James Martin: Por que um padre ou seminarista não relataria o assédio sexual de um superior?

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02 Agosto 2018

"Tomando as razões em conjunto, fica fácil entender por que alguns seminaristas, padres e membros de ordens religiosas podem relutar em falar sobre assédio ou mesmo abuso nas mãos de seus superiores diocesanos, religiosos ou de outros padres no poder", escreve James Martin, S.J., autor do livro "Building a Bridge", em artigo publicado por America, 30-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Por que padres católicos e seminaristas relutariam tanto em relatar o assédio sexual ou abuso por parte de bispos, padres ou superiores religiosos? Esta questão foi levantada repetidamente em análises sobre as alegações contra Theodore McCarrick, o ex-arcebispo de Washington, D.C., que no sábado renunciou ao Colégio Cardinalício. McCarrick é acusado de abusar de um seminarista menor de idade e de jovens padres.

Com base em minhas próprias experiências e muitas conversas com padres e membros de ordens religiosas ao longo dos anos, sugeri seis razões inter-relacionadas para essa relutância.

1) Existe o medo de ser rotulado como “reclamão” ou “encrenqueiro” por outros na diocese ou na ordem religiosa. Às vezes, simplesmente levantar preocupações sobre as ações de uma pessoa no poder (um bispo, reitor de seminário, superior religioso, professor ou padre mais velho) é o suficiente para levar alguns na instituição a criticar ou até mesmo atacar uma pessoa.

A razão básica é o desejo de evitar o "escândalo" em uma instituição com a qual as pessoas se comprometeram e se orgulham (Este é o caso não apenas na Igreja Católica, mas em outras organizações religiosas, bem como organizações seculares que enfrentaram casos de abuso, por exemplo, a Penn State).

Qualquer caso de abuso e assédio, especialmente quando tornado público, piora a reputação da Igreja, da diocese, do seminário e da ordem religiosa, e diminui os sentimentos positivos de uma pessoa quanto a pertencer na instituição. Há, portanto, um desejo reflexivo de proteger a reputação da instituição à qual se pertence. Esse reflexo pode ser intensificado em uma pessoa com algum cargo oficial, que, de certo modo, representa a instituição para o mundo exterior. Aqueles em autoridade são, por vezes, especialmente resistentes a ouvirem más notícias sobre a instituição.

Há uma razão mais simples para a relutância de alguns em denunciar abuso ou assédio: eles entendem que, para os responsáveis, isso significará mais trabalho. Se for crime, significa denunciar as ações do padre às autoridades civis. Se for um comportamento inadequado (mas não criminoso), isso ainda significa fazer muitas tarefas que poucas pessoas querem empreender, incluindo confrontar o agressor ou assediador e, talvez, removê-lo do Ministério. Tudo isso pode levar a sentimentos tácitos de “Eles odiarão ouvir isso” entre aqueles que são assediados ou abusados.

2) Existe o medo em ser dito para não “levar as coisas tão a sério”. Especialmente se o assédio persistir por anos e for amplamente “conhecido”, como aparentemente foi o caso de Theodore McCarrick. Outros que foram assediados ou superiores que souberam disso podem tentar relevar ou minimizar o caso como algo que "simplesmente acontece".

3) O medo de ser dispensado quando alguém o denuncia. Anos atrás, quando era um jovem Jesuíta, relatei um incidente sobre o fato de estar sendo tocado (Ele já havia feito isso antes em outros). Um dos meus superiores respondeu: "Eu não ouvi isso de ninguém". Eu disse a ele: "Você está ouvindo isso de mim". O padre em questão não foi removido de Ministério por vários anos.

4) Há um medo de hostilidade das pessoas com quem você trabalha ou, em alguns casos, convive. Isso é essencial para aqueles que não estão familiarizados com o mundo católico do clero diocesano e com as ordens religiosas. Ao contrário do assédio no local de trabalho do tipo relatado por aqueles no movimento #MeToo, os sacerdotes e religiosos podem não apenas trabalhar, e sim conviver com as pessoas que estão acusando (No caso de um mosteiro, pode ser alguém com quem você viverá toda a sua vida: os monges prometem “estabilidade”). Às vezes, vítimas de assédio ou abuso também trabalham e convivem com as autoridades religiosas responsáveis por tomar providências - em um seminário, reitoria, chancelaria ou comunidade religiosa.

Há um medo de hostilidade das pessoas com quem você trabalha ou, em alguns casos, convive – James Martin, S.J.

Viver sob o mesmo teto do seu assediador ou partir o pão com a pessoa que você está pedindo para enfrentar o assédio pode ser tremendamente estressante. Assim, a pessoa que está sendo assediada pode dizer a si mesma: “Não vale a pena”.

5) Existe o receio de uma simpatia descabida pelo agressor por parte dos outros. É possível ouvir comentários como este: “Ele faz um bom trabalho. Por que você está se concentrando nessa coisa? Ou: Isso aconteceu anos atrás. Ele é um homem velho agora e não faz mal a ninguém. Por que você está colocando ele nisso?”. Muitos abusadores ou assediadores são narcisistas e hábeis em mudar o foco do abuso ou assédio que cometeram para o quão difícil a vida deles é. Em outras palavras: “Coitadinho do padre fulano de tal.”

6) Existe o receio da reação de outras pessoas que não denunciaram o abuso ou o assédio no passado. Outros padres, seminaristas ou religiosos que foram assediados (ou até mesmo maltratados) e que não se pronunciaram, podem sentir uma intensa mistura de emoções que às vezes se traduz em raiva da pessoa que está relatando (como dizem os psicólogos, esse tipo de sentimento é mais facilmente direcionado para fora do que para dentro). Isto é, se outros padres, seminaristas ou religiosos foram abusados ou assediados, quem relata, ou até fala sobre isso, levanta questões desconfortáveis sobre padrões de “não relato”.

Tomando as razões em conjunto, fica fácil entender por que alguns seminaristas, padres e membros de ordens religiosas podem relutar em falar sobre assédio ou mesmo abuso nas mãos de seus superiores diocesanos, religiosos ou de outros padres no poder. A maior parte disso, como vemos, é baseada no medo - dentro da instituição e da própria pessoa.

Hoje, estou feliz que muitos estão começando a superar esse medo pelo amor à Igreja. Porque, como o Novo Testamento nos lembra, o amor perfeito expulsa o medo.

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