O Espírito e a Carta do Papa

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Incêndio na Ilha do Bananal coloca em risco vida de indígenas isolados

    LER MAIS
  • A queda de Becciu na neblina de Londres: um adeus após um encontro chocante com o papa

    LER MAIS
  • O olhar sobre a “comunhão eucarística”: uma mudança de paradigma. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


28 Agosto 2018

Na carta "Para o povo de Deus", o papa Francisco abordou o sofrimento causado pelo abuso clerical, expressando profunda tristeza pela "dor de cortar o coração" das vítimas e dando voz à vergonha da Igreja. James Hanvey, S.J., acredita que, ao tentar estar atenta à voz e presença do Espírito, a carta do papa marca um momento definitivo a partir do qual não há como voltar atrás. Francisco pede para ir muito além da salvaguarda de programas, procedimentos e estruturas disciplinares, embora sejam, sem dúvida, essenciais", escreve James Hanvey, S.J., diretor do Campion Hall, na Universidade de Oxford, em artigo publicado por La Croix International, 27-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

A carta do papa Francisco "Ao povo de Deus" marca um momento definitivo na vida da Igreja. Quando colocado ao lado de sua carta de abril para a conferência dos bispos chilenos, é um exemplo de liderança inspirada que tem todas as marcas de seu papado: é pastoral, prática, espiritual e profética.

O papa critica "as profundas feridas de dor", nas vítimas e na Igreja, decorrentes do abuso sexual perpetrado por padres, bispos e cardeais, e pede uma profunda transformação da cultura hierárquica e presbiteral. Esta é uma tarefa que só pode ser realizada por todo o povo de Deus.

Nos últimos meses, o peso inexorável do sofrimento causado por abusos na Igreja, em todas as suas formas, veio à luz. O mesmo acontece com a realidade de que a Igreja, quaisquer que sejam os motivos, conspirou com os agressores para tentar silenciar as vítimas e ocultar a verdade.

Como poderia algum grupo da Igreja pensar que proteger a si mesmo era de maior serviço a Deus do que reconhecer o vasto poço da dor e vidas destruídas - as vidas dos fiéis inocentes?

Como poderia uma Igreja defender a dignidade da pessoa humana e reivindicar ser a defensora dos pobres e impotentes, a voz dos sem voz e a memória dos esquecidos, quando ela própria era tão hábil quanto qualquer estado secular ao reprimir o grito daqueles que alegou amar e estimar?

Se a justificativa era evitar que o escândalo abalasse a fé do povo de Deus, quem estava sendo protegida, a Igreja ou a casta clerical?

É neste contexto, e com essas questões legitimamente sendo perguntadas, que o papa Francisco escreveu sua carta ao povo de Deus.

Alguns julgarão como apenas mais palavras piedosas, compreensivelmente duvidando se o chamado à penitência e à oração é adequado, dada a enormidade da crise e a profundidade da dor que ela causou e continua a causar.

No entanto, Francisco mostrou por suas ações que ele não está no ramo da retórica.

A carta ouve o grito das vítimas, há muito tempo abafado, silenciado ou negado, e fala sobre a verdade do abuso clerical na Igreja, que deve ter estado presente mesmo além dos 70 anos mapeados pelo relatório do grande júri da Pensilvânia. Seria um erro pensar que tal abuso poderia estar restrito aos EUA, ao Chile, ao Reino Unido ou à Europa.

A carta do papa não é uma estratégia política, uma admissão de culpa na esperança de que a questão possa ser desarmada, contida e esquecida assim que a atenção pública for distraída pelo próximo choque ou acontecimento.

Francisco não é um político; ele é um servo de Deus e da Igreja de Deus. A Igreja, como aqueles que sofreram abuso, não pode "apenas seguir em frente".

A realidade do abuso e sua verdade - sempre profundamente pessoal - devem irromper no presente e rompê-lo; não pode ser domada ou envolta em palavras e entregue à história.

Fazer isso seria a maior traição de todas. O Espírito não joga política ou trata de decepção e distração. A moeda do Espírito é a verdade: a verdade sobre Deus e a verdade sobre nós.

O papa Francisco percebeu que, na visibilidade e voz daqueles que estão sofrendo, o Espírito está falando. Se não ouvirmos e depois respondermos além dos protocolos e instrumentos legais necessários, a Igreja perderá a graça que está sendo oferecida.

