O futuro da interioridade na era das novas tecnologias

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10 Junho 2018

Acadêmicos respondem à questão de cultivar nossa interioridade perante a investida da tecnologia moderna.

O comentário é de Élodie Maurot e de Robert Migliorini, publicado por La Croix International, 09-06-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

"Le Devenir de l’intériorité… à l’ère des nouvelles
technologies"
editado por Eric Fiat e Jean-Christophe Valmalette,
edições Le Bord de l'eau, 2018.

A humanidade estaria chegando ao ponto crítico de sua interminável batalha com os "alertas", "notificações" e a necessidade de se manter permanentemente "conectado" enquanto procura as oportunidades de relacionamentos e de consumo oferecidos pelas novas tecnologias?

Podemos ter uma overdose? O que vai acontecer conosco e com nossa interioridade, quando na realidade estamos tão fora de nós mesmos?

No livro "Le Devenir de l’intériorité… à l’ère des nouvelles technologies" (O Futuro da Interioridade na Era das Novas Tecnologias, em português), um grupo de acadêmicos respondeu ao convite para avaliar a extensão dos efeitos da mudança tecnológica sobre nós.

Na opinião dos acadêmicos que contribuíram com a obra, o ritmo acelerado da vida, o foco contínuo no que é imediato e a exaltação da visibilidade se combinam para formar uma séria ameaça à interioridade.

"É necessário compreender que as pessoas não nascem com uma interioridade formada", observam os pesquisadores. "Esse tipo de faculdade precisa ser desenvolvido".

"Este processo de desenvolvimento só é possível na base de um diálogo entre visível e invisível, coletivo e solitário, evidente e secreto, público e privado, externo e íntimo, fora e dentro, acordar e dormir bem como ruído e calma, velocidade e lentidão", escreve o filósofo Eric Fiat.

"Para florescer, a interioridade precisa de momentos de calma, silêncio, solidão, sono, sigilo, tranquilidade, de sonhar e de desapegar", argumenta Fiat.

Em outro artigo, o antropólogo Claudine Haroche levanta questões sobre a eliminação do ser humano que lembra muito a "obsolescência do homem" condenada duramente pelo filósofo Günther Anders em 1980.

"A intensificação de fluxos informativos e sensoriais da mídia onipresente combinada com uma sensação de movimento contínuo resulta no encolhimento da consciência e uma exteriorização da esfera interna que são concomitantes com a fragmentação do self”, adverte ela.

Isto pode ser uma dura crítica sobre a tecnologia. No entanto, é um aviso que merece ser ouvido.

É um aviso importante, dado que a crescente preocupação para com a interioridade também ressoa com tradições religiosas. Além disso, também ecoa as preocupações da espiritualidade secularizada, por exemplo, praticantes de meditação plenamente consciente.

"Mais importante do que o desejo de interioridade é a real necessidade de interioridade que tem sido cada vez mais reconhecida nos últimos dez anos", enfatiza Tanguy Châtel, sociólogo e presidente do Fórum 104.

Na perspectiva de Châtel enquanto observador de questões espirituais contemporâneas, esta necessidade coincide com um movimento em direção à externalidade que polarizou as nossas sociedades durante as últimas duas décadas, "levando as pessoas para a ação, mas que é cada vez mais cansativo e às vezes cada vez mais sem sentido".

Se existe uma necessidade ou um desejo de vida interna, como é possível descobrir o caminho certo? Talvez, isto implique a necessidade de redescobrir o significado e os muitos sabores da interioridade. Neste sentido, o que podemos perder com o encolhimento da interioridade se tornará cada vez mais claro.

"Em minha opinião, a interioridade se desenvolve nas profundezas da pessoa humana, além dos papéis sociais e da turbulência da mente", explica o filósofo Alexandre Jollien.

Jollien está se referindo a uma compreensão da natureza humana que "escapa a qualquer possibilidade de controlar ou ser controlada."

"A interiorização é a continuação da minha vida por dentro", acrescenta outro filósofo, Martin Steffens.

Para se abrir a possibilidade de sua existência, a interioridade não deve ser confundida com a vida espiritual.

"Em virtude de sua profundidade, a interioridade é a parte de mim que me escapa", continua Steffens.

Na tradição cristã, a interioridade não é o fruto de trabalho ou de "desenvolvimento pessoal". Ela nasce de um encontro que é magnificamente ilustrado pela famosa fórmula de Santo Agostinho "Deus est interior intimo meo" (Deus está mais perto de mim do que eu mesmo).

"A noção que está por trás desta fórmula é que as profundezas de nossa interioridade encontram-se sempre na presença de um carinho e amor de fogo", enfatiza Eric Fiat.

Apesar do papel essencial desempenhado pelo cristianismo no desenvolvimento da interioridade e subjetividade, a busca contemporânea dificilmente se desenvolve sobre tradições religiosas.

"Nossa época tem esquecido o papel essencial desempenhado pelo cristianismo na 'primazia' dada a interioridade”, observa Fiat.

"As coisas estão se desenvolvendo em resposta ao sentido perdido de intimidade. As técnicas de “desenvolvimento pessoal" são um exemplo.

"Essas práticas podem ter a virtude de trazer a humanidade pós-moderna de volta a si mesma, mas também parecem absolutamente insuficientes em seu conteúdo", observa Fiat.

Para expandir o leque de possibilidades, ele propõe uma lista de gestos humildes, mas significantes que abrem para a interioridade.

Estes incluem a "promoção do direito à desconexão e aceitação da semi-invisibilidade" bem como "caminhar ou fazer música", argumenta.

"Se retirando para aqueles lugares que o filósofo Michel Foucault caracterizou como ‘heterotípicos’, que incluem cemitérios, sótãos, florestas e igrejas, claro" são outras maneiras de se conseguir isso, diz Fiat.

Da mesma forma, há uma necessidade de "se retirar para um tempo de calma e silêncio, bem como para ler, ouvir música e orar", acrescenta.

"A atual busca pela interioridade é melhor expressa em uma busca de continuidade com a vida diária e profissional do que de um modo alternativo (de vida)", observa Tanguy Chätel.

"Nossos contemporâneos estão na verdade na procura de práticas regulares que vão ajudar a nutrir a interioridade, se apoiando numa fonte que irá permitir a dinamização da atividade externa", argumenta.

No entanto, neste momento em que a lógica econômica escapou de sua caixa de Pandora, a interioridade precisa principalmente ser desenvolvida pela gratuidade e o abandono de uma lógica de interesse pessoal — até mesmo uma lógica de uma vida melhor ou bem-estar — que também pode comprometer a vida espiritual.

"Vida espiritual precisa ser gratuita ou inevitavelmente acaba sendo cooptada", diz Jollien.

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