A "cultura do encobrimento" na câmera lenta - parte 3 - Cardeal Norberto Rivera Carrera sobre o escândalo em Boston, em 2002: "É uma perseguição contra a Igreja como aquelas de Nero, Hitler e Stalin

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01 Setembro 2018

O Arcebispo emérito da Cidade do México, card. Rivera Carrera: Alguns abusos "por homens da Igreja não autoriza ninguém a implementar um programa geral de perseguição agressiva contra a Igreja dos EUA" (2002).

Leia também a parte 1 e a parte 2 da série "Cultura do encobrimento". 

A reportagem é de Luis Badilla e Francesco Gagliano, publicada por Il sismografo, 30-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini

A revista 30 Giorni, em junho 2002 publicava uma entrevista com o então arcebispo de Cidade do México, Cardeal Norberto Rivera Carrera, talvez o cardeal latino-americano mais discutido e contestado na região após o colombiano Alfonso López Trujillo (1985-2008). A entrevista era assinada por Gianni Cardinale, o mesmo autor daquela entrevista realizada com o cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga, que nós comentamos dias atrás, para entender melhor as modalidades com que os vértices da Igreja têm abordado a questão da pedofilia clerical. Nessa segunda conversa, o jornalista fez várias perguntas ao cardeal mexicano para que respondesse sobre a questão dos abusos; logo foram postas ao centro da reflexão os episódios de Boston, do cardeal Bernard Law e as declarações anteriormente emitidas pelo cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga sobre o mesmo episódio.

No México, em 2002, não havia relatos de abusos documentados.

O cardeal mexicano responde: "Certamente nossos jornais dedicaram muito espaço a essas histórias. Nós bispos mexicanos falamos claramente que, se alguém entre os fiéis estivesse ciente de qualquer caso poderia ir apresentá-lo às autoridades eclesiásticas e, se necessário, para as civis. A Igreja deve proteger e tutelar as vítimas desse crime horrendo. Até agora, no entanto, pelo que eu sei, não há nenhuma denúncia documentada neste sentido."

Falso. O cardeal conta ao jornalista uma mentira. Em 2002, no México, em sua arquidiocese, era bem conhecida a história repulsiva do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel, já suspeito na primeira visita apostólica promovida por Pio XII em 1942. Em 2002 já circulavam numerosas acusações e denúncias contra Maciel e, obviamente, o arcebispo da Cidade do México não ignorava o que se sabia sobre o fundador dos Legionários. Entre outras coisas, o próprio Maciel já em 1957 havia se queixado em uma carta pública de ser "acusado e difamado".

Mais tarde, dessa vez em referência aos eventos de Boston, o Cardeal Rivera Carrera acrescentou: "É claro que está em andamento um plano orquestrado para atacar o prestígio da Igreja, para desacreditá-la. Não poucos jornalistas me confirmaram a existência desta campanha organizada".

Imediatamente depois chegou a sentença do cardeal: está sendo feita uma tentativa de "anular o prestígio e a reputação moral da Igreja estadunidense".

O cardeal Norberto Rivera Carrera articula dessa forma o seu raciocínio sobre as denúncias e acusações de abusos sexuais de menores e vulneráveis na Igreja, crimes cometidos por membros do clero: "Certamente os homens da Igreja têm seus defeitos, têm seus pecados, como todo mundo. Se necessário, e após um processo regular, eles devem sofrer as eventuais censuras canônicas e as condenações civis que merecem. Mas isso não autoriza ninguém a implementar um programa geral de fúria persecutória contra a Igreja dos EUA. Percorrendo a história da Igreja pode-se perceber que muitas perseguições começaram justamente com a deslegitimação moral de seus membros e sua hierarquia, com a tentativa de desacreditá-la e desarticular o seu prestígio. Foi o que aconteceu desde os primeiros séculos da história cristã, com Nero, por exemplo. Foi o que aconteceu no século passado com as perseguições no México, na Espanha, na Alemanha nazista e nos países comunistas. É o que parece acontecer hoje nos Estados Unidos."(1)

Seria interessante saber o que pensa agora esse cardeal, depois de alguns anos, sobre a pedofilia clerical nos Estados Unidos, depois de Pensilvânia e depois das tomadas de posição do Papa Francisco nestes dias, da Carta ao Povo de Deus ao seu recente magistério na Irlanda.

E pensar que por anos, o card. Norberto Rivera Carrera, muito protegido e apreciado no Vaticano, foi todo poderoso e nunca faltou, como orador de prestígio e autoridade, a qualquer mega-convenção internacional organizada no Vaticano durante o papado de São João Paulo II. Ele costumava visitar com frequência Roma e o Vaticano e falava sobre tudo, mesmo sobre o que não sabia. Depois, durante anos, Rivera Carrera foi a "voz" da igreja latino-americana, em cujo nome falava solenemente. No entanto, era bem conhecido em todos os lugares que o arcebispo da Cidade do México tinha sido um ferrenho protetor de Marcial Maciel (10 de março de 1920-30 de janeiro de 2008) e fez de tudo para esconder os abomináveis crimes e hábitos do fundador dos Legionários de Cristo. Nessa obra, Rivera Carrera, trabalhou durante muito tempo em conluio com a dupla Sodano-Dziwisz, os principais "advogados" de Marcial Maciel no Vaticano.

(1) Convocado pelo jornalista Gianni Cardinale que lembra trechos da entrevista do cardeal hondurenho Rodriguez Maradiaga, o então arcebispo mexicano observava: "Sendo um cardeal, é sempre um candidato a papa, como o são, naturalmente, todos os membros do Sagrado Colégio... Felizmente no conclave, que vai acontecer mais tarde possível, participarão de fato apenas os cardeais, e não esses senhores, cujo parecer demasiado agressivo, nesse contexto, não creio que será tomado em consideração..." Nesse ponto, vale a pena colocar duas pequenas observações: na realidade, na Igreja Católica, todos os homens batizados são elegíveis a papa, não apenas os cardeais.

Então talvez tenha chegado a hora de parar com a dramatização midiática do card. Rodríguez Maradiaga como "candidato a papa de estirpe". Nunca foi assim e nos dois últimos conclaves, 2005 e 2013, coletou alguns votos no primeiro escrutínio e nada mais. Rodríguez Maradiaga "candidato a papa de estirpe" é uma pura invenção da imprensa, talvez porque ele foi durante muitos anos o mais conhecido cardeal latino-americano e midiático e, justamente por causa dessa sua onipresença midiática, alguns de seus coirmãos cardeais carinhosamente o chamam de "Discovery channel".

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