Correrá o risco de tornar a si mesma e sua própria sobrevivência um fim em si mesmo, sucumbindo à tentação da idolatria institucional.

Ao tentar estar atento à voz e presença do Espírito, creio que a carta de Francisco marca um momento definitivo a partir do qual não há como voltar atrás.

A carta não apenas reconhece as vítimas do abuso clerical e a cultura que o perpetua, mas também descreve a desolação na qual a Igreja vive por causa disso. No entanto, a carta do papa não é uma carta de desolação, mas de consolo. O Espírito respira através de suas páginas.

O espírito de testemunho

Nas vozes de todos os que foram abusados, o Espírito testemunha contra os abusadores e fala por suas vítimas. É por isso que a primeira resposta da Igreja é não privá-los de sua voz e de seu testemunho.

O primeiro trabalho de uma Igreja genuinamente com desejo de conversão e arrependimento é ouvir. Este é frequentemente o trabalho mais difícil de todos. Analisar, categorizar e burocratizar o testemunho de quem foi ou está sendo abusado é outro ato de violência.

Sua história única é traduzida e recontada em outras narrativas que eles não controlam mais. Sua voz está perdida, seu rosto ficou anônimo. Se a Igreja realmente se importa e sinceramente deseja mudar, então deve ouvir e honrar cada pessoa abusada.

Deve dar espaço e tempo, pois só então pode começar a ouvir, dentro da história do sofrimento de cada pessoa, o que foi tirado deles e de todos aqueles que, ao longo dos anos, foram escondidos.

O abuso não é apenas um momento ou mesmo múltiplos momentos de violência, manipulação, engano e sujeição. Ele entra na alma assim como no coração e na mente. É uma ruptura no eu e no senso fundamental de segurança do qual depende a identidade.

Abuso, mesmo quando enterrado, ainda tem o poder de sequestrar, destruir e debilitar uma vida. Não pode ser fácil ou convenientemente "curado", pois a vida da pessoa - sua identidade e confiança em si mesmos e em seus relacionamentos - está sempre sob ameaça.

Frequentemente, no caso de abuso clerical, a maneira pela qual o abusador impôs seu poder ou usou as próprias fórmulas da fé para dissimular e envolver a pessoa que ele está abusando faz da linguagem da espiritualidade ou dos sacramentos situações de memórias e recordações destrutivas.

É por isso que devemos ser muito cautelosos em nos precipitar para invocar tais discursos como fontes de entendimento ou promovê-los como estratégias de recuperação.

O abusador predatório já os preencheu e eles podem estar contaminados para a pessoa que foi abusada. Na verdade, eles também podem ser um sintoma da própria cultura clerical que permitiu, desejosamente ou não, que o abuso continuasse sendo possível.

O testemunho daqueles que foram abusados será sempre parte da identidade da Igreja.

Sua perseverança e coragem são um kairós de conversão e renovação para a Igreja. O testemunho tomado pelo sofrimento daqueles que foram abusados e a revelação de sua causa é certamente uma fonte de desolação, mas não é incapacitante.

Ela fundamenta a Igreja contra a idolatria que coloca a reputação institucional acima da vida do povo de Deus.

Sem este testemunho, a Igreja perde a verdade que é a própria liberdade e alegria de sua vida, a condição de sua missão.

A Igreja não pode garantir sua própria existência ou sobrevivência: ela vive sempre de Cristo e do Espírito que dá vida. Somente quando se alegra em sua própria pobreza é livre para servir a Cristo e somente a ele.

A mais profunda ameaça a essa liberdade é o medo: medo de reconhecer o pecado e a corrupção; medo de perder influência e segurança; medo de perder o controle e o poder. Em todos os seus escritos, Francisco destaca essa tentação.

É por isso que a Igreja precisa viver constantemente além de si mesma em sacrifício e amor pela vida do mundo.

Como o Concílio Vaticano II viu claramente na Lumen Gentium, esta não é apenas a forma de discipulado que molda toda a vida cristã, é a forma da santidade à qual todos somos chamados, seja qual for a direção que nossas vidas e relacionamentos possam tomar. É especialmente o caso das vocações ao sacerdócio e à vida religiosa.

