Por que muitos economistas, inclusive seu criador, pensam que o PIB é uma medida absurda

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14 Agosto 2018

Em 2016, as autoridades fizeram a maior apreensão de cocaína na história do Reino Unido. Foi encontrada na Escócia, após uma operação internacional, e pesava 3,2 toneladas. O valor calculado dessa quantidade de droga vendida na rua era de 720 milhões de dólares. Sem dúvida, boas notícias para o governo. “Sim, mas na realidade não tanto em termos de PIB”, destaca Jonathon Athow, estadista nacional adjunto no Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido.

A reportagem é publicada por BBC Mundo, 11-08-2018. A tradução é do Cepat.

“Porque, curiosamente, o tráfico de drogas está incluído na medida de produção econômica, que chamamos de Produto Interno Bruto (PIB)”. Efetivamente, o Reino Unido não é o único país que faz isso... mas, por quê?

“O PIB está delineado para ser internacionalmente comparável e em alguns países certas drogas são legais. Para evitar que haja uma distorção entre os países onde é legal e onde é ilegal, contabilizamos drogas que são ilegais”.

“O PIB não distingue entre a boa atividade econômica e a má atividade econômica”, comenta David Pilling, editor associado do jornal econômico britânico Financial Times.

Produzir, por exemplo, algo que salve a vida de crianças conta tanto como a produção de balas para armas que as matam.

Essa é apenas uma das peculiaridades do PIB, uma das medidas de valor mais conhecidas e usadas da Economia que, no entanto, possui muitos detratores.

O princípio da medida e do debate

O PIB totaliza a produção dos bens e os serviços de um país em um certo período e é tomado como indicador para refletir a riqueza de uma região. Além disso, destaca Athow, “nos ajudar a saber quanto vamos receber em impostos e, portanto, quanto o governo pode gastar em serviços como saúde e educação”.

Para compreender para que é útil e o que nos diz, temos que retroceder no tempo, até os anos 1930. Era a época da Grande Depressão nos Estados Unidos. Em Nova York, o economista Simon Kuznets desejava encontrar a maneira de medir a economia em seu conjunto para ajudar a sair da Depressão.

“Começou buscando medir o que era realmente produtivo em um sentido significativo... o que verdadeiramente traria bem-estar”, conta à BBC a professora Diane Coyle, da Universidade de Cambridge e autora de PIB: Uma breve, mas carinhosa história.

Até então, haviam sido feitas muitas estatísticas – quantos quilômetros de vias férreas, a quantidade ferro produzido, etc. –, mas ninguém havia tentado uni-las. Contudo, veio a Segunda Guerra Mundial e o muito influente economista britânico John Maynard Keynes disse: ‘Não necessito saber o quanto há de bem-estar, porque estamos em uma guerra e isso não é bom para o bem-estar. O que necessito saber é o quanto a economia pode produzir e qual é o mínimo indispensável que as pessoas precisam consumir, para saber o quanto sobra para financiar a guerra”, explica Coyle.

O urgente eram coisas como tanques e artilharia, sendo assim era necessário outro tipo de cálculo. Em meio à guerra, o triunfo é o mais importante, desse modo, o enfoque dessa medida mudou”.

Após a guerra, os Estados Unidos precisavam saber como os receptores de ajuda para a reconstrução estavam indo, razão pela qual todos começaram a utilizar o PIB. “Essa iniciativa anglo-americana se estendeu graças às Nações Unidas e se converteu no padrão global”, disse Coyle.

Simon Kuznets, no entanto, não estava muito orgulhoso do que havia ajudado a criar. “Não concordava e foi muito claro a esse respeito. O PIB resultou em algo muito distinto de sua intenção original: uma medida de bem-estar econômica acabou sendo uma medida da atividade na economia”.

“A diferença é que há muitas coisas na economia que não são boas para a sociedade, mas, sim, para a economia. Por exemplo: se há mais crimes, se paga mais aos advogados e à polícia, e isso conta no PIB”.

“E esse debate sobre se queremos medir o bem-estar em algum sentido fundamental ou somente a atividade econômica continua”, afirma Coyle.

