A terceira assembleia mundial das universidades da Companhia de Jesus e os desafios nunca antes imaginados

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17 Julho 2018

O silêncio voltou aos claustros da centenária universidade de Deusto, em Bilbao, na Espanha. Mas ainda ecoam lá as múltiplas vozes e culturas das mais de 300 pessoas que, de 9 a 12 de julho, participaram da terceira reunião das universidades da Companhia de Jesus.

O comentário é do jesuíta espanhol Ignacio Echarte, publicada em L’Osservatore Romano, 16-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Jesuítas, mulheres, homens, reitores, pessoal administrativo, pesquisadores e colaboradores de mais de 220 centros universitários de todo o mundo se reuniram para discernir e debater sob o lema “Transformando o nosso mundo juntos”.

Antes da solene inauguração oficial, o cardeal Giuseppe Versaldi orientou os trabalhos da assembleia, convidando à “revolução cultural” que o Papa Francisco propõe na constituição apostólica Veritatis gaudium. Revolução do amor que cada universidade católica, e em particular as da Companhia de Jesus, deve acolher como convite para sair, para ir além das fronteiras, em diálogo harmonioso com outras vozes plurais, para oferecer um caminho de melhor colaboração com Deus e com os outros. Palavras que antecederam a solene inauguração na aula magna da universidade, recentemente restaurada.

Do ato inaugural, participaram o rei de Espanha, Filipe VI, o lehendakari (presidente) do governo basco, Iñigo Urkullu, e o superior geral da Companhia de Jesus, Pe. Arturo Sosa. O reitor da Universidade de Deusto, responsável pela organização da assembleia, Pe. José María Guibert, acolheu os participantes.

Todas as intervenções do primeiro dia ecoaram os desafios representados, para cada universidade, e particularmente para as da Companhia de Jesus, a abertura de um mundo em mudança, onde as culturas e as pessoas se encontram em diálogo crescente, onde os desafios da interculturalidade, da multiculturalidade e da colaboração levantam interrogações para moldar novas mentalidades diante de desafios nunca antes imaginados.

Novos paradigmas

“Os novos paradigmas socioculturais e o papel das universidades jesuítas” foi o título da intervenção inaugural, confiada ao cardeal Gianfranco Ravasi. Com um estilo ameno e profundo, ele apresentou as características socioculturais que reconhecemos nas nossas sociedades e que constituem o quadro de referência dentro do qual as universidades devem buscar respostas.

Multiculturalismo ou interculturalidade, divisão de pessoal, tecnocracia, pós-verdade, secularismo em todas as suas variáveis são alguns dos elementos mencionados no discurso e que estão presentes nas nossas universidades, fazendo perguntas que têm consequências turbulentas a partir de perspectivas filosóficas, teológicas e éticas.

Como nos colocamos diante dos desafios antropológicos atualmente levantados pela ciência e pela comunicação? Diante dessas perguntas, podemos permanecer presos no marasmo das consequências ou cair em um isolamento perverso que fecha à humanidade toda a esperança de transcendência. Buscar a dignidade do outro como pessoa humana, como a antropologia bíblica oferece, é o convite que podemos acolher como chamado para as nossas universidades.

Depois, começaram as densas sessões de trabalho, que duraram até quinta-feira e se concentraram em seis áreas de interesse: Formação para liderança cívica e política; Educação dos marginalizados; Ambiente e economia justa; Diálogo inter-religioso; Liderança de acordo com o modo de proceder inaciano; e, por fim, Paz e reconciliação. Uma ampla gama de problemas universais e, ao mesmo tempo, locais, que já haviam sido previamente examinados por várias comissões preparatórias internacionais e apresentados aos participantes.

Tomando como ponto de partida a divisão administrativa da Companhia de Jesus em seis conferências (América Latina, Canadá-Estados Unidos, Europa, África-Madagascar, Ásia Meridional e Ásia-Pacífico), os participantes da assembleia foram subdivididos em grupos de trabalho de acordo com os próprios interesses, para compartilhar experiências, desafios e boas práticas, a fim de desenvolver juntos novas modalidades de colaboração e de participação na formação de uma nova cultura.

A partir de perspectivas diferentes, mas complementares, as intervenções do jesuíta Gaël Giraud e de Pankaj Mishra propuseram novas questões aos participantes: a necessidade de uma nova perspectiva iluminada, o empenho dos próprios centros para construir uma sociedade mais comprometida com a natureza, com os outros e com as gerações futuras, a importância de apresentar modelos econômicos que reduzam a crescente desigualdade.

Espaços de reconciliação

A quarta-feira, 11 de julho, foi um dia especial, porque os participantes se transferiram para o santuário de Loyola, lugar onde Santo Inácio nasceu em 1491 e onde ele se converteu em 1521. Se tudo começou aí há cinco séculos atrás, neste dia, começou outra etapa para as universidades da Companhia de Jesus.

O Pe. Arturo Sosa apresentou o seu discurso “A universidade fonte de vida reconciliada”, no marco da basílica barroca do santuário. Uma história apostólica nos trouxe até este momento e a partir daqui devemos reconhecer com gratidão o que Deus nos ofereceu. Mas devemos dar passos corajosos em vistas ao futuro, porque devemos trabalhar juntos, para sermos mais fecundos, para chegarmos aos mais necessitados, para respondermos de acordo com o nosso modo de proceder aos desafios que a Igreja e a sociedade hoje nos levantam.

