Brasileira tenta reaver filho nos EUA em abrigo a 1,6 mil km dela

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26 Junho 2018

Menino de 9 anos viu a mãe ser algemada quando foi separado dela na fronteira; no abrigo, contraiu catapora.

A reportagem foi publicada por The New York Times e reproduzida por O Estado de S. Paulo, 26-06-2018.

O presidente Donald Trump encerrou oficialmente a política de separação de famílias, mas dramas de mães e pais para reaverem filhos se espalham pelos EUA. Ganhou destaque na imprensa americana o relato da brasileira Lidia Karina Souza, que não vê seu filho Diogo, de 9 anos, desde o dia 30.

Mãe e filho se falaram pela última vez no aniversário de 9 anos do menino, há pouco mais de uma semana. Lidia havia sido libertada duas semanas antes de uma detenção migratória. Mas ela não pode contar a seu filho, Diogo, quando eles poderão se ver novamente.

"Não chore. Você vai ganhar um Nintendo, uma festa de aniversário, não se preocupe", afirmou Lidia ao seu filho. A conversa por telefone foi gravada e reproduzida pelo New York Times.

Na fronteira, Lidia foi presa e Diogo levado para Chicago, onde foi colocado em um abrigo para crianças. Ela foi solta no dia 9 e autorizada a se reunir com os parentes em Hyannis, Massachusetts, a mais de 1,6 mil quilômetros dele.

"Vou fazer de tudo para tirar você daí", disse Lidia a Diogo no telefone. "Eles precisam de muitos papéis."

Histórias frustrantes como a de Lídia se espalham pelo país, com os pais de mais de 2,3 mil crianças separados delas na chegada aos EUA enfrentando longos atrasos burocráticos para recuperar seus filhos.

Enquanto algumas das crianças conseguiram se reencontrar com os pais nos últimos dias, advogados de imigração e funcionários do governo apontam que a maioria delas ainda está em grupos em abrigos ou lares adotivos provisórios.

"Não havia um plano claro para a reunião das famílias", disse Karen Hoffmann, uma advogada de uma ONG que dá assistência legal a imigrantes em Reading, Pensilvânia. Ela tenta na Justiça obrigar o governo a reunir três imigrantes com seus filhos.

Parte do problema é que em muitos casos, pais e filhos são detidos a milhares de quilômetros de distância um do outro e muitos não sabem exatamente para onde foram levados seus filhos. Apesar de as agência federais afirmar que registrou cada criança com um número de identificação com referências diretas aos pais, ativistas do tema afirmam que muitos pais estão tendo problemas para chegar até os filhos ou não conseguem se quer uma resposta por telefone das autoridades.

No último sábado, o Departamento de Segurança Interna e Departamento de Saúde e Serviços Humanos anunciaram ter um processo "bem coordenado" para reunir as famílias. Segundo eles, no dia 20, havia 2.053 menores separados sob a custódia do governo. Isso quer dizer que outras 522 crianças não chegaram a ser mandadas para abrigos e foram devolvidas a seus pais na fronteira.

"Um pai que teve ordem para deixar os EUA pode requerer que seu filho ou filha o acompanhe", diz o comunicado. "É preciso ressaltar que no passado, muitos pais decidiram deixar os EUA sem seus filhos."

Se um imigrante é libertado, disseram as autoridades, ele ou ela será reunido com o filho que foi separado dele após preencher todos os requerimentos estabelecidos pelo governo. Mas o caso de Lidia demonstra que a burocracia pode causar grandes atrasos.

Pouco antes de o governo anunciar oficialmente a política de tolerância zero, ele emitiu um memorando estabelecendo rigorosas novas regras para pais, parentes ou outros potenciais responsáveis que queiram requerer a criança da custódia do governo.

O memorando afirma que é preciso apresentar os documentos de "cidadania, status migratório, ficha criminal e histórico migratório" ao responsável. Também diz que o departamento deve recolher nomes, datas de aniversário, endereço, digitais e documentos de identificação do responsável e de "todos os adultos da casa do responsável" e fornecer essas informações à agência responsável por deportações.

