Cardeal mexicano considera 'impensável' separar famílias na fronteira

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28 Junho 2018

O cardeal Carlos Aguiar Retes, da Cidade do México, atualmente uma figura importante na Igreja da América Latina, disse que acha difícil acreditar que o presidente de qualquer país considere uma boa ideia separar as crianças de seus pais quando a família tenta emigrar, como foi o caso da fronteira México e Estados Unidos na semana passada.

A entrevista é de Inés San Martín, publicada por Crux, 27-06-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Indicado no ano passado para liderar a arquidiocese da Cidade do México, com cerca de 9 milhões de pessoas, o prelado disse que quando confrontado com as imagens da fronteira sente "o que todos sentimos, porque todos nós fomos crianças".

"O que aconteceu é um infortúnio lamentável", disse Aguiar Retes na segunda-feira. "É impensável que o presidente de qualquer país, mas ainda mais o presidente do país mais poderoso do mundo, tenha tido essa ideia".

A referência foi para o presidente Donald Trump, dos EUA, que críticos, assim como os bispos católicos dos Estados Unidos, culpam pelas separações das famílias.

Retes Aguiar foi nomeado cardeal pelo Papa Francisco em 2016 e indicado para substituir o cardeal Norberto Rivera Carrera como arcebispo da cidade do México, em dezembro do ano passado.

Entre outras coisas, ele falou sobre a situação da arquidiocese, um recente anúncio de que a igreja da região vai trabalhar em conjunto com a Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual por Sacerdotes (SNAP, sigla em inglês para Survivors Network of those Abused by Priests), sobre a luta contra abusos sexuais clericais e o papel das mulheres na vida da Igreja.

Aguiar Retes está em Roma esta semana para participar no consistório para a criação de novos cardeais.

Eis a entrevista.

Você tomou posse como chefe da arquidiocese do México há seis meses. Quais são seus maiores desafios?

A Cidade do México tem cerca de 9 milhões de pessoas. Os católicos são um pouco mais de 80%, menos do que a média nacional, que é cerca de 84%. Curiosamente, contrasta ainda mais com o ambiente de onde venho, nos arredores da Cidade do México, que tem uma população de 14 milhões. Aqui, os católicos são 85% da população.

Estou destacando isso porque este é um dos desafios que temos: por que, se estamos no mesmo vale, a percentagem diminui na Cidade do México, quando a área circundante não apenas não diminuiu, mas é superior à média nacional?

Há muitos fatores para explicar essa realidade. Um deles é que o modelo "provincial" ainda é um modo de vida, onde os vizinhos se conhecem, há uma relação mais próxima entre os membros da Comunidade, e isso facilita o trabalho da Igreja. No entanto, na metrópole, o que acontece é comparável a outras cidades do mundo, em que o anonimato é muito comum, raramente se conhece o vizinho e as famílias vivem distantes.

Isso significa que, na prática, o sentimento de pertencer a uma paróquia ou comunidade, que são essenciais para a vida da Igreja, foi diluído.

O segundo desafio é a própria organização da arquidiocese. Por mais de 30 anos a arquidiocese procurou ser descentralizada, estar mais perto das pessoas, e o bispo procurou estar mais próximo aos sacerdotes. Há 30 anos, os vicariatos episcopais eram formados como equipes de administração. E nos últimos 25 anos, eram geralmente coordenadas por um bispo auxiliar, que respondia ao cardeal.

No entanto, agora há uma fragmentação visível: um vigário não sabe o que o outro está fazendo. Portanto, tivemos basicamente oito minidioceses andando em paralelo, tendo o cardeal como seu representante oficial.

Por isso, minha proposta é a possibilidade de gerar três novas diocese e deixar cinco vigários, com um tamanho muito mais acessível, que vai permitir que eu conheça as paróquias com seus vigários e ministros. E, ao mesmo tempo, precisamos gerar uma relação estreita com as novas dioceses para enfrentar todos os desafios que temos em comum como Cidade do México.

