Uma releitura do Evangelho de Lucas. Elogio da sede

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29 Junho 2018

O L'Osservatore Romano, 26/27-06-2018, publica um trecho do livro Elogio da sede (Elogio della sete, Milão, Vita e Pensiero, 2018, 151 páginas, € 14) de José Tolentino Mendonça, sacerdote, poeta e escritor português, vice-reitor da Universidade Católica de Lisboa, consultor do Pontifício Conselho para a Cultura e agora arcebispo arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana. A tradução é de Luisa Rabolini.

Seus poemas e ensaios, muito apreciados pelo público e pela crítica, lhe renderam prêmios e traduções em vários idiomas. Na Itália foram publicados, pela Vita e Pensiero, La mistica dell’istante, Tempo e promessa (2015) e Chiamate in attesa (2016).

"Ao longo dos anos - escreve o autor na introdução - coletei muito material diferente sobre a sede", mas "não tinha uma ideia concreta de como usá-lo. Nem em que ocasião. Até ao dia em que o meu telefone tocou em Lisboa e do outro lado da linha estava o Papa Francisco". Era para "me convidar para dirigir os exercícios espirituais dele e da Cúria".

Eis extrato.

As mulheres do evangelho expressam-se preferencialmente com gestos. Sua fé busca o conforto de tocar (sensível, emocional, desarmado) ao contrário da abstração. Elas dedicam-se ao serviço de forma discreta, sem a preocupação de brigar pela liderança ou estar sempre um passo à frente. É curioso a fórmula que Lucas usa no sumário do capítulo 8 (v. 1-3.): "E aconteceu, depois disto, que andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e os doze iam com ele, e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus bens”.

Exatamente como os Doze, as mulheres "estavam com" Jesus. Faziam do seu destino também o próprio. Mas o texto acrescenta algo que só lhes diz respeito: "Elas serviam". Na gramática de Jesus não existe verbo mais nobre nem mais religioso do que este. Servir. O que as mulheres ouvem é a lição central e incansável de Jesus, não é pouca coisa! Na verdade, não ouviremos grandes perguntas ou comentários saindo de suas bocas. Por um lado, porque não era costume, no âmbito cultural do primeiro século, dar ouvido ao que as mulheres pensavam. Mas, pelo outro, porque as mulheres representam uma posição profundamente evangélica.

Nós não vemos nenhuma delas perguntando a Jesus: "Senhor, são poucos os que se salvam?" (Lucas, 13, 23); ou, numa perspectiva mais individual: "Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?" (Lucas, 10, 25). Nenhuma o questiona sobre sua autoridade ou começa a discutir a legalidade dos atos de misericórdia que ele coloca em prática. As mulheres são alheias à bateria de perguntas que tentam enredá-lo, como: "Não é este o filho de José?" (4, 22); "Que palavra é essa?" (4, 36); “Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores?” (5, 30); “Por que fazeis o que não é lícito no sábado?” (6,2). Nenhuma fica indignada com ele, fazendo comentários como: "Quem é esse que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?" (5, 21). Pois bem.

Apenas em uma ocasião Lucas conta que do coração da multidão emergiu uma exclamação incontida de uma mulher anônima. Uma exclamação de esclarecimento: "Feliz é a mulher que te deu à luz e te amamentou!" (Lucas, 11, 27). Normalmente, nas praças a voz das mulheres não é ouvida, ou é percebida trêmula como a da mulher hemorroíssa, de acordo com o narrador: "Então a mulher, vendo que não conseguiria passar despercebida, veio tremendo e prostrou-se aos seus pés. Na presença de todo o povo contou por que tinha tocado nele e como fora instantaneamente curada.” (8, 47).

Mas aquela exclamação, pouco antes, de uma voz anônima na multidão, talvez apenas uma mulher pudesse emiti-la. Ela fala de gestação e de crescimento, daquela beatitude não especificamente teológica, mas universal, que é o ninar com amor o lado concreto da vida, curvar-se sobre ela, alimentá-la, ajudar uma existência a consolidar-se.

Existe, evidentemente, outra forma de comunicação, e são as mulheres que a interpretam. "Feliz é a mulher que te deu à luz e te amamentou!" Com as mulheres existe um fluxo de realidade que intervém para moldar a fé. Que assim não permanece prisioneira - como acontece com frequência com aquela masculina - do racionalismo, da doutrina vivida mecanicamente, do ritual. Existe uma densidade existencial, um gosto da vida cotidiana, nelas, que consegue perfumar a fé. Frequentemente o espaço é o doméstico. A ocasião é uma refeição. O âmbito é o das relações. O exercício é aquele da cura. E há uma sensibilidade que envolve toda a vida, mesmo quando esta é minúscula e sofrida.

Curiosamente, um dos elementos que conecta as várias personagens femininas de Lucas são as lágrimas. A viúva de Naim, a pecadora, as mulheres de Jerusalém - todas choram. E, provavelmente, à sua maneira, também a mulher curvada, a mulher procurando a moeda ou a hemorroíssa. As lágrimas são um extravasamento que expressa o excesso de alguma coisa. Emoções, conflitos, alegrias, solidão e feridas. Muitas vezes somos dominados pelas nossas próprias lágrimas. Acontece-nos de chorar mesmo sem querer.

