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13 Julho 2018

"Em nossos hospitais vence a solidão de quem está morrendo” é o artigo que será publicado na próxima edição da revista “Vita e Pensiero", bimensal de debate e cultura da Universidade Católica do Sagrado Coração.

O artigo é de Lucetta Scaraffia, publicado por L’Osservatore Romano, 11/12-07-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Como é difícil morrer em nossa sociedade! Nós estamos acostumados com o fato que se nasce cada vez menos, que a infertilidade está em crescimento combinada com o aumento da idade das mulheres que tentam conceber um filho, e que tudo isso torna difícil a procriação. Ter um filho para muitas mulheres está se tornando uma corrida com barreiras, requer tratamento hormonal, relacionamentos com horários determinados, senão mesmo o recurso à engenharia de procriação. Entendemos que é difícil nascer, mas se prestarmos atenção e olharmos ao nosso redor, para muitos - pelo menos nos chamados países avançados - também se tornou difícil morrer.

Isso nos é revelado por um sintoma evidente, que até agora nunca tinha se apresentado com tamanha urgência e força: o pedido de eutanásia.

Não devemos pensar apenas que se trata de um desejo do ser humano que se tornou soberbo e quer controlar todos os aspectos da sua vida, portanto, até mesmo de sua morte, e nem mesmo que por trás do pedido de eutanásia sempre exista um desprezo pelo sofrimento e fragilidade que podem ocorrer em fases extremas - a justificação das "dores insuportáveis". Felizmente. está agora cedendo diante da afirmação das curas paliativas - embora alguns desses aspectos estão certamente presentes. Mas, em muitos aspectos, o pedido de eutanásia é uma reação - embora errada - uma experiência cada vez mais comum: basta ver como é difícil morrer para aqueles que estão hospitalizados - ou seja, quase todos - por causa dos cuidados dispensados com modalidades muito próximas à obstinação terapêutica. Claro, são poucos aqueles que podem entender os problemas médicos em profundidade, mas todos compreendem que há algo não natural nos calvários terapêuticos, que acabam desembocando em infindáveis agonias, para os idosos hospitalizados. E isso basta para invocar um caminho encurtado até a morte, ou seja, a eutanásia, vista e propagandeada como uma passagem fácil e indolor.

E sob determinados aspectos eles estão certos: foi se perdendo o significado da morte no sentido mais profundo do termo, da morte como momento de verdade e de salvação de uma inteira vida humana, e então se invoca somente - como repetem as celebridades submetidas pelos jornais ao questionário de Proust - uma morte no sono, inconsciente e indolor. A parte o fato de que a eutanásia por definição não é uma morte inconsciente, é possível até avançar dúvidas sobre o fato que seja realmente indolor: sabemos muito pouco sobre a morte, e, muito menos ainda, sobre a morte infligida pelo exterior, e isso permite pensar a um dado preocupante, ou seja, que o fármaco que usam as várias Dignitas, ou clínicas suíças afins que praticam a eutanásia, é o mesmo usado em alguns estados dos EUA para executar a pena de morte. Neste segundo caso, muitos ativistas protestaram dizendo que a droga não seria assim tão indolor ... na Suíça, as pessoas pagam e calam. Nas clínicas não há ativistas contra a pena de morte que monitoram a execução.

Mas para muitos, tudo isso parece ainda assim melhor do que a longa espera pela morte de pacientes submetidos a terapias que contribuem para mantê-los vivos. Todo mundo tem suas razões, é claro, e tudo se explica. Não há ninguém que queira por crueldade manter vivos seres humanos, muitas vezes muito idosos, que sofrem. É um sistema geral que, em certo sentido, obriga a todos a comportamentos insensatos. Devemos nos lembrar que nos últimos anos, intercalados entre os comerciais de televisão, multiplicavam-se os anúncios de escritórios de advocacia que convidavam os espectadores a ingressar na justiça com processos por atendimentos recebidos e considerados ineficazes, escritórios de advocacia que aceitavam começar ações sem pedir uma caução de garantia, portanto, acessíveis a todos. Bastava ter a ideia e o desejo de procurá-los. E muitos fizeram isso.

