70 anos do Conselho Mundial de Igrejas – CMI. Pronunciamento de Walter Altmann

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26 Agosto 2018

"O que vale para a relação entre igrejas de diferentes confissões, deve valer também para a realidade interna das igrejas: o firme propósito de permanecer juntos", escreve Walter Altmann, pastor emérito da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, com doutorado em Teologia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, professor de Teologia na Faculdades EST, de São Leopoldo/RS, presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas – CLAI, de 1995 a 2001, pastor-Presidente da IECLB, de 2002 a 2010, e moderador do Conselho Mundial de Igrejas – CMI, de 2006 a 2013, por ocasião da Pregação no culto comemorativo dos 70 anos do criação do Conselho Mundial de Igrejas - CMI, na Faculdades EST, em texto publicado em seu Facebook, 22-08-2018.

Eis o texto.

Paz seja com vocês de parte daquele que é, que era e que há de vir, nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Estimada comunidade da Faculdades EST, irmãs e irmãos em Cristo!

“Nós temos o firme propósito de permanecer juntos.” Nesta ocasião comemorativa proponho refletirmos sobre esse tema. Hoje, há exatos 70 anos atrás realizava-se em Amsterdam, Holanda, o culto de abertura da Assembleia que no dia seguinte, amanhã, portanto, há setenta anos atrás, iria criar o Conselho Mundial de Igrejas – CMI. Marco histórico do ecumenismo e do projeto de busca da unidade cristã. Na mensagem final da assembleia consta a frase que nos serve de tema aqui: “Nós temos o firme propósito de permanecer juntos.” Em inglês a frase é também bem compacta: “We intend to stay together.”. Que eu, tentando captar a força da expressão, traduzi por “Nós temos o firme propósito de permanecer juntos.”

Amsterdam, Holanda, agosto de 1948,
criação do Conselho Mundial de Igrejas – CMI
(Foto: Reprodução Facebook | Walter Altmann)

Mas antes de prosseguir nessa reflexão, alguma breve alusão aos textos bíblicos há pouco lidos. No capítulo 9 de Provérbios, texto previsto para pregação no domingo passado, os ditos populares ali recolhidos personalizam e contrapõem a Sabedoria e a Insensatez. Ambas convidam as pessoas para uma refeição, a Insensatez aquelas que passam à frente de sua casa, para água roubada que seria mais gostosa e pão furtado que seria mais saboroso. (v. 17). E diz: “Entre, gente tola!” Já a Sabedoria envia suas empregadas a gritar do lugar mais alto da cidade, com as mesmas palavras: “Entre, gente tola!”. Mas este convite era para uma festa, um lauto churrasco, poderíamos dizer, regado a vinho. Por que, também neste caso, gente tola?, nos perguntamos. Aparentemente, porque muitas pessoas preferiam deixar-se seduzir pelo convite da Insensatez, decisão que leva à morte, enquanto o convite da Sabedoria que leva à vida, poderia ser recusado. Daí a exortação do livro de Provérbios: “Sigam o caminho da Sabedoria.” (v. 6).

Associando ao nosso tema de hoje, poderíamos arriscar dizer que o largo caminho da divisão da cristandade é o caminho da Insensatez, enquanto que os esforços ecumênicos são o estreito caminho da Sabedoria.

Bem, o texto de Provérbios, fala de uma refeição para a vida. Certamente por isso a seleção de perícopes dominicais o associou ao texto neotestamentário de João, no capítulo 6, em que Jesus discursa acerca de ser ele o pão da vida, o pão vivo que desceu do céu. “Se alguém comer desse pão, viverá para sempre.” Textos de João 6 e seu tema “Jesus, o pão da vida” já nos têm acompanhado nas semanas anteriores. No trecho selecionado para hoje (vv. 51-58) a associação do tema é feita à Ceia do Senhor. A carne de Jesus é a verdadeira comida, e o sangue de Jesus, a verdadeira bebida. Quem come da carne de Jesus e bebe de seu sangue tem a vida eterna e Jesus o ressuscitará no derradeiro dia.