"Temos caos de menores brasileiros que continuam em abrigos por conta das novas demandas, que acabam intimidando parentes que queriam levá-los para casa", disse Luisa Lopes, diretora do Departamento Consular de Brasileiros no Exterior do Itamaraty, Luiza Lopes. Ela explica que 49 crianças brasileiras foram separadas de seus pais.

Lidia, de 27 anos, e seu filho se entregram à Patrulha de Fronteira declarando ter medo de retornar ao Brasil, buscando obter asilo nos EUA. No dia seguinte, um agente usou o Google Translate, como explicou, para explicar a ela - enquanto Diogo estava em lágrimas - que ela tinha entrado ilegalmente nos EUA. Por isso, ela iria para a cadeia e seu filho para um abrigo. O menino assistiu à mãe ser algemada.

"Eu disse a ele que não estava indo para a cadeia", contou ela, em português, ao New York Times. "Estou indo para um lugar junto com outras mães. Ele estava indo para o lugar das crianças."

Pouco depois Lidia foi levada a uma corte federal em El Paso, onde ela se declarou culpada por entrar ilegalmente nos EUA - uma contravenção - e foi sentenciada a prestar serviço. Três centros de detenção e dez dias mais tarde, ela foi autorizada a se juntar a parentes em Massachusetts, após passar por uma entrevista para demonstrar que ela tinha motivos para temer ser deportada para o Brasil.

Antes de as autoridades liberá-la em Dalas para um voo para Boston, eles deram a ela um número 0800 para o qual ela deveria ligar para localizar Diogo.

Ela tentou o número assim que chegou em Massachusetts, mas não conseguiu nada. "Eu estava devastada, desesperada, louca", disse Lídia, cristã evangélica que disse ter buscado forças na oração.

Ela também procurou no Facebook uma mulher brasileira que conheceu na prisão cuja filha também foi separada dela. A mulher, que agora está na Pensilvânia, disse a Lidia que sua filha estava em um abrigo em Chicago chamado Casa Guadalupe e tinha ficado amiga de um menino brasileiro chamado Diogo. Ela deu o número para Lidia.

Mãe e filho então se falaram pela primeira vez em mais de duas semanas. Ela soube então que seu filho tinha contraído catapora e, como resultado, foi isolado das outras crianças. Aos soluços, pediu à mãe que fosse buscá-lo.

Desde então, eles foram autorizados a se falar por telefone apenas duas vezes por semana, por dez minutos cada ligação.

"Já se foram 16 dias, mas não se preocupe", disse ela ao filho na ligação que foi gravada. "Isso está chegando ao fim. Fique bem. Fique com Jesus. Que Deus esteja com você e tudo vai dar certo."

‘Realmente não me importo’

Para reaver o filho, Lidia soube, teria de providenciar uma montanha de documentos ao abrigo, gerenciado pelo grupo Heartland Alliance.

A última requisição, disse, foi um pedido de coleta de impressão digital. Lidia foi notificada de que ela e outros dois adultos que vivem na mesma casa terão de ir a uma localização designada em sua área para recolher as impressões digitais no dia 6 de julho. Assim, seu pedido para reaver o filho poderá levar 22 dias no total.

"Eles disseram que ela apenas poderá ver o filho em agosto", disse Jesse Bless, seu advogado. "Isso é completamente inaceitável. Que tipo de processo de reunificação é esse?".

"Isso é tolerância zero, planejamento zero, pensamento zero", disse Bless, experiente advogado do escritório Jeff Goldman Immigration, em Boston, que pegou o caso de Lidia pro bono.

Ele argumentou ao abrigo que Lidia já havia recolhido as digitais na fronteira. O advogado afirmou que depois de ter ameaçado processar o abrigo, o local concordou em ser mais ágil, mas sem especificar datas. Para pressionar o local, ele viajaria para Chicago. Lidia deve conversar com Diogo amanhã mais uma vez.

Na última conversa, suas últimas palavras para ele foram: "Não chore. Quero que você fique bem. Por favor, seja forte, ok, filho? Fique com Jesus, meu filho. Tchau. Eu amo você."

"Eu também amo você", respondeu o menino.

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