Uma resposta às preocupações sobre um retiro para padres, irmãos e diáconos gays

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23 Agosto 2018

“Eu acredito que esse retiro [para padres, irmãos e diáconos gays em Wisconsin, Estados Unidos, promovido pelo quarto ano consecutivo pelo New Ways Ministry e pelas Irmãs Dominicanas de Racine], que leva em consideração orante as alegrias e os desafios de ‘viver na verdade e na autenticidade’, é uma maneira de criar um clima ‘mais saudável e santo’ na nossa Igreja e um ambiente mais seguro para todo o povo de Deus.”

A opinião é do Pe. Bryan N. Massingale, professor de teologia na Fordham University, em Nova York, e autor de Racial Justice and the Catholic Church [Justiça racial e a Igreja Católica]. O artigo foi publicado em National Catholic Reporter, 22-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Como facilitador desse retiro, eu ofereço estas observações em resposta às preocupações que foram levantadas a respeito:

1. Permissão para um retiro?

Este ano marca o meu 35º aniversário como padre. Ao longo dos anos, eu ministrei retiros para todos os tipos de grupos, incluindo mulheres cristãs, escoteiros, crismandos, seminaristas, ministros de pastoral, jovens adultos, professores e diretores de escolas, conselhos paroquiais, católicos negros, católicos latinos, noivos, religiosas, diáconos permanentes, grupos da Pastoral Universitária, daqueles que abandonaram a Igreja e tentam retornar e até de amantes de gatos católicos (!). Nunca houve uma indicação de que uma notificação prévia era necessária para atuar como guia espiritual para o povo de Deus.

Assim, nunca me ocorreria que se esperasse uma comunicação ou uma permissão singulares a fim de conduzir sacerdotes, diáconos e irmãos em oração. Eles são meus irmãos, homens com quem compartilho os vínculos do ministério, do sacramento e do compromisso de vida.

Francamente, estou chocado e triste por haver uma preocupação tão profunda em relação a um retiro para pessoas que prometeram as suas vidas ao serviço da Igreja.

2. Sigiloso?

Alguns insinuam que há algo “clandestino” em relação a esse retiro. Pelo contrário, esse evento foi divulgado ao longo de um ano tanto na imprensa quanto na internet. O local e o tema do retiro – “Living in Truth: The Call to Authenticity” [Vivendo na verdade: o chamado à autenticidade] – não eram secretos nem estavam ocultos. Também não havia nada de encoberto ou de nefasto sobre o conteúdo ou as atividades do retiro. De fato, eu acolheria calorosamente o meu arcebispo se ele quisesse participar e rezar com esse grupo.

3. Contra o magistério da Igreja?

O New Ways Ministry promove esse retiro para padres, irmãos e diáconos há alguns anos. Sim, essa organização questionou a adequação do magistério oficial e das políticas sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo. Mas dizer que isso invalida esse retiro é um salto de lógica, para dizer o mínimo. Isso implica que qualquer associação com um grupo envolve o endosso de todas as suas práticas.

Mais ao ponto: eu mesmo – e não o New Ways Ministry – escrevi a descrição do retiro no panfleto promocional. Ele diz: “Inspirado no Evangelho de João, o chamado de Jesus a viver a verdade (João 8, 32), a fim de ter uma vida abundante (João 10, 10) irá fornecer o foco para este retiro. Jesus nos convida a pautar o nosso ministério e a nossa sexualidade de acordo com o abraço da verdade. Abraçar a verdade de Deus, descoberta em nosso interior mais profundo, nos desafia e nos empodera a viver de maneira mais autêntica em todas as dimensões de nossas vidas”.

Eu não consigo entender como alguém pode ler isso e concluir que esse retiro “não está alinhado com o magistério da Igreja”. Tal afirmação, mesmo antes de ele acontecer, é, na melhor das hipóteses, infundada – e talvez até um pecado de julgamento precipitado.

4. “Gay”?

Essa é a questão central. Se este fosse um retiro para padres “veteranos”, irmãos “jovens”, diáconos “aposentados” ou padres “alcoólatras”, não haveria nenhuma preocupação ou consternação. A palavra “gay”, com os medos e preconceitos que ela invoca na mente de alguns, é o que torna problemática essa reunião de servos de Deus.

Demos nome ao preconceito: há uma convicção entre alguns de que, quando dois ou mais cristãos gays estão reunidos, você não encontra Jesus, mas sim uma filial de Sodoma. Um retiro gay, então, significa nada além do que uma orgia com orações.

A insinuação é de que gays e lésbicas, especialmente homens gays, são tão sexualmente indisciplinados a ponto de que qualquer encontro se torne moralmente suspeito e espiritualmente perigoso. A insinuação é que gays e lésbicas, especialmente gays, são tão sexualmente indisciplinados que qualquer encontro se torna moralmente suspeito e espiritualmente perigoso. Dizendo isso teologicamente, duas ou mais pessoas gays em uma sala é igual a uma ocasião de pecado.