O terceiro problema é que neste momento há um enfraquecimento das vocações sacerdotais. Um quarto dos seminaristas atuais vem de outras dioceses. Eles não são das nossas paróquias. E no clero, um terço é diocesano, os demais são religiosos. Isso significa que não fomos capazes de ter um ministério vocacional de jovens em que as vocações florescessem na vida da Igreja.

Acredito que esta iniciativa das novas dioceses pode permitir a implementação de alguns projetos, como o de um ministério vocacional comum. Temos de trabalhar em novas vocações antes de chegar a um ponto extremo. No momento é controlável, mas em alguns anos não será suficiente.

Outro desafio é o fato de a Cidade do México ter se tornado uma cidade de grande mobilidade, em que essa região de que falamos tornou-se uma área residencial de pessoas que vêm para trabalhar na Cidade do México, gerando um movimento diário de milhões de pessoas. São pessoas que vêm trabalhar dentro da cidade. Portanto, há pessoas que levam de duas a quatro horas para ir e voltar da casa para o trabalho. Não há tempo para o trabalho pastoral ou participação na vida pastoral das paróquias. Isso faz com que a espiritualidade católica das pessoas fique um pouco mais distante, deixando-a para um ou outro momento.

Para enfrentar este desafio, estamos criando quatro paróquias pessoais para levar nossos serviços, com os sacerdotes, às empresas ou unidades de trabalho. Ou seja, se as pessoas não vão [à Igreja] por várias razões, a Igreja vai conhecê-las. Vamos criar quatro já agora e outras foram solicitadas, para atender os católicos da empresa, e também para cuidar de seus filhos ou parentes quando estiverem no hospital, para que tenham alguém a quem recorrer quando precisarem e para recriar essa sinergia que a Igreja sempre teve no México, a proximidade dos sacerdotes e seus fiéis.

Desde que o senhor se tornou líder da arquidiocese da Cidade do México, a importância que atribui aos leigos, principalmente às mulheres, é evidente, tendo Marilú Esponda como coordenadora de comunicação. Por quê?

Sempre acreditei na necessidade de as mulheres terem um papel público e que há cargos em que as mulheres são melhores do que os homens. E acredito que a área de comunicação seja uma delas. Eu conhecia Marilú desde que ela colaborou como porta-voz na Conferência Episcopal. Na primeira vez que lhe ofereci a posição, ela recusou. Nessa primeira vez, eu disse: “você terminou os estudos em comunicação, agora venha trabalhar para a Igreja”. Mas ela resistiu. Ela disse: "Eu sou mulher", e eu falei que isso não é defeito, pelo contrário, é uma virtude.

E agora que me nomearam arcebispo, liguei para ela novamente. Mas não fui sozinho, fui com outra parceira que também trabalha na equipe de coordenação, Marimar Chapa, e também está começando a trabalhar na área.

Outra área muito importante é a participação das mulheres na formação sacerdotal. A partir do próximo ano letivo, que começa em setembro, trabalhamos para que haja um psicólogo ou psiquiatra para acompanhar o processo de formação. Acredito que a presença feminina é muito importante em toda a formação sacerdotal. E, dessa forma, vamos formar as equipes para avançar com os grandes desafios.

Desde que assumiu como arcebispo da Cidade do México, o senhor falou muito claramente sobre a questão do tolerância zero nos casos de abuso sexual clerical. Qual é a dimensão do desafio do combate ao abuso sexual clerical na arquidiocese?

Acredito que a condição em que os padres trabalham hoje tem, assim como a família e a sociedade, uma tendência mais individualista, sem o calor de uma comunidade ou bairro como no passado. Isso afeta muito os sacerdotes, deixando-os mais expostos.

As pequenas comunidades que a Igreja tradicionalmente foi projetada para ter, pois as estruturas de paróquia conseguiam suprir aos sacerdotes o calor e a relação de uma comunidade cristã. As pessoas conheciam o padre, e ele era próximo delas. Era um relacionamento que ajudava os padres a viverem o celibato, porque há expressões afetivas saudáveis que fortalecem muito o indivíduo.

Além disso, trazem satisfação, porque há uma relação de confiança, de colaboração, por exemplo, para ajudar um membro da família ou da sociedade quando têm algum problema. Isso é expresso na gratidão, em relações amistosas, numa maior participação na vida e na missão da Igreja.

