ser ordenadas (o que poderia levar anos). Precisamos permitir que as mulheres ocupem seus espaços na mesa, mesa essa em que o Papa se encontra com os conselheiros em que mais confia.

Fazer com que as mulheres possam ser ordenadas e proporcioná-las esse lugar abriria espaço para uma reforma evidente. E penso que também daria nova esperança e vida à Igreja.

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