O clericalismo finge proteger o sacramento do sacerdócio; na verdade, ele o instrumentaliza, colocando-o não à disposição de Deus ou da comunidade, mas puramente para o benefício próprio.

Esta é a grande tentação de cada dom de ofício, secular ou eclesial, e a única maneira de resistir a ela, é procurar viver com um conhecimento interior da própria pobreza, um estilo de vida de humildade e gratidão pelo dom que se foi confiado.

É isto que é visível na vida de tantos sacerdotes e religiosos (mulheres e homens) gastos na "oferta da viúva" do serviço mundano. Nesse sentido, a conversão não é um momento súbito, mas um processo que dura a vida toda e requer oração (nos bons momentos, nos maus momentos e nos momentos enfadonhos), honestidade, humildade, coragem e fé.

Quanto mais profundo o amor que temos por Cristo e pelo mundo criado e redimido nele, mais desejamos remover o que quer que seja um obstáculo para ele e sua obra. Sob o poder dinâmico deste amor, a Igreja pedirá constantemente ao Espírito que renove e dilate sua vida para que possa viver mais plenamente o sempre maior de um amor cruciforme.

Este é o processo do qual Francisco tem falado em todos os seus escritos e homilias. Ele entende que a Igreja não é apenas uma estrutura institucional, mas uma que é composta por pessoas.

Se as estruturas são relações e essas relações devem refletir a economia da verdade, misericórdia e amor de Deus, então essa economia deve estar enraizada nas vidas e relacionamentos de todos os seus membros.

O Espírito de lembrança e intercessão

O Espírito é aquele que chama todas as coisas à mente e nesse ato também intercede. Em "lembrar", o Espírito Santo toma nossa narrativa e a coloca dentro da narrativa de Cristo, a história da salvação.

Como diz o salmista: "À sua luz, vemos a luz". A obra transposicional e interpretativa do Espírito torna acessível e ativa a graça reconciliadora e libertadora de Cristo na tortuosa história da humanidade.

Desta forma, o Espírito garante a justiça final de Deus, pois nenhum sofrimento inocente é perdido ou desvalorizado, mas é iluminado e brilha na escuridão.

No Cristo crucificado e ressuscitado, a Igreja vê cada vítima e suas feridas, e através da ação do Espírito Santo, cada celebração da Eucaristia é uma memória dele, e deles, feita presente diante de nós e em todos os momentos que se passaram ou que ainda virão.

É, de fato, uma memória perigosa, pois subverte as estratégias de evitação e supressão. Ela inverte os valores de todas as hierarquias de poder e, como a carta do papa Francisco deixa claro, o Senhor nos mostra "de que lado ele está".

Sempre que o padre que abusa celebra a Eucaristia, ele permanece nesta luz penetrante que expõe tudo o que está oculto; ele encontra esse Senhor e nele as vítimas de seu próprio abuso.

Através da epiclese do Espírito, toda a comunidade está presente tanto no testemunho como na intercessão, pois o Espírito é também o criador dessa solidariedade. Solidariedade não significa que assumimos a culpa do perpetrador, mas o sofrimento das vítimas, resolvendo ouvir seu grito e buscar justiça para elas; tornamo-nos seus defensores na oração e na vida.

Deste modo, podemos começar a experimentar a graça profunda da vida da Igreja e de sua esperança: a real comunhão dos santos para quem a intercessão é uma verdadeira obra de reparação.

A comunidade cheia de fé da Eucaristia e da intercessão traz à longa, obscura e tortuosa estrada da história uma luz curadora e orientadora, o que já é sinal de que o Reino está presente.

Não podemos amar a Cristo a menos que amemos a sua Igreja, por mais desfigurada e fraca que seja, mas nunca abandonada pelo Espírito que habita na comunidade e, como a Shekinah, enche-a de uma glória que curará o mundo.

O espírito de consolo e nova vida

Não há barreiras para o Espírito Santo. Nem o mundo secular que sustenta que não tem lugar para Deus pode ser imune ao Espírito. Pode até ser o instrumento do Espírito.

Não é este mundo secular que responsabilizou a Igreja quando ela não pôde fazê-lo por si mesma? Não são os tribunais e agências seculares que ensinaram à Igreja a necessidade de transparência, sem a qual não pode haver credibilidade?