Fala Agnes Abuom, anglicana, do Quênia, moderadora do comitê central do CMI, na sessão comemorativa dos 70 anos do CMI | (Foto: Reprodução Facebook | Walter Altmann)

Nós também hoje estaremos celebrando essa ceia da vida. Um privilégio. Mas aí, fazendo de novo associação ao tema principal de nosso culto hoje, nos damos conta: o movimento ecumênico ainda não foi capaz de conduzir a cristandade a reunir-se em torno da “mesa comum”, da Eucaristia em comum. As diferenças na cristandade ainda são de tal monta, que parcelas significativas dela, em particular a família ortodoxa e a católica, mas também ramos do luteranismo e outros do protestantismo, não se sentem, com sua convicção de fé, em liberdade para celebrar conjuntamente a Ceia do Senhor. Embora em muitos lugares, na base, tenha havido a celebração conjunta ecumênica da Eucaristia, as assembleias e reuniões do CMI não a praticam. No domingo, em meio às assembleias as confissões se separam para celebrar a Ceia cada qual em sua casa confessional. No Brasil tampouco há comunhão de mesa entre as duas maiores igrejas luteranas, a IECLB e a IELB. São marcas dolorosas da persistência das divisões.

Tanto mais importante que reflitamos sempre de novo sobre aquele compromisso assumido lá em 1948: “Nós temos o firme propósito de permanecer juntos.” E a base de tal propósito está no fato de o próprio Cristo ser um. A declaração do propósito está ao fim do seguinte parágrafo da mensagem final da Assembleia de Amsterdam, assinalando a vontade das igrejas:

“Cristo nos tornou propriedade sua, e ele não está dividido. Ao nos achegarmos a ele, encontramo-nos umas com as outras. Aqui em Amsterdam nós nos comprometemos renovadamente com ele, e estabelecemos entre nós um acordo em constituir este Conselho Mundial de Igrejas. Nós temos o firme propósito de permanecer juntos.”

Uma primeira consideração em torno dessa afirmação consiste em que os delegados e as delegadas em Amsterdam – eram 351 representando 147 igrejas de 44 países – tinham plena consciência do peso das divisões. De certo modo, a história da cristandade se desenrola muito mais numa sucessão de inúmeras divisões do que numa continuidade de vida em união. Então, em face de tal realidade só um firme propósito é capaz de perseverar e abrir caminhos de comunhão fraterna e sororal. E o alvo da plena comunhão de mesa eucarística ainda parece distante. Portanto, a necessidade permanente de um “firme propósito”, baseado no próprio Cristo, que é um só, jamais dividido.

Dou um exemplo marcante de como esse processo pode ser difícil. Em 1948, foram poucas igrejas ortodoxas que participaram da constituição do Conselho Mundial de Igrejas. O patriarcado ecumênico de Constantinopla (Istambul), historicamente o mais representativo, embora hoje nem de longe o numericamente mais significativo, foi um deles.

A maioria das igrejas ortodoxas haveria de se afiliar apenas na III Assembleia do CMI, em 1961, em Nova Delhi, Índia. Trinta anos após, na VII Assembleia do CMI, em 1991, em Canberra, Austrália, uma teóloga presbiteriana sul-coreana proferiu uma das palestras principais. No contexto de uma reflexão sobre a ação do Espírito Santo, ela trouxe ao palco representantes do xamanismo coreano. Um escândalo para muitas pessoas, mas em especial para a família ortodoxa, cuja confissão é muito centrada precisamente na pessoa e na ação do Espírito Santo.

Com a acusação de inaceitável proselitismo, a família ortodoxa cogitou e ameaçou retirar-se do CMI, o que duas igrejas ortodoxas, da Geórgia e da Bulgária, de fato fizeram. Encurtando a história, foi constituída uma comissão paritária de representantes ortodoxos e não-ortodoxos que em exaustivas e por vezes tensas reuniões elaborou propostas de reestruturação, mudança na forma de tomada de decisões e diretrizes para a oração no âmbito do CMI.

Numa das reuniões finais da comissão, na Hungria, da qual pude participar, surgiu de parte ortodoxa a preocupação com as orações, pondo em dúvida até mesmo a efetivação de orações em conjunto. (O estilo de orações no mundo ortodoxo é de certo modo bastante diferente do que é praticado no mundo protestante). Nesse momento, porém, o co-presidente não-ortodoxo da Comissão simplesmente declarou: “Se não podemos orar juntos, tampouco podemos permanecer juntos”. Em inglês a frase é ainda muito mais forte, porque ela rima: “If we cannot pray together, we cannot stay together”.

Vocês por certo perceberam a referência àquela declaração de Amsterdam. O então declarado firme propósito estava agora em risco. A representação ortodoxa pediu para deliberar em separado, entre si. Nós não-ortodoxos aguardamos. Após bem mais de uma hora, a representação ortodoxa voltou, dizendo que haviam examinado a questão e sim, a oração conjunta seria possível. Desde então o CMI adotou a terminologia de “common prayer”, “oração comum” ou “oração em comum”, para suas celebrações litúrgicas.

