Salvini versus Salvini. Entrevista com Gianpaolo Salvini

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18 Julho 2018

No fim das contas, disparar o alarme sobre os imigrantes como invasores da Itália que vêm roubar o trabalho dos italianos é um pretexto fácil que libera o governo de ter que abordar com decisão e competência a grave crise econômica. A afirmação é do jesuíta Gianpaolo Salvini, diretor emérito da La Civiltà Cattolica e atualmente escritor dessa prestigiosa revista da Companhia de Jesus, que tem laços estreitos com o Vaticano e goza de uma credibilidade e de uma autoridade sem iguais.

A reportagem é de Gianpaolo Salvini, com edição de Carlo Di Cicco, publicada por Tiscali News, 15-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Pe. Salvini brinca um pouco com o seu sobrenome, que coincide com o do ministro do Interior italiano [Matteo Salvini], um inimigo declarado dos imigrantes, que, para combatê-los, multiplica as promessas de intolerância que começam a levantar dúvidas e perplexidade sobre a eficácia do punho de ferro que arquiva até mesmo todo senso de humanidade, para permanecer fiel ao slogan eleitoral: “Primeiro os italianos!”. Mas primeiro em que, se, depois, apressa-se a sua perda de humanidade?

Sobre esses temas nada fáceis, mas que precisam ser abordados com seriedade e competência de gestão inspiradas pela visão humanista típica, por exemplo, do Papa Francisco, falamos com o jesuíta que, atualmente, na Itália, tem um sobrenome que remete ao homem forte do governo. Mas o padre jesuíta faz questão de especificar que ele é “Salvini outro”.

Eis a entrevista.

O constante ataque do ministro Salvini às ONGs comprometidas em salvar os imigrantes no mar desperta a sua admiração ou o senhor considera isso coerente com a visão social do ministro da Liga?

Parece-me que o ataque do ministro Matteo Salvini às ONGs comprometidas em salvar os imigrantes no mar corresponde com as declarações repetidamente feitas pelo ministro e pelo seu partido sobre um claro enrijecimento em relação à acolhida aos refugiados, que são substancialmente rejeitados. Nesse sentido, é um ataque coerente com a política da Liga. O pensamento certamente é o do ministro e, infelizmente, não só se alinha com a política e com o clima predominante em muitos Estados europeus, mas também contribui para criá-los. Infelizmente, são muitos aqueles que veem a imigração substancialmente como uma ameaça, da qual é preciso se defender, não como uma oportunidade. Com pesar, é preciso reconhecer que esse é também um dos medos mais difundidos atualmente na Europa e na Itália, ao qual a Liga dá ampla voz.

O senhor acha que a aversão e o medo em relação aos migrantes é o verdadeiro objetivo do ministro Salvini ou é um modo de não enfrentar os graves problemas econômicos e sociais que permanecem sem resposta?

A minha impressão é que, neste momento, na Itália, fala-se tanto de migrantes (ou, melhor, contra os migrantes) para evitar também os discursos econômicos e sobre as reformas prometidas e dificilmente realizáveis. Rejeitar os migrantes que querem chegar até nós não custa muito do ponto de vista econômico e vai ao encontro de um dos medos realmente generalizados. Não sei dizer se as ONGs observaram e observam todas as normas nacionais e internacionais já em vigor. Pode ser que, em alguns casos, elas apelam ao direito de socorrer aqueles que estão em grave perigo de vida, independentemente se tudo é observado ponto por ponto. O ministro do Interior provavelmente não aceita organizações que parecem agir fora do seu controle e das normas italianas, que ele tende a interpretar ou a modificar em sentido restritivo.

O ataque às ONGs talvez não esconde o aborrecimento sentido em muitos ambientes em relação ao chamado de Francisco à acolhida que, por enquanto, não se tem a coragem de criticar abertamente?

Infelizmente, a discussão sobre esse tema é muito passional e cheia de polêmicas que impedem um diálogo pacato e construtivo. Os quatro verbos usados pelo papa (“acolher, proteger, promover e integrar”) representam um programa cristão e humano mais do que nunca sábio e aceitável, além de lapidar. Mas o papa também disse para calcular, antes de aceitar os migrantes, quantos podem ser acolhidos e razoavelmente integrados e para se regular consequentemente. O papa traz no coração especialmente a mudança de mentalidade que lhe parece indispensável para criar um clima de acolhida e de atenção a esses novos pobres, que é parte fundamental da mensagem cristã.

A Europa e a Itália, ricas e bem de vida, em vez disso, tendem a se fechar em uma atitude egoísta e com a síndrome da fortaleza sitiada. A comunidade cristã na Itália demonstrou ser mais acolhedora do que as autoridades, especialmente no Sul, como demonstra também o funcionamento dos “corredores humanitários” que alguns órgãos católicos, com o apoio da Conferência Episcopal Italiana, realizaram. Eu acho que muitas acusações contra as ONGs escondem efetivamente uma crítica nem tão velada à atitude do Papa Francisco e de muitos setores eclesiais. Até mesmo muitas pessoas favoráveis ao Papa Francisco, no fundo, tendem a pensar: “O papa faz o seu trabalho, mas não responde ao mundo real”.

O senhor acha que a imprensa na Itália faz justiça nas suas crônicas àquilo que está acontecendo com os migrantes e refugiados, e ajuda a desfazer os lugares-comuns de que os africanos vêm roubar o trabalho dos italianos?

Por parte daqueles que são favoráveis à acolhida, é preciso dizer que faltou uma avaliação exata e ponderada das motivações para esses medos generalizados e um programa razoável e ordenado de acolhida, exceto, talvez, no caso do ministro Minniti, dando a impressão de que todos devem ser acolhidos. O que é evidentemente impossível, especialmente se a Itália e a Grécia forem deixadas sozinhas na frente mais exposta, a do Mediterrâneo. Parece-me que faltou um verdadeiro programa de integração. No fim, tem-se a impressão de que dois partidos se contrapõem frontalmente: o daqueles que querem acolher a todos e o daqueles que querem rejeitar a todos. Ambos irrazoáveis, até porque o fenômeno da migração em massa (inédito no passado nas dimensões atuais) é imparável hoje.

E, em todo o caso, as chegadas à Itália já diminuíram muito nos últimos dois anos. Mas não podemos nos contentar apenas com essa “consolação”. É o coração, a mentalidade que devem ser mudados para dar lugar à justiça e à solidariedade. E é certamente uma tarefa não só italiana. É claro que os migrantes desenvolvem principalmente trabalhos que os italianos não estão mais dispostos a desenvolve (e, portanto, geralmente não tiram o trabalho dos italianos), e, em todo o caso, a maioria não pretende parar na Itália, onde se desembarca principalmente porque fica perto.

O senhor acha que a imprensa na Itália faz justiça nas suas crônicas àquilo que está acontecendo com os migrantes e refugiados, e ajuda a desfazer os lugares-comuns de que está em curso uma invasão de africanos?

A imprensa e a mídia em geral são inevitavelmente parciais ao apresentar esse tipo de notícias. Assim, fala-se dos migrantes no mar porque apresentam um quadro mais dramático, com reais perigos de morte, enquanto não se fala daqueles que chegam através de canais mais “normais”, ou por terra, ou com um visto turístico regular ou como “peregrinos” e se “esquecem” de retornar. Estes não “viram notícia” da mesma maneira. Seria preciso algum esforço a mais para desfazer o outro medo tão difundido de que a Itália está submetida a uma verdadeira invasão da África. Bastaria dizer a verdade aos italianos, ou seja, que não há nenhuma invasão, para diminuir a tensão e o medo.

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