México. “A palavra revolução não é proibida no Morena”. Entrevista com Luciano Concheiro

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05 Julho 2018

Amanhece em um novo país que ainda não se dá conta de todo o processo de transformação que acaba de colocar em marcha. O México se olha com assombro e entusiasmo. O Morena, partido-movimento do presidente eleito Andrés Manuel López Obrador, delineou um México de metamorfoses. Obrador subiu a um pico impensável: venceu em 31 dos 32 Estados do país e só perdeu Guanajuato.

Os números da eleição de domingo caem, hora após hora, em uma dança que legitima a profunda mudança que se aproxima. Com 24 milhões de votos, Andrés Manuel López Obrador já é o presidente mais votado da história do México. O Morena (Movimento de Regeneração Nacional, espinha dorsal da coalizão Juntos Faremos História) praticamente apagou o PRI do mapa eleitoral. Conseguiu ficar até com estados que eram a própria identidade do PRI como Coahuila, Campeche, Estado do México e Hidalgo.

A guinada foi massiva, mas desta vez, diferente da transição de 2000, quando venceram os conservadores do PAN, com Vicente Fox, a trajetória foi à esquerda. O México expulsou o PRI com uma opção progressista que rompeu todas as marcas: Vicente Fox desalojou o PRI com quase 16 milhões de votos, em 2012, Enrique Peña Nieto se impôs ao PAN com 19 milhões de votos e López Obrador sepultou a ambos com cerca de 25 milhões. A única coisa em comum entre os três são as esperanças que, em cada momento da história, chegaram a representar.

O presidente eleito é a esperança de transformação radical que ele prometeu. Sua vitória é, antes de tudo, o triunfo de uma ideia que nasceu em 2010, quando começaram a ser gestadas as bases daquela que, sem sombra de dúvidas, é a maior inovação política da América Latina contemporânea: Morena, o Movimento de Regeneração Nacional.

Como nasceu? Quem são? Como articularam um projeto genuinamente de esquerda sem que ninguém percebesse? Para onde vão agora que chegaram ao poder e qual foi a chave da vitória?

Quem responde a estas perguntas é Luciano Concheiro, um dos intelectuais orgânicos do projeto do Morena e ex-presidente da Comissão Nacional de Eleições do Morena. Licenciado em Economia (UNAM), especialista em economia política e economia agrícola (Instituto Gramsci, Itália), mestre em ciências sociais (Flacso) e doutor em desenvolvimento rural (UAM-Xochimilco), Luciano Concheiro é professor-pesquisador no Departamento de Produção Econômica e docente da pós-graduação em Desenvolvimento Rural na Universidade Autónoma Metropolitana.

A entrevista é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 04-07-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Para boa parte da esquerda latino-americana o Morena é um mistério. E, no entanto, chegou ao poder.

O Morena é um partido em movimento. Em seu primeiro Congresso, tivemos um grande debate. Primeiro, queríamos nos conservar como movimento e surgiu a ideia de que deveria ser um partido político para construir uma espécie de prefiguração estatal. O grande debate consistiu em saber se para mudar o México seria suficiente uma simples prefiguração estatal ou se deveríamos nos propor uma prefiguração de sociedade, se ao ser um movimento seu, você se torna o processo de configuração da sociedade possível. Depois, alguém levantou: “por que não um partido em movimento” [?]. O que isto quer dizer? Isto significou que se convertia em um partido no fazer e não no dever ser. Oculto para muita gente, havia aí uma das grandes revoluções do que é o Morena. Com isso, houve uma perspectiva na qual a imensa maioria das pessoas que está no Morena não pertenceu a nenhum partido. Foi a primeira vez que fizeram política e se inscreveram em uma organização sociopolítica. Então, foi construída e aprovada uma proposta. Não nos propomos construir uma prefiguração estatal, porque hoje o problema não é nada mais que o Estado. O Morena é afinal um partido em movimento, onde quase não há estruturas, onde as pessoas se convocam para fazer coisas.

Como se articulou essa ida com a vitória presidencial de Andrés Manuel López Obrador? Qual é a chave?

Acredito que o Morena foi se fazendo na caminhada. Um pouco como com os zapatistas, não há um projeto, mas, ao contrário, foi se construindo muito ao redor das práticas sociais, de alternativas ou utopias possíveis. Isso pode soar muito romântico, mas o que o Morena acabou construindo foi a estrutura de onde as pessoas vivem e onde as pessoas fazem sua vida. O grande conector com tudo isto foi Andrés Manuel López Obrador. É um líder carismático e um homem muito ligado às pessoas, que lhe toma muito o pulso no momento. Ele captou o conjunto das relações do país ao redor de certos pontos que tinham a ver com práticas sociais. Um exemplo: quando apresentamos a AMLO o mapa dos movimentos socioambientais no México, boa parte da agenda foi adotada. Por isso, o socioambiental atravessa o conjunto do Morena. Não é um tema a mais, mas, sim, um elemento transversal.

Muita gente na Europa e América Latina ainda questiona a legitimidade de López Obrador como um homem de esquerda.