Bill Gates no bar

Apesar disso, o PIB chegou para ficar e se tornou a fórmula no. 1 para medir a atividade econômica. Desde então, há listas dos países mais ricos de acordo com seu PIB, apesar de ser um aglomerado que comprime toda a atividade em um número, sem dizer nada sobre a distribuição.

“Há uma piada de economistas que diz: ‘Bill Gates entre em um bar e, na média, todos os que estão ali são milionários’. É uma brincadeira de economistas, por isso não é muito engraçada, mas serve para explicar este ponto: essa frase não nos diz nada sobre a riqueza dos outros clientes do bar, só diz a você algo sobre os ingressos de Bill Gates distribuídos entre todos”, explica Pilling.

“Sabemos, por exemplo, que a renda média dos lares nos Estados Unidos está estagnada nos níveis dos anos 1980. Portanto, grande parte do crescimento que se mede no PIB vai para um setor da sociedade, o 1% ou talvez, inclusive, ao 0.1%. Para que serve isso para a sociedade em geral?”.

“Se isto é uma recessão, eu quero uma!”

Seja como for, hoje em dia, os políticos se alegram se o PIB de seu país é cada vez mais alto, porque podem dizer que sua economia está crescendo. É o ponto de referência e se apresenta como um número que pode dizer a você tudo o que é necessário saber sobre um país.

Contudo, David Pilling comprovou por si mesmo como os números que estão por trás dessas três letras dizem pouco sobre a realidade de um país quando foi a Tóquio, em 2002, para trabalhar como correspondente do Financial Times.

“O Japão era o país que tomaria o controle dos Estados Unidos graças a sua economia pujante, mas esta quebrou e seu PIB nunca se recuperou. Até então, havia permanecido igual durante anos: se fosse um gráfico, seria uma linha reta”.

O economista pensou que dada a estrondosa queda e a pobre recuperação do Japão iria encontrar “gente sem lar, um país em ruínas...”.

“O que encontrei foi, em muitos sentidos, uma economia extraordinariamente vibrante, muito rica e sofisticada, que parecia muito mais abastada que a britânica. Não só para mim... um político que veio me visitar disse: ‘se isto é uma recessão, eu quero uma!’”.

Não estou dizendo que tudo era perfeito no Japão, mas com a expectativa criada, se você visse o Japão pelo prisma do PIB, realmente não se ajustava à realidade de maneira alguma”, explica Pilling.

A chave está no nome

Para Pilling, a experiência no Japão foi prova contundente de que o PIB é uma medida de qualidade muito ruim, ainda que excelente em quantidade.

“A qualidade das coisas no Japão é incrível. A qualidade da comida, dos serviços... um grande exemplo são seus trens-bala, cujos horários se mede em quartos de segundo, seus atrasos são menos de um segundo e também viajam ao dobro da velocidade. No entanto, sua contribuição ao PIB é somente o que custa subir ao trem. Não há ajuste pela qualidade”.

“Então, um trem britânico desorganizado, que se decompõe continuamente, contribui o mesmo ao PIB que um trem bala. Por quê? O que acontece com a contribuição à qualidade de nossa vida?”, pergunta.

E isso se projeta para dimensões planetárias: “Se você fabrica carros que se danificam em um ano e precisa comprar outro, isso é bom para o PIB. Reciclar é ruim para o PIB. A ideia é que produzamos mais e consumamos mais em um ciclo cada vez maior, caso não queiramos prejudicar a economia”, destaca Pilling.

“Contudo, a economia somos nós, a economia é o que escolhemos que seja. A economia pode ser mais tempo de ócio, uma vida mais longa, melhores serviços de saúde ou ar mais limpo. Mas, a não ser que meçamos essas coisas, corremos o risco de continuar com esta medida de nosso suposto êxito, em detrimento de outras coisas”.

“É preciso medir o que nos importa. Caso não se meça algo, o mais provável é que seja ignorado nas políticas públicas. O que os governos medem ajuda a estabelecer suas políticas. Suponha que estabelecessem uma medida que determine o aumento de nossa expectativa de vida, então presumivelmente destinariam mais recursos para melhorar a saúde das nações”, disse o editor associado do Financial Times.

“O PIB é o produto interno bruto... a chave está no homem”, conclui Pilling.

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