Isso é algo que está diminuindo na Cidade do México, por isso é mais arriscado para a vida celibatária. Isso se reflete não apenas nos casos infelizes de pedofilia, mas também nas relações sexuais que não deveriam acontecer, ou o consumo abusivo de substâncias como o álcool, que é prejudicial à capacidade da pessoa.

Por outro lado, para uma pessoa que está em um ambiente afetivo saudável, todos esses riscos diminuem, e a espiritualidade é reforçada. Assim, o sacerdote fica mais forte e é mais eficaz.

Esse é o risco do anonimato da cidade grande. E diante deste desafio, a nossa proposta para ajudar os fiéis é criar unidades pastorais, ou seja, três a cinco párocos das paróquias vizinhas e identificam-se com uma zona social, formando uma unidade pastoral com um coordenador. O ideal seria que eles vivessem na mesma casa, onde há calor humano e a normalidade das relações cotidianas, como fazer as refeições juntos, e não sozinhos, poder dialogar e trocar nas atividades diárias. Acho que vai nos ajudar muito a manter a espiritualidade e o celibato dos sacerdotes.

Recentemente, a arquidiocese anunciou que vai trabalhar com a SNAP, a Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual por Sacerdotes. Por que a importância de dar este passo?

Pelo menos no México, quem preside a SNAP, Joaquín Aguilar, é também uma das vítimas. Mas assim que ouviu minha proposta inicial de lutar contra a pedofilia e a favor da política de tolerância zero, ele se aproximou de nós. Várias reuniões ocorreram, e logo depois da primeira reunião, aconteceu o primeiro caso [um padre foi suspenso semanas depois que Aguiar assumiu o cargo, devido a alegações críveis de abuso sexual]. Agimos a respeito, e Joaquín ficou ainda mais convencido da necessidade de trabalharmos juntos.

Isso ajudou ambos os lados a descobrirem que não somos inimigos. O inimigo está lá fora: é a pedofilia. E temos em comum o fato de a Igreja não querer pedófilos e as vítimas não querem que esses eventos lamentáveis voltem a acontecer.

Não estamos em lados opostos: temos a mesma vontade de acabar com um mal que nos preocupa. Por isso nos aproximamos tanto nos últimos meses.

Nos últimos dias vimos algumas imagens extremamente difíceis na fronteira entre México e Estados Unidos. O que você o senhor quando vê essas imagens ou quando se atualiza sobre o que está acontecendo?

Sinto o que todos sentem, porque todos nós já fomos criança. Nada faz uma criança chorar mais do que estar longe da mãe, ainda mais no meio de estranhos.

O que aconteceu é um infortúnio lamentável. É impensável que o presidente de qualquer país, mas ainda mais o presidente do país mais poderoso do mundo, tenha tido essa ideia. Evidentemente, a pressão internacional foi muito forte.

Providencialmente, tivemos uma reunião entre o México e a Santa Sé sobre imigração aqui no Vaticano ao mesmo tempo, e eu acredito que isso deu força para a opinião pública e o governo mexicano alcançarem o que alcançaram, impedindo a ação do presidente Trump nesse sentido.

Graças a Deus, acabou, mas agora temos que cuidar das crianças que viveram esse drama, que é uma ferida que permanecerá dentro desses pequenos para sempre.

E a crise de imigração continua...

Sim. A crise não foi resolvida. Este ponto, que é muito doloroso, foi resolvido, graças a Deus, mas o problema persiste, latente.

Qual é a importância de a Igreja dos Estados Unidos e do México trabalharem juntas para tentar ajudar essas pessoas que estão indo do sul para o norte?

A Igreja é uma instituição que pode ajudar muito os cidadãos a entender que os imigrantes não são criminosos, não vão para os Estados Unidos por puro capricho, mas porque não têm outra opção na vida.

O imigrante busca uma vida digna e, por isso, se muda, tentando encontrar uma maneira de sustentar a família e viver. Eu acredito que quanto mais a Igreja concentrar esforços de ambos os lados da fronteira, mais vai ajudar a consciência da sociedade civil.

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