Caso encerrado, mas questões em aberto cercam o ex-auditor geral do Vaticano

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09 Julho 2018

“O que está claro, no entanto, é que no momento em que Francisco está tentando deixar o Vaticano mais transparente, temos um caso com graves acusações de má conduta e abuso de poder. No entanto, um ano depois de terem surgido, aparentemente é permitido que uma investigação expire em silêncio, sem nenhuma explicação pública”, escreve John L. Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 08-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Em uma nova entrevista, Libero Milone, italiano, especialista financeiro leigo que foi nomeado primeiro Auditor Geral do Vaticano em 2015, e que renunciou em circunstâncias obscuras dois anos depois, afirma que uma investigação criminal do Vaticano contra ele terminou sem nenhuma acusação.

Falando à rede de TV estatal italiana RAI, Milone disse que seus advogados foram informados pelo magistrado do Vaticano que o caso foi archiviato, efetivamente significando que acabou.

Até agora, o Vaticano não emitiu nenhum comentário, o que na verdade, equivale a uma confirmação, já que se a alegação de Milone fosse falsa, presumivelmente um porta-voz corrigiria o registro.

O caso de Milone aparentemente terminou sem muito alarme, embora não deixe de ser um tanto curioso, dada a gravidade das acusações que foram feitas no momento em que ele saiu.

Três meses após sua renúncia em junho de 2017, Milone quebrou seu silêncio em uma entrevista na qual insistiu que não havia desistido voluntariamente, mas ameaçado de prisão por guardas do Vaticano, com base no que ele chamou de acusações "encomendadas". Segundo ele, ainda foi forçado a assinar uma carta de demissão preparada.

"Evidentemente, eles não queriam que eu relatasse algumas coisas que vi", disse Milone, afirmando que foi derrubado por inimigos da transparência e da reforma financeira.

Milone disse que foi confrontado com dois recibos de cerca de $33 mil dólares (cerca de $28 mil euros) da mesma empresa, o que dava a entender seu envolvimento em algum tipo de irregularidade financeira. Ele alega, no entanto, que a assinatura em um dos documentos não era dele, embora ambos tivessem o selo de seu escritório.

O que é mais interessante é que, convencido de que estava sendo espionado, Milone usou o dinheiro para inspecionar e limpar seu escritório de supostos dispositivos de escuta. Por outro lado, durante o seu interrogatório pelos guardas, ele era considerado suspeito de espionagem ilegítima dentro Vaticano.

Essa acusação foi tornada pública pelo então arcebispo Giovanni Becciu, na época “substituto” do Papa, ou chefe de gabinete. Becciu foi recentemente nomeado cardeal pelo Papa Francisco e agora é o chefe da Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano.

"Ele foi contra todas as regras. Estava espionando a vida privada de seus superiores e funcionários, inclusive a minha", disse Becciu à Reuters, falando de Milone.

Essas são acusações claramente sérias, e levam a pensar o porquê do Vaticano não dar seguimento num processo criminal. (Esses processos, a propósito, se tornaram rotineiros nos últimos meses, fazendo com que o motivo pelo qual os promotores decidiram deixar esse caso passar mais intrigante).

Logicamente falando, existem apenas algumas possíveis explicações.

A primeira é que, após exame, os investigadores determinaram as acusações contra Milone como falsas. Se for assim, aparentemente ele teria direito a ter seu emprego de volta ou compensação financeira.

A segunda possibilidade é que os promotores acreditem que Milone é culpado, mas estão preocupados em não poderem provar isso em julgamento. É uma possibilidade, embora, dada a forma como as regras de procedimento nos julgamentos criminais do Vaticano tendem a favorecer a acusação. Então, por que haveria motivo para tal preocupação?.

Uma terceira possibilidade é que a decisão de não avançar se torna política e não probatória - que, seja qual for a verdade da questão, o bem maior é privilegiado. Se essa é a realidade, não deixa claro o que exatamente esse "bem maior" poderia ser, e por que supera a ideia de chegar ao fim do processo, que deveria ser um eixo central da reforma financeira do Papa.

Finalmente, uma quarta possibilidade é ter alguém no sistema com o poder de influenciar acusações. Uma pessoa que não queira mais a existência do caso, presumivelmente com base em interesses pessoais. Naturalmente, isso também deixaria em aberto a questão de quais seriam esses interesses.

Nesse ponto, é impossível determinar qual desses quatro cenários, se for algum, está mais próximo da verdade, e se os elementos de todos eles estão realmente envolvidos.

O que está claro, no entanto, é que no momento em que Francisco está tentando deixar o Vaticano mais transparente, temos um caso com graves acusações de má conduta e abuso de poder. No entanto, um ano depois de terem surgido, aparentemente é permitido que uma investigação expire em silêncio, sem nenhuma explicação pública.

Além disso, a reputação de Milone foi gravemente prejudicada pelas consequências de sua demissão, que é totalmente justificada se ele for culpado, e uma injustiça se for inocente. Sem essa decisão, parece que ele está destinado a um tipo de limbo profissional, nunca indiciado anteriormente, mas também não totalmente exonerado.

Ironicamente, um homem que foi contratado para injetar transparência nas operações do Vaticano está deixando uma nuvem de obscuridade. O que quer que se pense sobre isso, pelo menos, parece sugerir que o espírito de revelação total, que era o ponto inicial de toda a reforma, ainda se apresenta, em certos momentos, mais honrado na brecha do que a observância.

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