No entanto, a história do movimento ecumênico e do CMI não é apenas de dificuldades e impasses de difícil resolução. Aqui não é o momento nem temos o espaço para historiar tudo. Mas ao longo dos setenta anos tem havido muitos avanços. Hoje são 350 igrejas de mais de cem países. Há cooperação entre igrejas em nível impensável no passado. Muitas questões doutrinais têm sido debatidas, não poucas controvérsias dirimidas, resultando numa muito maior compreensão mútua. Em muitas realidades conflitantes no mundo foram dados testemunhos proféticos de alta relevância, como no combate ao racismo e ao sistema do apartheid em países do sul da África.

Programas tão diversos como solidariedade com as mulheres vítimas de tantas violências, solidariedade com Palestina e Israel, acompanhada de uma reconciliação com justiça, e cuidado da criação de Deus têm sido desenvolvidos. Também se estreitou a relação com a Igreja Católica, que não é membro do CMI, mas o é de duas importantes comissões do CMI, Fé e Ordem e Missão e Evangelismo. E há um grupo de trabalho conjunto CMI e Vaticano.

Por tudo isso e muito mais os 70 anos do CMI também têm sido legitimamente motivo de celebrar, festejar. Um ponto alto foi sem dúvida por ocasião da reunião do Comitê Central do CMI, em junho passado. Além do trabalho costumeiro, houve muita celebração. Além de várias sessões plenárias celebrou-se no domingo, 17 de junho, na catedral de São Pedro, da Igreja Reformada (de tradição calvinista) festiva “oração em comum”, cujo pregador foi o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, de Constantinopla (hoje Istambul, Turquia). E no dia 21 de junho o Papa Francisco visitou o CMI e na sua pregação na “oração ecumênica” e na palestra da sessão festiva da tarde não só parabenizou o CMI, como reafirmou inequivocamente o compromisso ecumênico da Igreja Católica e enfatizou a importância da cooperação entre o CMI e o Vaticano.

Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, foi pregador na oração em comum pelos 70 anos do CMI, em junho 2018, na Catedral de São Pedro (da tradição reformada), em Genebra, Suíça. (Foto: Reprodução Facebook | Walter Altmann)

Exposto isso, podemos concluir, assumindo uma pequena alteração já proposta no que foi declarado em Amsterdam: “Nós temos o firme propósito de caminhar juntos.” Ou: “Nós temos o firme propósito de seguir caminhando juntos.” Vamos, pois, escolher e perseverar no caminho da Sabedoria, vamos comer do pão da vida.

Acrescento um pequeno epílogo. O que vale para a relação entre igrejas de diferentes confissões, deve valer também para a realidade interna das igrejas: o firme propósito de permanecer juntos. Nas últimas semanas a IECLB tem sido sacudida por radicais controvérsias, seja por divergência profunda de convicção política, pela visita do Pastor Inácio Lemke ao ex-presidente Lula e suas posteriores declarações, seja por convicções igualmente profundas em questão moral, como no assunto da descriminalização do aborto até a décima-segunda semana de gravidez. Acusações contundentes têm sido disseminadas na internet e não faltam ameaças ou mesmo concretizações de saída da IECLB.

Papa Francisco profere sua palestra sobre a missão da Igreja e o compromisso ecumênico, no salão de reuniões do Centro Ecumênico, em Genebra. A escrita grega na grande pintura reza: "Que todos sejam um". (Foto: Reprodução Facebook | Walter Altmann)

Isso levanta a questão de saber-se em que consiste a unidade da igreja e por que motivos ela pode legitimamente ser rompida. Nossa confissão luterana não entende ser a igreja um agrupamento de pessoas perfeitas, mas sim uma comunhão de pessoas sempre carentes da graça de Deus. E ela também distingue claramente entre o que é essencial para a unidade na fé e aquilo em que legitimamente podemos divergir, sem colocar em risco a unidade. Simplifico um tanto, mas podemos dizer, com nossas confissões, que essencial é a boa nova do evangelho da graça e da liberdade que nos são concedidas incondicionalmente por Deus, enquanto convicções políticas e assuntos de moral são passíveis de diferenças de concepção e necessitados não de rupturas, muito menos de condenações, mas de paciente e perseverante diálogo, ainda que difícil, sempre de mútuo respeito. Também aí deveria valer:

“Nós temos o firme propósito de permanecer juntos.” Amém.

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