Em tal mentalidade, um clérigo ou um religioso gays tornam-se uma espécie de “outro” – uma contradição ambulante – impuro, desviante e “menos do que” seus irmãos heterossexuais.

(Isso explica os constantes esforços para culpar os padres gays pelo flagelo dos abusos sexuais – uma calúnia grosseira que também ignora os horrores infligidos às mulheres vítimas-sobreviventes.)

Dito sem meias palavras, clérigos e religiosos gays são um embaraço para alguns na Igreja. A palavra “gay” força um desconfortável reconhecimento público daquilo que muitos já sabem, ou seja, que há padres, irmãos, diáconos – e bispos – orientados para o mesmo sexo, que não apenas são membros da Igreja, mas também a servem honrosamente como lideranças espirituais.

É precisamente por isso que esse retiro é uma necessidade sentida. Clérigos e religiosos gays têm alegrias e desafios únicos que surgem porque eles se esforçam para servir a uma Igreja onde muitos veem a sua presença com suspeita, alerta e até mesmo com hostilidade e desdém.

Assim, eles sentem a necessidade de se reunir e de se encontrar em oração com o Deus que os ama, mesmo quando eles respondem ao chamado para servir uma comunidade de fé que muitas vezes difama a sua sexualidade, um “componente fundamental da sua personalidade” (Congregação para a Educação Católica, 1983).

5. Um “marcador dominante de identidade” a ser vivido em silêncio?

O comunicado do arcebispo de Milwaukee cita um irmão padre que expressa a crença de que:

“A melhor experiência pastoral da Igreja, assim como os nossos ensinamentos consistentes sobre quem somos como pessoas, apontam para a realidade de que nunca é saudável ou santo agir de acordo com os desejos por pessoas do mesmo sexo, mesmo no âmbito meramente emocional. Muito mais saudável e santo é a atitude de que os nossos desejos sexuais são simplesmente uma faceta de quem somos como pessoas, em vez de torná-los o nosso marcador dominante de identidade com um termo como ‘gay’.”

Existem muitos problemas nessa afirmação. Primeiro, os ensinamentos da Igreja realmente encorajam homens gays e lésbicas a formar amizades afetuosas e carinhosas. Sustentar que tal afeição deve carecer de “emoção” a fim de ser santa ou saudável é irrealista e desumano.

Mais precisamente: a afirmação de que os padres que usam a palavra “gay” estão tornando seus desejos sexuais “um marcador dominante de identidade” é uma afirmação gratuita. O Papa Francisco, em sua declaração talvez mais famosa, usou a palavra “gay” ao falar de alguém que ele descreveu como possuidor de um desejo de “buscar ao Senhor”. O Santo Padre reconhece que um padre pode ser gay e ter um desejo íntimo de se conformar à pessoa de Cristo. Em uma palavra, de ser santo. Identificar-se como “gay”, então, não significa que os “desejos sexuais” devem se tornar a identidade central ou definidora de um homem.

Mas a questão fundamental nessa afirmação é que ela transmite uma convicção de que as pessoas gays – e especialmente os padres – deveriam viver vidas ocultas, em que a sua sexualidade é velada da visão pública e encoberta em silêncio. E que tal vida é o melhor caminho para a saúde e a santidade. Eu discordo fortemente disso.

Na verdade, eu defendo que uma cultura tóxica de sigilo é uma das principais contribuições para as ondas de escândalo sexual que atormentaram a nossa Igreja e devastaram as vidas de incontáveis milhares de pessoas. O silêncio alimenta a vergonha; e ambos produzem a imaturidade sexual, a patologia abusiva e a desonestidade sistêmica.

Neste tempo de crise, os leigos não querem ouvir apenas um “testemunho alegre do celibato”, como sugere esse padre (note como essa convocação ignora a existência dos padres casados). Eles querem lideranças da Igreja que sejam espiritualmente saudáveis, psicologicamente maduros e sexualmente honestos.

Acima de tudo, eles querem bispos de integridade que priorizem o bem-estar dos fiéis acima da reputação da instituição.

Eu acredito que esse retiro, que leva em consideração orante as alegrias e os desafios de “viver na verdade e na autenticidade”, é uma maneira de criar um clima “mais saudável e santo” na nossa Igreja e um ambiente mais seguro para todo o povo de Deus.

Em conclusão, é triste que um grupo de pessoas que querem rezar desperte tal preocupação e até mesmo essa histeria. Especialmente uma assembleia orante de ministros que servem à Igreja de Cristo.

Tenho a honra de liderar esse retiro. Eu creio que ele será uma ocasião de graça, não só para aqueles que participarem, mas também para a Igreja a que nós servimos e amamos.

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