O clero sozinho não poderá fazer uma mudança radical, diz a Comissão Pontifícia para Proteção de Menores

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22 Agosto 2018

O órgão criado por Francisco comenta a carta ao Povo de Deus: “pedir e obter ajuda da comunidade inteira”.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 21-08-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

“O clero somente não será capaz de levar adiante uma mudança radical, por isso o Papa Francisco escreve: humildemente deverão pedir e obter ajuda da comunidade inteira”, destacou Myriam Wijlens, membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, em uma nota, publicada hoje pelo ente criado pelo mesmo Jorge Mario Bergoglio no início do seu Pontificado, com a que comenta a carta que o Pontífice argentino dirigiu ontem ao “Povo de Deus sobre os abusos sexuais contra menores.

A comissão coordenada pelo cardeal Sean O’Malley se diz animada pela carta do Papa e agradece ao Santo Padre pelas fortes palavras com as quais reconhece a dor e o sofrimento vivido pelos que sofreram abusos sexuais, abusos de poder e abusos de consciência perpetrados por alguns membros da Igreja. Sempre estaremos em dívida com a valentia e a resistência de tantos homens e mulheres cujo “grito foi mais forte que todas as medidas que tentaram lhes calar”. Os membros da comissão – segue a nota – se sentem apoiados pelo chamado do Santo Padre aos responsáveis da Igreja, para “realizar a tolerância zero e as maneiras para dar conta por parte de todos os que cometem ou encobrem esses delitos”. A carta do Papa Francisco reforça a mensagem da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores de que a tolerância zero e o "dar contas das próprias ações" (“accountability”, ndr) são pré-requisitos da salvaguarda.

A nota conclui com um comentário da comissária Myriam Wiljens: “Na qualidade de advogada canonista involucrada em muitos casos de abusos, me surpreendem três aspectos: primeiro, o Papa Francisco expressa claramente uma conexão entre o abuso sexual, o abuso de poder e o abuso de consciência. Põe por escrito uma conexão que muitos não querem ver. Segundo, cita dois níveis de abuso de poder: estão os que usam sua posição para abusar sexualmente de menores e dos adultos vulneráveis, e estão os que em posições na alta cúpula usam o poder para ocultar. Terceiro, a resposta para pedir perdão e perseguir uma reparação nunca serão suficientes, inclusive porque somente se referem ao passado. Uma olhada para o futuro implica pedir uma mudança radical de uma cultura na qual a segurança das crianças é prioritária. Proteger a reputação da Igreja significa colocar em primeiro lugar a segurança das crianças. O clero sozinho não será capaz de levar adiante tal mudança radical. Por isso o Papa Francisco escreve: humildemente deverão pedir e obter ajuda da comunidade inteira”.

Da sua parte, em uma entrevista com o Serviço de Informação Religiosa, o jesuíta alemão Hans Zollner, também membro da Comissão e presidente do Centro de Proteção de Menores da Universidade Gregoriana, destaca que “o povo foi sacudido por muitas histórias de abusos nesses dias, e muitos pediram publicamente que o Papa dissesse algo, que fizesse algo”. Recorda que a carta “pode ser vista como um primeiro passo para dizer algo e a ação seguirá. Porém as medidas em uma situação tão grave devem ser bem ponderadas para poder responder profundamente a esse desafio”. Zollner indica, particularmente, que “ao se dirigir a todo o povo de Deus”, o Papa “não está dividindo a Igreja em ‘clero’ e ‘leigos’”. Denuncia (como tantas vezes antes) o clericalismo que é, segundo sua análise, uma das raízes dos abusos e de uma cultura de silêncio que deve desaparecer. Em seu lugar deve crescer uma cultura da atenção, da proteção, a verdadeira humildade. Não só com palavras, mas sim com os fatos: perder prestígio, poder e seus símbolos”.

O padre Zollner conclui destacando o seguinte: “Permito-me dizer que a Itália não viveu ainda um momento de verdade como esses em relação ao abuso sexual e à exploração de poder. Espero que estas últimas semanas com tantas notícias tremendas tenham aberto os olhos e os corações também da Igreja italiana e de seus responsáveis, para que se comprometam sem duvidar e consistentemente nessa que é uma urgente chamada do Senhor a todo o Povo de Deus”.

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