Dada a proverbial lentidão da justiça italiana, e seus mecanismos muitas vezes inexplicáveis, as administrações hospitalares rapidamente perceberam que a coisa mais conveniente para elas ainda era a negociação, ou seja, pagar uma quantia a fim de encerrar o litígio. Dessa forma, as empresas hospitalares perderam muito dinheiro, enquanto o ganhavam advogados e pacientes que dividiam o butim meio a meio. Naturalmente, foi necessário adotar medidas para evitar o sangramento de estruturas já em crise econômica crônica, e a solução foi identificada nos protocolos de tratamento. Para cada patologia, para cada situação de internação, é previsto um protocolo, confirmado por especialistas e idêntico para todos, que protege o hospital dos riscos legais.

Seguindo o protocolo, existe a certeza de que não se possibilitará qualquer ação legal. Os protocolos, portanto, sob este ponto de vista, são uma bênção, e em muitos casos também ajudam médicos que talvez não estivessem à altura de sua tarefa de mover-se com confiança na escolha das terapias. Portanto, por esse ângulo, desempenham uma função positiva.

Mas também há muitos aspectos negativos, que penalizam principalmente os idosos. As terapias, de fato, são as mesmas para qualquer idade, e o modelo de pessoa escolhido é de um jovem que tem todas as chances de cura. Aplicar as mesmas terapias a um nonagenário pode se tornar um exemplo de obstinação terapêutica. Ainda assim, quando alguém está no hospital, necessariamente entra em ação a obrigação de seguir o protocolo para proteção contra possíveis ações judiciais, e assim, se um nonagenário em fim de vida, imobilizado no leito, reclama de dor em uma perna, embora cada deslocamento cause-lhe náuseas e vômitos, é transportado para outro setor para fazer uma radiografia e verificar se há algo quebrado. Caso o tivesse, o que eles fariam? Nada, além de aplicar um sedativo, coisa que seria feita de qualquer maneira.

Aquela radiografia não só é dolorosa e desnecessária para o paciente, mas também cara para o contribuinte, e nossos serviços de saúde certamente não têm dinheiro para jogar fora: isso fica claro nas longas filas de pessoas na sala de emergência aguardando em vão por um leito disponível nos hospitais superlotados, nos semblantes exaustos dos enfermeiros no final do turno, agora cada vez mais em número menor do que o necessário. Mas é preciso fazer a tal radiografia, para evitar processos. Mesmo que, naquele caso específico, isso é muito claro, não haveria processos: a regra - neste caso o protocolo - é a mesma para todos.

Claro, há exemplos opostos que nos confrontam com decisões impiedosas: uma amiga minha holandesa me contou que sua mãe, que estava com cerca de 85 anos, tinha quebrado o fêmur e a saúde pública não pagava mais a operação e a prótese porque não valia mais a pena. Mas não poderíamos pensar em um caminho intermediário de bom senso, seguido pelos médicos aproveitando seu senso de responsabilidade? Talvez apoiados por um comitê de ética para ser consultado rapidamente, sem muita burocracia, mas capaz de entender a realidade da vida humana?

Em vez disso, pelas razões citadas, nos hospitais os doentes, mesmo que nonagenários, estão recebendo todo tipo de tratamento como se ainda pudessem viver muitos anos, como se seu organismo fosse forte e não já debilitado, como se precisassem lutar como jovens atletas por sua vida. Basicamente, como se a morte não existisse. Como se a morte não estivesse esperando por eles, por um processo natural que atinge todos os seres humanos.

Assim, em vez de reconhecer os sinais da morte iminente, o paciente é instigado a lutar contra a doença, a se apegar à vida. Os médicos, em essência, prometem o que não podem, para salvar a honra - ou o que segundo eles é a honra - da medicina. Naturalmente o doente dentro de seu coração, e a família por meias palavras e olhares baixos, compreendem o que está acontecendo, mas há um acordo tácito para fingir que tudo vai evoluir para melhor. Nesse clima de otimismo forçado e falso, pode até acontecer que o doente se sinta culpado por não atender às expectativas, aos cuidados, mas piorar constantemente.

