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17 Julho 2018

“Os filhos nunca acreditam que crescer é perigoso”.

A crônica é de Luis Fernando Verissimo, escritor, publicada por O Estado de S. Paulo, 15-07-2018.

Eis o texto.

Os filhos nunca acreditam que crescer é perigoso. Não adianta avisar para continuarem crianças. Eles crescem e vão embora. E depois se queixam.

Tem a história daquele pai que concebeu dois filhos do barro, Adão e Eva. Naquele tempo não precisava mãe. O pai fez o que pôde pelas crianças. Elas tinham tudo, nunca lhes faltou alimento ou agasalho. Se queriam um cachorro ou um macaco para brincar, o pai fazia. Se queriam uma pizza, o pai criava, ou mandava buscar. Se queriam saber como era o mundo lá fora, o pai dizia que não precisavam saber. Eles não eram felizes não sabendo nada, ou só sabendo o que o pai sabia por eles? A felicidade era não saber. As crianças eram felizes porque não sabiam.

O Adão ainda era acomodado, mas a Evinha... Um dia o pai a pegou descascando uma banana. Nem ele sabia o que a banana tinha por dentro, mas a danada da menina descobriu, e antes que ele pudesse dizer “Dessa fruta não co...” ela já tinha comido. E gostado. Foi então que ele decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área dos hortifrutigranjeiros, e determinar que frutas do quintal podiam e não podiam ser comidas, e escolheu uma fruta como a mais proibida de todas, pois se comesse dela a menina saberia. Saberia o quê? O pai não especificou. Só disse que o que saberia seria terrível, e que depois não se queixasse. E Eva comeu da fruta mais proibida, claro, e o pai foi tomado de grande tristeza. E disse a Eva que agora ela sabia o que não precisava saber, e que nunca mais seria a mesma.

– O que eu sei de tão terrível que não sabia antes? – perguntou Eva, ainda mastigando a fruta proibida.

– Que você pode desobedecer. Que você pode escolher, e pensar com sua própria cabeça, e me desafiar.

E então o pai disse a frase mais triste que um pai pode dizer a um filho:

– Que você não é mais uma criança.

Eva cresceu diante dos olhos do pai, e no momento seguinte já estava dizendo que queria ir morar sozinha em São Paulo ou apreender inglês em Miami e saber como era o mundo lá fora. E o pai suspirou e disse que ela podia ir, e que levasse o palerma do Adão com ela.

E que os dois jamais voltassem e pedissem a sua ignorância de volta.

Quando contou esta história a outro pai, no clube, o pai abandonado ouviu do outro que sua história não era nada.

– Pior aconteceu comigo e com o meu Prometeu. Ele era um ótimo filho. E como me admirava e respeitava! Para ele era eu no céu e eu na terra também. Ele tinha tudo em casa, e eu o protegia com o meu poder. Ele também era feliz e não sabia, ou era feliz porque não sabia. E não é que um dia descobri que ele tinha roubado o meu fogo para dar aos amigos? Logo o fogo, o símbolo do meu poder e da minha autoridade, distribuído entre outras crianças ingratas como cigarros roubados.

– Você o expulsou de casa, como eu?

– Não. Eu sou da escola antiga. Amarrei-o numa pedra, para os abutres comerem o seu fígado.

– Tem que dar o exemplo...

– Tem que dar o exemplo. Senão, não demora, estarão todos os filhos achando que sabem mais do que nós, e roubando o nosso poder.

– E depois, quando não dá certo, se queixando.

– Exato.

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