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14 Julho 2018

Teóloga, filósofa, cientista, psicóloga, promotora de uma medicina alternativa, musicista, reformadora da moral, uma profetisa - Hildegard de Bingen (1098-1179) foi uma das figuras mais “intensas e extraordinárias" da história da Igreja. Em sua multifacetada produção se revela "a versatilidade de interesses e vivacidade cultural dos mosteiros femininos da Idade Média" - como escreveu Bento XVI, por ocasião de uma das duas catequeses dedicadas à Hildegard, antes de a proclamar Doutora da Igreja universal, em 10 de maio de 2012.

A monografia de Giordano Frosini oferece uma leitura atualizada da personalidade e da obra do "profetisa teutônica", "na convicção de que a reflexão teológica, que perdura mais ou menos há vinte séculos, constitui um continuum que se estende progressivamente ao longo do tempo, até sua conclusão, que não é desta terra" (p. 7). Um método que o próprio Frosini não hesita em definir como sui generis, e "que parte da análise dos pensamentos mais originais e fundamentais da autora e do seu século, e confronta-os com desenvolvimentos ocorridos especialmente em nossos tempos, de alguma maneira continuando-os e trazendo-os até nossos dias" (p. 11s).

A informação é de Igor Tavilla, publicada por Settimana News, 07-07-2018. A tradução é de Ramiro Mincato.

Abadessa já aos 38 anos, Hildegard entrou como oblata no mosteiro beneditino de Disibodenberg quando tinha 8 anos de idade. Em 1150 fundou o mosteiro independente de Bingen, e na mesma época compôs a música lírica coletada na Symphonia harmoniae caelestium revelationum. A notoriedade da "Sibila do Reno" se espalha rapidamente por toda a Europa, graças às numerosas cartas que troca com papas, imperadores e figuras influentes da época, como Bernard de Clairvaux, e às viagens missionárias realizadas, apesar de sua má saúde, para chamar os homens da Igreja às suas responsabilidades pastorais e pregar a ortodoxia contra a perigosa heresia dos cátaros alemães – de quem pedia a condenação ao exílio, mas não a morte.

No auge de sua fama, a abadessa compôs o Liber vitae meritorum (1158-1163) e começou a escrever sua obra-prima, o Liber divinorum operum, que terminará em 1174. "Embora não tenha frequentado os cursos do Trivium e Quadrivium", detecta Frosini, Hildegard exibe uma sólida cultura baseada no conhecimento "do classicismo latino, de Boécio, e de diversos Padres da Igreja, como Ambrósio, Agostinho, Jerônimo, Gregório Magno e Leão Magno” (p. 21). Hildegard era, na verdade, "uma filha do século XII" (p. 26), "inseparavelmente ligada ao seu tempo" (p. 29). Sobretudo, a obra de Hildegard se coloca sobre o fundo filosófico do platonismo ainda culturalmente hegemônico, que encontra seu lugar de eleição na escola da Catedral de Chartres, que centraliza sua reflexão sobre a cosmologia do Timeu, elaborando a controversa doutrina da anima mundi - rejeitada por Bernardo, por seus supostos efeitos panteístas.

Depois de alguns acenos à produção científica de Hildegard, embasada em uma concepção “unitária do universo e do homem" (p. 51), na qual o autor destaca a consonância com a Encíclica Laudato si’ do Papa Francisco - e ao repertório musical hildegardiano - caracterizado por “composições de gênero monódico, na linha do canto gregoriano" (p. 71), entre as quais o Ordo virtutum, o primeiro drama sacro da história -, Frosini examina as três obras fundamentais da produção teológica de Hildegard, fruto das revelações divinas que a abadessa do Reno experimentou desde o quinto ano de vida, sempre acompanhadas por um aviso peremptório: “Divulga o que vês e ouves” (p. 76).