Mas as lágrimas dizem que Deus se encarna em nossas vidas, nos nossos fracassos, nos nossos encontros. Nos Evangelhos, Cristo também chora. Jesus carrega sobre si a nossa condição, torna-se um de nós e, por isso, nossas lágrimas são incorporadas às dele. Ele realmente as carrega consigo. Quando ele chora, ele recolhe e assume todas as lágrimas do mundo. Ainda sabemos pouco sobre esse misterioso país que são as nossas lágrimas.

Apesar de ser um evento não-verbal, não por isso as lágrimas deixam de ser uma linguagem, um alto brado, embora silencioso, uma espécie de sede que dessa forma é declarada, exposta.

As mulheres dos Evangelhos concedem direito da cidadania às lágrimas, mostrando quão grande é a importância deste sinal. Elas nos explicam o sacramento da sede. Certa vez pediram a Julia Kristeva, uma não-crente, um comentário sobre a bem-aventurança de Jesus: "Bem-aventurados vós, que agora chorais" (Lucas 6). Respostas que, na qualidade de psicanalista, ela entende muito bem. Quando um paciente extremamente deprimido chega a chorar no divã, acontece algo muito importante: ele está começando a se distanciar da tentação do suicídio. As lágrimas não narram o desejo de morrer, mas sim a nossa sede de vida. Nas lágrimas que no momento atual caem de tantos olhos, tentamos ver a sede do nosso tempo, o gemido, que sobe aos céus, desse imenso fluxo humano onde estamos todos nós.

As lágrimas são a área visível, transparente e viva do nosso desejo. Fluem do interior para o exterior do nosso corpo, mas expressam a mais profunda e intensa interioridade. Nos seres humanos, o choro é sempre uma forma de relação. É assim desde a infância. O choro de um bebê não só demonstra sua necessidade concreta de atenção e a necessidade de que seja satisfeito, mas é a manifestação de um desejo mais amplo e igualmente vital: a sede de relação. Chorando, procura um interlocutor que apreenda a mais verdadeira das mensagens, aquela do seu corpo, não aquela da sua língua.

É interessante como muitos santos - incluindo Inácio de Loyola - chorassem copiosamente. Nós Evangelhos temos as lágrimas de Pedro. O filósofo Emil Cioran falava que o maior dom da religião só pode ser este: ensinar-nos a chorar. As lágrimas dão uma sensação de eternidade ao nosso devir. Elas nos guiam de uma condição de órfãos ao êxtase. Cioran lembra, por exemplo, que quando no final da vida São Francisco de Assis estava quase cego, os médicos atribuíram sua doença a uma única causa: o excesso de lágrimas. E ele dizia que "apenas lágrimas serão pesadas no juízo final".

Vamos pensar nas nossas lágrimas. Nas primeiras que derramamos na nossa infância e nas últimas, as mais recentes. Nossa biografia também pode ser contada através das lágrimas: de alegria, de celebração, de emoção luminosa; e de noites escuras, de laceração, de abandono, de arrependimento e de contrição. Vamos pensar nas nossas lágrimas derramadas e naquelas que permaneceram presas como um nó na garganta e cuja falta ficou pesada, ou ainda está pesando em nós.

A dor daquelas lágrimas que não foram derramadas. Deus conhece todas elas e acolhe-as como uma oração. Tenhamos confiança, portanto. Não vamos escondê-las Dele. Para Gregório Nazianzeno, as lágrimas são um batismo. Na verdade, ele fala de cinco batismos: o primeiro, alegórico, aconteceu ao cruzar o Mar Vermelho, guiados por Moisés (1 Coríntios, 10, 2); o segundo é penitencial, representado por João Batista; aquele de Cristo é o terceiro e acontece no Espírito Santo; o quarto batismo é aquele dos mártires, que é feito no sangue (também Cristo o conheceu); o quinto batismo é o das lágrimas, e está sempre acessível a todos nós. Mesmo aqueles que perderam a possibilidade de chorar com lágrimas, não perderam completamente a possibilidade de chorar. Cioran também dizia que as lágrimas podem nos tornar santos, depois de termos sido humanos.

Em Lucas 7, 36-50, vemos uma mulher que chora (e ensina a chorar). Um fariseu convidou Jesus para jantar e ela tem a coragem de aparecer ali. A sua presença não tem a menor legitimidade formal. Chega como uma intrusa e só aparece porque sabe que Jesus está à mesa do fariseu. A mulher é, desde o início, uma personagem que entra na órbita de Jesus. Chega para segui-lo, como discípula anônima, discípula de Jesus in pectore, como o são muitos dos nossos contemporâneos.

Sem a ajuda de ninguém, ela o reconhece, colocando-se de maneira visível atrás dele, confiante de que ele irá protegê-la da previsível hostilidade dos demais. É difícil permanecer indiferentes à aparição dessa personagem.

A mulher entra e sai em silêncio, mas o leitor sente o quanto sua passagem está repleta de uma verdade incontestável. No lugar de palavras, ela recorre a uma linguagem plástica, talvez mais incisiva que a linguagem verbal. Friedrich Schlegel se pergunta: "O que são as palavras? Uma lágrima supera todas elas em eloquência”. Nós nos encontramos exatamente nessa situação. Naquele cenário improvável que foi a casa do fariseu, a inominada apresenta sua própria história. E faz isso da forma como ela pode: com o seu choro prolongado, os cabelos que se arrastam no chão da casa do hóspede, em uma coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que ninguém mais tinha pensado em oferecer a Jesus.

Confira o vídeo do agora arcebispo Tolentino Mendonça falando sobre o Papa Francisco:

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