Deixá-lo morrer protegendo-o da dor, evitando intervenções que prolongam sua agonia como a alimentação intravenosa, seria justo e apropriado. Mas obrigaria os médicos a admitir que a medicina não é onipotente e os parentes a não recorrer a um tribunal para protestar contra a suspensão de algum tratamento. Obrigaria todos a pensar na morte como uma eventualidade inevitável. Como é possível enfrentar a morte em um hospital, onde não há praticamente nenhum capelão, onde a capela tornou-se a sala do silêncio que está fechada aos sábados e domingos, onde um homem à beira da morte vive a sua agonia ao lado de doentes ativos, que ficam berrando ao celular e recebem visitas sempre barulhentas, como se o grande mistério do fim não os tocasse?

Uma conspiração de negação e de silêncio fecha-se em torno do moribundo, que – como transparece pelo olhar assustado - gostaria de falar sobre o que o espera, do seu medo, talvez até mesmo pensar sobre suas últimas vontades que não se atreve sequer a dizer, em tal ambiente lotado de esperanças manifestas.

Aqui não há diferença entre laicos e crentes, todos nós diante da morte somos tomados pela angústia, precisamos falar disso, mas parece impossível quebrar o tabu. São recebidos com exclamações de júbilo os últimos sinais tênues de interesse pela política ou pelo esporte, pelos homens, pelos filhos e netos, pelas mulheres: ao moribundo é pedido para desempenhar o papel do paciente em processo de restabelecimento, pena a exclusão do mundo ao seu redor, sejam eles membros da família ou enfermeiros e médicos. Os moribundos precisam guardar tudo dentro de si, não mostrar a sua angústia: já é um incômodo para os outros que eles estejam morrendo, e assim os lembrarem que eles também vão morrer, mas não pretenderão incomodá-los mais ainda falando disso abertamente? Chamar um padre - assumindo que ainda existam padres que possam ajudar em tais situações - nem sequer é cogitado: traz má sorte, seria ruim para o companheiro de quarto, e inclusive sequer teria um clima de privacidade aparente para uma confissão.

Felizmente, em muitos casos, vemos que há a graça, que Deus não presta atenção às circunstâncias terríveis em que a pessoa que está morrendo está imersa: a mesma pessoa que na noite anterior parecia tomada pelo terror, pode se transformar no dia seguinte em uma imagem de paz, de doçura para os outros, que não sabem como explicar e, portanto, fingem que nada aconteceu. A proximidade com o mistério da morte pode ensinar muitas coisas, da morte e da vida, e é uma das ocasiões para compreender a ação do Espírito. Mas somente se não estivermos ocupados demais fechando nossos olhos, ignorando tudo por medo.

Porque é certo que o medo domina os presentes, que paralisa: o medo atravessado felizmente, de vez em quando, por um ato de puro amor, até mesmo por parte de médicos e enfermeiros, senão mesmo de outros pacientes. É neste lugar desesperado que é vista com maior clareza a mão de Deus que passa através da intervenção humana.

Logo depois de morrer, o corpo será levado para o necrotério, que está sempre no lugar mais horrível do hospital, com paredes manchadas pela umidade, muitas vezes ao lado do depósito do lixo. Um lugar para onde ir para uma visita já é em si uma penitência, sem falar sobre as relações que ligavam ao falecido e a dor por sua perda.

Se pensarmos que a cultura humana é testemunhada em suas primeiras formas pré-históricas justamente pela existência do culto dos mortos, devemos concluir que, para além das nossas conquistas técnico-científicas, estamos caindo muito baixo. Se um shopping, um restaurante, uma sala de cinema - agora nós só somos capazes de construir isso - são tão mais bonitos que um hospital ou um necrotério a ponto de trazer lágrimas aos olhos quando visitamos estes últimos, qual é o verdadeiro estado da nossa cultura? Quem somos? Quem nos estamos tornando?

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