Essa é a missão da universidade da Companhia, ser espaço de reconciliação de todas as coisas em Cristo, em diálogo com todos, colaborando com todos, conscientes de que nos foi confiada a responsabilidade de desenvolver uma missão específica. Nesse sentido – são as suas palavras – vale a pena ler os dois desafios que ele mesmo apresentou para o futuro das universidades da Companhia.

“Do magis inerente à nossa identidade, tentamos contribuir para fazer mais a partir da universidade e para cumprir melhor a sua missão específica. Permitam-me me referir a dois desafios atuais do magis universitário da Companhia de Jesus. O primeiro é superar os limites geográficos e sociais dentro dos quais se movem as nossas instituições universitárias. Somos enviados para onde não é fácil chegar ou para onde outros evitam chegar. A educação universitária oferecida pela Companhia de Jesus quer ser aberta a todos e é chamada a fazer esforços especiais para alcançar os marginalizados, os pobres, os refugiados e os deslocados por causa das relações sociais injustas que dominam o mundo atual. A nova época histórica do conhecimento – continuou o Pe. Arturo Sosa – colocou à nossa disposição meios educativos que permitem alcançar populações geograficamente distantes e socialmente marginalizadas. Há alguns meses, no norte do Sri Lanka, eu pude compartilhar o sorriso de um grupo de jovens que receberam seus diplomas universitários graças ao esforço conjunto da comunidade jesuíta na região e do Jesuit Worldwide Learning. Estou certo de que muitos de vocês viveram experiências semelhantes em campos de refugiados, em zonas rurais e nos bairros marginalizados das grandes cidades do mundo... um sinal dos tempos que nos desafia a pôr em prática uma espiritualidade inspirada no magis. O que de mais e de melhor podemos fazer nesse sentido?”

O segundo desafio, continuou Sosa, “foi-nos feito pela 36ª Congregação Geral, ao nos convidar a promover uma cultura da salvaguarda das pessoas vulneráveis. Talvez seja o mandato mais complexo dado pela Congregação Geral ao corpo apostólico da Companhia de Jesus. Provocar uma mudança cultural de tal porte que possa criar um ambiente sadio e seguro para todos e para cada um dos seres humanos é uma tarefa de longo prazo que exige um atento discernimento e uma profunda reflexão sobre o que de melhor podemos fazer a partir do nosso carisma e com as capacidades que temos para obtê-lo gradualmente. Promover essa mudança cultural é tocar as estruturas de injustiça das atuais sociedades humanas com todos os riscos que isso pressupõe. Uma cultura da salvaguarda encarnaria de modo singular o respeito pelos direitos humanos. As universidades são promotoras de mudanças culturais. Esse desafio abre uma oportunidade para o trabalho concreto e de longo prazo em uma importante dimensão da reconciliação, da justiça e da vida plena. Pedi ao Secretariado para a Justiça Social e a Ecologia da Companhia de Jesus que coordene os esforços de todo o corpo apostólico nessa direção”.

O Pe. Sosa, em seguida, concluiu o seu discurso convidando todos a acolher o espírito de discernimento de Santo Inácio e da Companhia para trabalhar melhor, juntos, com novas modalidades e dispostos a responder às novas interrogações do ser humano de hoje e de amanhã.

Preparar-se para o mundo de amanhã

Como expressão concreta dessa nova etapa, foi assinado o documento de instituição da Associação Internacional das Universidades Jesuítas (IAJU), cujo objetivo é desenvolver novas modalidades de colaboração, trabalhar em rede entre todos, participar do desenvolvimento de programas e de projetos comuns, promover a extensão da educação jesuíta universitária aos marginalizados e aos pobres. Trata-se de uma associação que se desenvolveu ao longo dos anos e que agora assume um novo caminho.

As obras continuaram, depois, com conferências e debates animados, e com visitas aos lugares inacianos do vale de Loyola: a casa natal de Santo Inácio (a Santa Casa), o hospital da Madalena, a paróquia de Azpeitia, a casa de fazenda do Bem-aventurado Francisco Garate, porteiro da Universidade de Deusto. A foto dos membros da assembleia em frente à basílica barroca de Carlo Fontana permanece como recordação desse importante momento fundacional.

O último dia foi realizado na sede da universidade em Deusto-Bilbao e podia ser reconhecido no título “Dando graças por todo o bem recebido”. Duas notas finais podem ser enfatizadas. Em primeiro lugar, foram apresentados vários projetos globais que são um desafio para a nova Associação na formação de líderes, no intercâmbio Magis de estudantes e na aprendizagem online para os marginalizados.

Em segundo lugar, a assembleia manifestou claramente a sua solidariedade com a situação vivida na Nicarágua e, em particular, ao reitor da UCA, o jesuíta José Alberto Idiáquez, pelas ameaças recebidas.

A assembleia de Deusto segue as da Cidade do México (2010) e de Melbourne (2015), e herda o percurso feito ao longo desses anos, abrindo novos caminhos para o futuro de colaboração entre as universidades da Companhia de Jesus e a sua participação no serviço da Igreja e da humanidade, segundo o espírito de Santo Inácio de Loyola.

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