“A família é homem e mulher. Abortar os doentes, nazismo de luva branca”

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18 Junho 2018

A dor do aborto seletivo, prática comparável à dos “nazistas” que matavam inocentes para defender a pureza da raça; o estupor das diferentes definições de “família” na atualidade, enquanto “a família à imagem de Deus é uma só, entre homem e mulher”; a tristeza pelas condições sociais e econômicas que impedem os pais de passar tempo com seus filhos e viver o casamento como uma loteria: pode ir bem ou mal e, nesse caso, se muda.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 16-06-2018. A tradução é de André Langer.

Com franqueza e realismo, o Papa Francisco compartilhou uma profunda reflexão sobre a família, com suas luzes e sombras, durante a audiência deste sábado de manhã concedida aos membros do Fórum das Associações Familiares. O organismo, dirigido por Gigi De Palo, reúne mais de 500 associações (uma “família de famílias”, como a definiu Francisco) e comemora seu 25º aniversário este ano.

O Pontífice falou com os delegados do Fórum deixando de lado o discurso que havia preparado porque, explicou, “parece-me um pouco frio”. Ele abordou questões espinhosas, como o aborto de crianças doentes, tema ao qual dedicou duras críticas, comparando-o às práticas utilizadas em Esparta ou mesmo na Europa nazista. “Ouvi dizer que está na moda ou, pelo menos, é normal, que quando durante os primeiros meses de gravidez se fazem exames para ver se a criança não está bem ou vem com alguma coisa, a primeira coisa que se oferece é: ‘vamos tirá-la’. O homicídio de crianças... para resolver a vida tranquila se mata um inocente”, disse Bergoglio. “Na minha juventude, a professora de história nos falava dos penhascos, para jogá-las, para salvaguardar a pureza das crianças. Uma atrocidade, mas nós fazemos o mesmo”.

E sem precisar recuar muito longe no tempo: “No século passado, todo mundo se escandalizou com o que os nazistas faziam. Hoje, fazemos o mesmo, mas com luva branca”, denunciou o Pontífice. “Por que – perguntou, levantando a voz – você não vê anões nas ruas? Porque o protocolo de muitos médicos diz: ‘Vem deformado, livremo-nos dele’”.

É doloroso fazer essa constatação, mas hoje é assim que funciona. Também “doloroso”, segundo o Papa, é que “hoje se fala de famílias diversificadas, de diferentes tipos de família. Sim, é verdade que ‘família’ é uma palavra análoga, pois existe ‘a família das estrelas’, a ‘família das árvores’, ‘a família dos animais’... Mas a família à imagem de Deus é uma só, entre homem e mulher... O matrimônio é um grande sacramento”.

É a visão que o próprio Bergoglio tentou infundir na sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia. É uma pena que “alguns tenham reduzido a Amoris Laetitia a uma estéril casuística de ‘pode, não pode’”, disse, referindo-se claramente às intermináveis polêmicas e dúvidas que acompanharam sua publicação, especialmente pela suposta abertura aos sacramentos para os divorciados recasados. “Eles não entenderam nada”, disse Francisco; na exortação “não se ocultou os problemas”, mas vão muito além da casuística. Basta ler o quarto capítulo que “é o núcleo” do documento, que “fala da espiritualidade de cada dia”.

Por exemplo, na Amoris Laetitia insiste-se muito na ajuda aos noivos na preparação para o matrimônio. “A família é uma bela aventura e hoje, e digo isso com dor, vemos que muitas vezes se pensa em começar uma família, fazer um casamento, como se fosse uma loteria. ‘Vamos, se der certo, deu, se não, apagamos a coisa e começamos outra”, observou o Papa. E contou uma anedota pessoal: “Em Buenos Aires, uma senhora me disse: ‘Vocês sacerdotes estão prontos: para se tornarem sacerdotes estudam 8 anos e depois, se depois de alguns anos a coisa não funciona, mandam uma carta para Roma com boas justificativas que lhes dá a permissão para sair e se casar. A nós dão um sacramento para toda a vida, com 3 ou 4 encontros de preparação. Isso não é justo’”.

Infelizmente, muitas vezes há demasiada “superficialidade” em relação ao “maior dom que Deus deu à humanidade: a família, ícone de Deus”, destacou o Pontífice. É um dom, mesmo que o casal em questão seja ateu: “Pode acontecer que um homem e uma mulher não sejam crentes, mas se se amam e se unem em matrimônio são imagem e semelhança de Deus, mesmo que não acreditem... É um mistério”, disse o Papa.

De qualquer forma, acrescentou, basta “um catecumenato para o matrimônio”; “necessita-se de homens e mulheres que ajudem a amadurecer”. Começando com as coisas pequenas, como, por exemplo, a preparação da festa de casamento. E disse: “o importante é amar-se e receber o sacramento, e depois fazer a festa que querem”, mas não funciona quando “o secundário substitui o essencial”.

Uma preparação válida dos casais jovens, além disso, é importante “também para a sucessiva educação dos filhos”. Outro bom desafio: “Não é fácil educá-los; eles são mais inteligentes que nós no mundo virtual, eles sabem mais do que nós... Educar para o sacrifício da vida familiar não é fácil!” Acima de tudo, é difícil fazê-lo neste momento de crise, econômica e social, o que parece impedir muitos pais de “perder tempo” com os filhos. “Para vencer hoje é preciso ter dois trabalhos. A família não é levada em consideração”, observou Francisco, animando, mais uma vez, a não viver sob essa “cruz” e “escravidão” do trabalho e de seus horários excessivos, mas privilegiar o tempo que deve passar com os filhos. “Brinquem com os filhos, não lhes digam que não incomodem”, exortou o Pontífice.

“Os filhos são o maior dom”, insistiu. Sempre, mesmo quando “estão doentes”: “os filhos que se recebe como vierem, como Deus os envia”. Mas também há casais que não os querem: “Certa vez, encontrei-me com alguns casais que tinham se casado há dez anos, sem filhos. É muito delicado, porque se quer os filhos, mas às vezes não vêm. Em vez disso, fiquei sabendo que eles não queriam ter filhos. Mas essas mesmas pessoas tinham três cachorros e dois gatos na casa”, contou Francisco.

Em sua reflexão, dedicou um pouco de tempo também à traição: “Uma coisa que ajuda muito na vida matrimonial é a paciência, saber esperar”, porque “há, na vida, situações de crises fortes e feias, em que sobrevêm também tempos de infidelidade”. Além da paciência, também é muito importante o “perdão”: “muitas mulheres (mas, às vezes, também homens), no silêncio, esperaram, olhando para o outro lado, esperando o marido voltar à fidelidade”. Esta é “a santidade que perdoa tudo porque ama”, disse Francisco.

E contou outra anedota pessoal: “Eu gosto de saudar, nas audiências, os casais que celebram seu aniversário de matrimônio. Certa vez, havia um casal que completou 60 anos. Eles se casaram jovens. Encontro-me com esse casal e pergunto se ainda tem o mesmo amor. E se entreolharam e seus olhos estavam cheios de lágrimas. Eu nunca esqueci essa cena. Às vezes, uma família que cresce não é um amor de novela, mas um amor verdadeiro. Estar apaixonado toda a vida, com tantos problemas que existem”.

“Outra coisa que pergunto nos aniversários: quem de vocês teve mais paciência? A resposta é: os dois. Para os jovens cônjuges, a pergunta é sempre: vocês brigaram? É importante não terminar o dia sem fazer as pazes. A guerra fria do dia seguinte é muito perigosa. A vida familiar é um sacrifício – concluiu o Papa –, um bom sacrifício”.

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