As trinta e seis visões do Scivias (1141-1150), divididas em três partes, tratam dos "acontecimentos da história da salvação, desde a criação do mundo até o fim dos tempos" (p. 54), uma espécie de "catecismo para o homem comum” (Ibid.). A segunda grande obra de Hildegard é o Liber vitae meritorum (Livro dos méritos da Vida) "um original tratado de teologia moral", em seis capítulos, contendo trinta e cinco antíteses de vícios e virtudes, que, pela intensidade das imagens usadas sustentam a comparação com as grotescas representações de Hyeronimus Bosch (p. 59). Finalmente, o Liber divinorum operum (Livro das obras divinas), considerado sua obra-prima teológica, em que aparece a imagem da roda com o homem no centro, prenunciando o famoso Homo vitruvianus de Leonardo Da Vinci, símbolo de uma concepção antropocêntrica onde o ser humano é a opus dei por excelência, o microcosmo "que encapsula e resume toda a perfeição do macrocosmo, transcendendo-o infinitamente pela presença do Espírito e pelas faculdades do intelecto e da vontade" (p. 173).

O problema de Deus no pensamento de Hildegard é de absoluta centralidade no ensaio de Frosini: "Se Deus é amor, tudo é amor. [...] Está todo aqui o pensamento de Hildegard de Bingen" (p. 108). "O amor - escreve a profetisa - abunda em tudo, / do fundo do abismo / à altura das estrelas" (ibid.). Deus cria o mundo "ex amore" e não para sua própria glória. Esta é a "nova face de Deus", que o Concílio Vaticano II anunciou em Gaudium et Spes. "Deus é fogo, do qual todas as criaturas recebem energia, vigor, viriditas" – categoria, esta última, recorrente no discurso hildegardiano - que o autor propõe de traduzir com: "frescor, atualidade, força de renovação e fonte de juventude" (p. 12).

Na base da teologia hildegardiana aparece reconhecível, embora de forma implícita, a doutrina platônica do anima mundi, que levaria Frosini a considerar a profetisa do Reno antecipadora do panenteísmo - termo usado posteriormente em um discurso teológico por um discípulo de Schelling, Christian Krause (1781-1812), - segundo o qual "podemos dizer que Deus não está no mundo, mas que o mundo está dentro dele" (p. 151). Esse fato justifica a proximidade entre a perspectiva de Hildegard e aquela de Meister Eckhart, uma perspectiva que é, de acordo com Frosini, o próprio cumprimento da teologia imanentista de Teilhard de Chardin, a quem dedica um inteiro parágrafo.

Neste horizonte conceitual, a reflexão eclesiológica de Hildegard olha para a Igreja como ícone do mistério trinitário: "como nas três pessoas divinas há um só Deus, assim também, nos três estados considerados [ministros ordenados, religiosos e leigos] há uma única Igreja (p. 223). A eclesiologia de Hildegard, insistindo na primazia da Igreja-mistério contra a da Igreja-instituição - a igreja “belarminiana”, como gosta de definí-la Frosini – antecipa, também neste campo, as conclusões do Concílio Vaticano II.

O ensaio termina com a escatologia hildegardiana dominada pela dramaticidade da luta incessante entre o bem e o mal, no qual o homem é chamado a colaborar com Deus, porque, afirma Frosini - citando A. Torres Queiruga -, "é da inteligência do homem que deveriam nascer os milagres de libertação do mal" (p. 168). Se panenteísmo se revela, desta forma, capaz de sugerir novas soluções ao velho problema da Teodiceia, sobre a profecia hildegardiana do fim do mundo - marcado por cinco períodos de decadência que seguem o modelo do Hexameron bíblico - parece pesar o legado de "uma era que não foi capaz de ler em profundidade a mensagem do Evangelho, que é uma boa notícia para a vida e para a morte, para o presente e para o futuro, para o tempo e a eternidade" (p. 242). A obra de Hildegard, no entanto, transcende totalmente os limites da sua época - como o ensaio de Frosini tem a mérito de documentar - antecipando, com profética antevisão, desenvolvimentos e resultados da reflexão teológica atual.

Referência:

FROSINI, Giordano. Ildegarda de Bingen: Una biografia teológica. Bolonha: EDB, 2017, pp. 270. A resenha de Igor Tavilla foi publicada em Studia Patavina, Padova, v. 65, n. 1, p. 154-156, gen./apr. 2018.

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