Nós que viemos da velha esquerda, da esquerda revolucionária, e que consideramos a transformação radical do país, encontramos no Morena um lugar onde há continuidade sobre o elemento da revolução. A palavra revolução não é proibida no Morena. Por isso, Andrés Manuel López Obrador voltou a delinear que esta é a quarta transformação. Disse: “propomo-nos abrir a transformação radical do país”. E realçou que isto era uma revolução, uma revolução das consciências. Então, o que é ser de esquerda hoje? Essa é a grande pergunta. Há grupos para quem o tema da esquerda passa pela diversidade sexual, o casamento igualitário, pelas questões ambientais. Mas, eu me pergunto: onde está a abordagem da esquerda que diga que é necessário transformar o conjunto? Você não a encontra.

Até agora, acreditou-se que no México só havia traficantes e corruptos... mas, há uma esquerda e uma poderosa sociedade que a levou ao poder.

Essa figura da invisibilidade da esquerda do México convinha aos interesses dos de cima. Falaram de derrota e converteram a esquerda mexicana em algo passageiro, que estava integrada ao sistema e que apoiava o neoliberalismo. Esqueceram-se de algo chave neste país: o México é um país de ondas transformadoras, conta com uma memória impressionante na transformação social que, além disso, inclui um sentido republicano muito profundo. Neste país, até os marxistas são guadalupanos, pois, caso contrário, não somos bons marxistas porque a Virgem de Guadalupe é a virgem da Revolução. Difundiu-se a ideia segundo a qual o México era um país sem salvação. Para a América Latina, estávamos ligados aos Estados Unidos. Mas, aqui, há uma trajetória e eu não acredito que tenha sido geração espontânea e que graças ao Morena temos o que temos. Hoje, no México, houve uma guinada muito importante.

A partir de agora, a utopia inicial do Morena se torna uma realidade do poder. Como se derrota a violência, a corrupção e a desigualdade que imperam no México?

Precisa ser reconstruindo a sociedade sobre outras bases, temos que atacar as causas. As causas têm a ver com os elementos estruturais que Andrés Manuel López Obrador resume em uma fórmula que diz “queremos bolsistas, não sicários”. Essa fórmula que parece simplória, acabou pegando nas pessoas porque as pessoas viram uma alternativa em uma condição onde não estão colocando uma parte da sociedade para fora, mas buscando entender que os problemas que essa sociedade possui precisam ser solucionados a partir de sua reconstrução básica.

Aí entra um ponto chave: não foi somente uma mudança do Morena, mas, sim, tratou-se do encontro de uma sociedade que, após os 43 desaparecidos de Ayotzinapa, disse basta. Não mais a política do medo, a necropolítica que vai acabar conosco. Essa sociedade se atreveu a ir à rua, a defender os 43 jovens estudantes, camponeses que eram socialistas. Cuidado, que palavra!. Nessa representação estavam os inimigos do Estado neoliberal e, no entanto, a sociedade disse basta e cortou. Deu-se, então, a conexão de uma organização sociopolítica que vai em busca de uma conexão com as capacidades de transformação com um dos movimentos que alteraram nossas vidas. Até então, a violência havia se normalizado, todo mundo sabia por onde passar para não ter um dano colateral. Dizia-se: “enquanto a guerra não for contra mim, que seja contra eles”. O problema se vê maiúsculo, quando você vê os números que oscilam entre 180 mil e 240 mortos. Esta é uma guerra não declarada, ponto.

Mas, como se sai dessa lógica?

Andrés Manuel disse: temos que ir contra a impunidade que está ligada à corrupção. A impunidade arma o sistema político em geral. O ponto essencial consiste em reconstruir um tecido social institucional onde as pessoas possam se sentir seguras.

O México retomou sua tradição revolucionária. Essa utopia do real já pode nos reconectar, reconectar as esquerdas da América Latina e reformular um projeto de transformação comum a partir do México.

A Revolução Mexicana teve uma influência maior no conjunto da América Latina. É o equivalente do que a Revolução francesa foi para o conjunto da Europa. O grupo de intelectuais que trabalhamos com Andrés Manuel López Obrador dissemos: somente se nós nos latino-americanizamos e entramos na lógica de nossa América, como diria Martí, temos um sentido para a transformação no México. Que Donald Trump tenha dedicado meia hora a López Obrador, e para refletir então a ideia de fazer um projeto de desenvolvimento para atacar a causa da migração, que inclua também a América Central, já diz muito. Este sentimento latino-americano será um elemento fundamental.

Sem a América Latina, nós diante do império não somos nada. Sem o Brasil, sem a Argentina, sem os outros, não podemos enfrentar uma política violenta dos Estados Unidos sobre nós. O sonho irá nos unir. Por isso, utilizo a ideia de nossa América de José Martí: era um sonho e esses sonhos tiveram sentido com a Revolução mexicana, com os sonhos do progresso. O projeto do Morena é latino-americanista. A pergunta é se tem que ser econômico ou se tem que ser algo que com o México se construa de outra maneira, que tem que partir do cultural. Acredito que hoje há essa grande oportunidade de partir com uma ideia que nos prenda ao conjunto, que nos devolva o sentido de nos pensar como um universal possível, a partir da América Latina. Acredito que isso parte da necessidade de nos ver como um sujeito real atuante. Devemos recuperar o sentido indígena e anticolonial de 91, mas precisa nos representar no conjunto. Temos essa grande oportunidade. Há muito para nos irmanar através do caminho cultural.

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