Donos da internet: batalhas pelo poder em uma realidade inventada

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02 Agosto 2018

“Enquanto você está lendo esta nota, metade das pessoas do mundo segue conectada aos serviços do Google, Microsoft, Facebook, Apple e Amazon”, sustenta Natalia Zuazo, em seu livro Los dueños de internet (Debate). O “clube dos cinco” continua concentrando grande parte do poder social, econômico e cultural. Estas corporações parecem ser donas de algo a mais, condicionando não apenas o comportamento dos mercados, mas também a conduta e subjetividade dos usuários. Quanto mais conectados à rede, maior é a ampliação desse poder? Há independência nos serviços digitais? Trata-se de um novo tipo de colonialismo no século XXI?

A entrevista é de Gabriel Tripodi, publicada por Clarín-Revista Ñ, 30-07-2018. A tradução é do Cepat.

Em 2007, a metade do tráfego na internet estava a cargo de milhares de sites. Sete anos depois, reduziu-se para 35 empresas. Nos últimos anos, apenas àqueles cinco. Aqueles que começaram com estes empreendimentos que revolucionaram toda a forma de comunicação – nos anos 1970, Bill Gates e Paul Allen, com a Microsoft; nos anos 1990, Larry Page e Sergei Brin, com o Google, e na década anterior, Mark Zuckerberg, com o Facebook – eram jovens que abandonaram a universidade para conquistar o mundo digital, mas foram além. Hoje, são as novas superpotências mundiais, pois o tempo já não é ouro, mas, sim, os dados e o controle da informação.

Dominação da opinião pública, notícias falsas, precarização do trabalho, monopólios econômicos e a necessidade de politizar a tecnologia são alguns dos temas que mostram a outra face da internet e sobre os quais Zuazo reflete. É que por trás das maravilhas digitais, o acesso a qualquer tipo de informação, bibliotecas infinitas, amizades com pessoas de outros continentes, inclusive encontrar o amor – e tudo isso com apenas um clique -, se esconde um mundo de interesses e ambições muito pouco explorado.

Entre eles, Zuazo nomeia as aspirações da Microsoft. Por meio da chamada “quarta revolução”, a do conhecimento, a empresa de Bill Gates começou uma luta retórica e marqueteira para ingressar no mundo da educação. Fez isso através da palavra chave e fundamental do novo milênio: inovação. Se a escola quer progredir, necessita da inovação e esta vem pela mão da tecnologia. Segundo a pesquisa da autora, a Microsoft começou a desacreditar a tradição educacional para vender seus produtos e fazer um negócio mais que rentável em nível mundial.

Facebook e a criação de “realidade” é outro caso que se expõe na obra. Por meio de um sistema secreto de algoritmos, a plataforma cria uma “bolha de filtros” que seleciona informação. Dentro dela, os navegantes da maior rede social do mundo permanecem dentro de um menu de notícias que só tem a ver com seus interesses. Contudo, o restante permanece de forma oculta. O que aconteceria se retirássemos de nossa vida tudo o que não gostamos?, questiona a pesquisadora.

Nesta entrevista, Zuazo analisa a dominação das corporações tecnológicas e o que fazer para proteger os dados pessoais com os quais elas trabalham.

Eis a entrevista.

Há tempo utilizamos plataformas digitais, mas nem sempre se as questionou. Acredita que o panorama está mudando?

Não é algo massivo. No entanto, ainda que de um modo tímido, há um interesse sobre a responsabilidade que estas corporações possuem. Ao menos, as perguntas começaram a ser formuladas. Para além do cuidado de nossa privacidade nas redes e a conscientização destes temas, acredito que temos que questionar um pouco mais a transparência dos serviços que essas megaempresas oferecem. Por isso, parece-me fundamental – necessitamos disso – politizar a tecnologia, preenchê-las com ideologia, porque desta maneira poderemos evitar os monopólios que utilizam nossos dados sem nenhum tipo de regulamentação.

O que podemos fazer, como usuários, para proteger esta informação que as corporações utilizam?

Nós interagimos o tempo todo com estas empresas, já que o telefone é um aparelho que temos muito próximo. E, como usuários, podemos demandar que nossos dados sejam corretamente tratados. Porque além de usuários, somos clientes e, sobretudo, cidadãos com direitos. Minha ideia é, entre outras, conscientizar sobre as ações que estes monopólios realizam. De nosso lugar, podemos nos comparar a consumidores de outro tipo de bens ou serviços. Desta forma, talvez não dê uma ideia de como reagir. Quando não gostamos de uma peça de roupa, não a compramos ou buscamos outra marca. Ou seja, há mais variedade. Isso não acontece com as plataformas digitais. Por isso, é importante que, a partir do Estado, são geradas alternativas e que não haja somente uma opção.

Escreveu sobre alguns casos que puderam reverter esta situação, como na Espanha e Brasil.

Sim. Em Barcelona, por exemplo, há opções de soberania tecnológica e políticas reguladoras em favor do bem comum. Isto já está funcionando há cinco anos aproximadamente. Neste caso, os serviços considerados de utilidade pública que as empresas tecnológicas prestam, como a conexão aos telefones ou ao wifi, também são um direito. É por isso que não podem ser interrompidos, mesmo quando os usuários tenham dificuldade para pagá-los. Por outra parte, se estas companhias possuem contratos no âmbito público, devem compartilhar os dados dos usuários que armazenam. Assim, o Estado pode incidir e tomar decisões sobre o que se faz com eles e se encarregar da privacidade.

Como se dá esta relação entre o Estado e as empresas tecnológicas em nosso país?

Aqui [Argentina], a situação é diferente. Embora os empreendimentos tecnológicos sejam desenvolvidos por setores privados, o Estado só exerce um papel de mentor ou guia para depois selecionar algumas ideias exitosas e apresentar certa ajuda. No entanto, não acompanha durante todo o processo. Ou seja, trata-se de uma lógica de mercado, de uma lógica da concorrência. Então, se um desses projetos consegue se impor, o Estado já não pode fazer nada. Tampouco se essa empresa vai mal e precisa reduzir pessoal. Por isso, seria necessário trabalhar com outra matriz, com hardware e software livres ou ao menos replicáveis. Isso favoreceria que as inovações possam ser reutilizadas e tenham um grande benefício para toda a sociedade.

É certo que a internet e as redes sociais trouxeram benefícios na comunicação. Mas, acredita que ao se consolidar como monopólios aprofundaram a desigualdade social?

A desigualdade é, sobretudo, um problema econômico e político. Neste livro, demonstro isso do ponto de vista da tecnologia. O grande problema de muitas destas empresas tecnológicas é, principalmente, a evasão de impostos e as formas que encontram para agir assim. Há duas formas de ver as crises dos Estados ou do mundo: uma, através daqueles que dizem que se gasta muito e, portanto, é necessário gastar menos; e outra, por meio daqueles que destacam que o problema é que se arrecada pouco. A questão é que aqueles que ganham muito pagam pouco. Como pesquisadora e consultora digital, minha contribuição é conscientizar para que a tecnologia não se transforme em uma fonte de desigualdade. Porque, como dizia Melvin Kranzberg, “a tecnologia não é boa, nem má, mas tampouco é neutra”.

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