Por meio desses institutos do estado, o Espírito está ensinando a Igreja a "dizer um 'não' enfático a todas as formas de clericalismo".

O mundo secular também chama a Igreja à conversão: ser uma Igreja em que possa confiar e acreditar.

Correndo o risco de alguma generalização distorcida, até agora a Igreja baseou-se em mudanças técnicas para lidar com a crise de abusos: procedimentos, protocolos, estruturas legais, etc.

Elas são necessárias, mas não mudarão uma cultura; elas são os sinais necessários de conversão, mas não são a conversão em si. De fato, elas podem se tornar substitutos para isso.

O papa está comprometido com algo muito mais difícil: ele está pedindo a profunda mudança adaptativa que a conversão requer. Essa mudança adaptativa não é uma ameaça à essência e à verdade da Igreja; ela as recupera.

Francisco está nos pedindo para ir muito além de salvaguardar programas, procedimentos e estruturas disciplinares, embora sejam, sem dúvida, essenciais. O papa, servo do Conselho, reconhece que devemos renovar a cultura eclesial, criando um sacerdócio e um episcopado que se conformam ao sacramento em que se baseiam.

Novas estruturas precisarão ser desenvolvidas para dar essa expressão, incorporar justiça e compaixão e proteger todas as partes da falsidade e da exploração. Essas estruturas precisarão refletir uma efetiva subsidiariedade dentro da vida da Igreja e uma abertura à especialização, independentemente de gênero ou status eclesial.

O Espírito deve ser autorizado a penetrar em todos os aspectos da vida da Igreja e isso exigirá uma disposição para discernir e aprender de todas as fontes. Esta é a mudança adaptativa de conversão que incorpora um novo estilo de vida. Essa mudança é sempre a mais difícil e dolorosa.

Frequentemente, ela coloca aqueles que a defendem ou a lideram em risco de rejeição ou de se tornar um bode expiatório. Ela requer que enfrentemos a verdade e não mudemos a culpa; obriga-nos a não causar curto-circuito no processo com "soluções rápidas" para evitar dor ou constrangimento.

Ela nos leva a outro nível de percepção e entendimento, a ir além do que é familiar e confortável, a deixar nossas mentes e corações serem renovados até começarmos a ter "a mente de Cristo".

Isso leva tempo; requer a graça da fortaleza e da perseverança, mas também a fé no povo de Deus e nos carismas que o Espírito tão ricamente concedeu a eles.

Haverá muitos que desejam resistir à mudança adaptativa de conversão à qual o papa Francisco e aqueles que foram abusados estão chamando a Igreja. Eles podem ter se convencido de que tal mudança não é necessária, ou que o que é necessário é alguma reforma restauracionista em vez de uma metanoia institucional.

No entanto, não pode haver uma fuga da realidade que agora enfrenta a Igreja.

Aqueles que pensam que podem restaurar a dignidade da Igreja ou de seus sacerdotes vestindo-se com vestimentas cada vez mais extravagantes, confundindo liturgia com teatro, pensando que Deus está de alguma forma mais atento a uma "linguagem sagrada" do que à oração sem adornos dos humildes, arriscam ser os guardiões de um túmulo vazio.

Eles são surdos às palavras do anjo: "Por que vocês procuram os vivos entre os mortos?" Eles esqueceram o traje e a linguagem comuns do Deus que vem pro nobis, transcendente em sua pobreza e simplicidade; cuja dignidade reside na lavagem de nossos pés.

O Cristo ressuscitado não é prisioneiro da história, mas seu Senhor e salvador. Uma Igreja que se confessa e o segue deve entender que, para sermos fiéis a Cristo na história, devemos mudar a nós mesmos para mudar a história.

Esta é a condição das próprias existência e missão da Igreja: testemunhar com mais clareza e eficácia ao Senhor que, sozinho, pode curar e restaurar o que é humano em um mundo que está desesperadamente tentando lembrar o que é o humano.

A carta do papa está demarcando o caminho que devemos seguir se genuinamente amamos a Igreja, o Corpo de Cristo, e acreditamos em sua missão.

[Nota: Este artigo apareceu pela primeira vez na revista britânica online Thinking Faith]

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O Espírito e a Carta do Papa - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV