Os novos "ídolos católicos"

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08 Junho 2018

"A idolatria gera fechamento em si mesmo, logo fechamento à vontade de Deus e, também, opressão e exclusão do próximo mediante a formação de pequenos grupos de iniciados nos cultos idolátricos", escreve Matheus da Silva Bernardes, doutorando em Teologia Sistemática pela FAJE - MG, mestre em Teologia Sistemática pela antiga Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. Assunção e graduado em Teologia pela PUC-Chile. 

 

Eis o artigo. 

RESUMO

O presente texto apresenta uma breve reflexão sobre a atitude idolátrica de alguns setores ultraconservadores católicos; atitude que não corresponde às exigências que a história do começo do século XXI impõe aos discípulos e discípulas de Jesus Cristo. A noção de idolatria é tomada de J. Sobrino, que apresenta o Deus do Reino e da vida em uma relação duélica com o anti-Reino e os ídolos da morte.

***

Talvez seja muito cedo ainda para fazer especulações e tirar conclusões do que está acontecendo no Brasil nas últimas semanas com a greve dos caminhoneiros. De fato, não só nas últimas semanas, mas nos últimos anos. Não se pode restringir esses acontecimentos somente ao âmbito nacional: a Nicarágua também atravessa uma paralisação do transporte de carga com consequências trágicas; o povo venezuelano parece ter perdido fôlego para restabelecer o diálogo democrático depois das últimas eleições e a economia do país afunda a cada hora que passa; toda esperança de mudança do novo governo argentino ficou somente na promessa.

Isso por citar somente exemplo dos vizinhos latino-americanos. Nesta mesma semana, a Itália enfrenta mais uma das tantas crises políticas que vem passando desde o final da Segunda Guerra Mundial, cujas consequências podem afetar não só o país, mas toda a Zona do Euro e, portanto, todo o mundo. A catástrofe humanitária no Oriente Médio, especialmente na Síria não tem previsão para acabar. O diálogo entre Estados Unidos e Coreia do Norte permanece pendente. Ainda está o flagelo dos imigrantes do norte da África e Oriente Médio e dos países centro-americanos que sonham com uma vida melhor nos países do Norte, mas o que encontram é exploração e, não poucas vezes, morte. Para finalizar, o extremismo de ideias e práticas vai se disseminando por todo o mundo e não há exemplo melhor que o caricaturesco presidente norte-americano.

Evidentemente, há muito mais para ser analisado e refletido, até mesmo o esdrúxulo retrocesso pedido de intervenção militar que invade algumas manifestações no Brasil. Mas esse não é o objetivo desta reflexão. A intenção é pensar sobre a atitude dos católicos e católicas diante de toda essa complexidade.

Em um texto iluminador, o arcebispo e os bispos auxiliares de Belo Horizonte afirmam que o país passa por um “Tempo de aprendizado e mudanças”. Trata-se de um texto iluminador, sobretudo pela esperança que traz ao afirmar que, mediante humildade e sabedoria, mas sobretudo mediante uma verdadeira conversão, um “rumo novo, no horizonte da justiça e da paz” surge. Entretanto, os senhores Bispos reforçam que a conditio sine qua non para o surgimento desse novo horizonte é a verdadeira conversão.
Não se tratam de palavras novas: o Papa Francisco (EG n.182, MV n.19) repete insistentemente na verdadeira conversão [1], inclusive o texto conclusivo da Conferência Geral de Medellín, que completa 50 anos em 2018, já mencionava essa verdadeira conversão enfaticamente (Justiça n.04, Pastoral das Elites n.13) [2]. Qual conversão? A resposta evidente seria a conversão a Deus. Mas dado o primado da realidade é mister se perguntar: conversão a qual Deus? Essa mesma pergunta se fez Jon Sobrino em seus livros Jesús en América Latina (1982) [3] e Jesus, o Libertador (1996) [4], pergunta que não perdeu sua vigência; até mais, a pergunta se impõe a todos os homens e mulheres de boa-vontade no começo do século XXI, especialmente aos discípulos e discípulos de Jesus Cristo.

A conversão é ao Deus do Reino, ao Deus da vida que está não só em uma relação dialética com o anti-Reino e os ídolos da morte, mas em uma real relação duélica (SOBRINO, 1996, p. 189). O primeiro ídolo da morte que duela com o Deus da vida é a riqueza, a concentração absurda da riqueza em um mundo que segue, à risca, a cartilha neoliberal (SOBRINO, 1996, p. 271-272). Tanto o texto dos bispos da capital mineira, como o Papa Francisco coincidem que é fundamental vencer práticas que visam somente o lucro e o enriquecimento de poucos em detrimento de muitos (EG n.56). O ídolo da concentração da riqueza já fez e continua a fazer inúmeras vítimas pelo mundo afora. As catástrofes humanitárias que muitos assistem consternados não são outra coisa que o culto sacrifical ao ídolo da concentração da riqueza, unido também ao ídolo do poder político, que mereceria uma análise própria, mas como não é o objetivo deste não será feita.

Por outro lado, pensando especialmente na atitude dos católicos e católicas diante das crises mencionadas, não seria possível identificar outros ídolos que impedem a conversão ao Deus do Reino, ao Deus da vida anunciado por Jesus de Nazaré?

O Cristianismo, como diversos autores já o demonstraram, somente pode ser vivido com o olhar no Reino de Deus e os pés no chão da história. Toda e qualquer prática cristã que remete somente a um eschaton ideologizado (SOBRINO, 1996, p.164-166) e retira os pés da história, corre o risco de ser tornar em ídolo alienante. Infelizmente, isso é o que se constata no discurso ultra conversador de alguns padres e, para uma tristeza ainda maior, de jovens que invadem a internet e, a partir dela, as comunidades católicas.

O ídolo não é outra coisa senão a absolutização de uma realidade criada (SOBRINO, 1996, p. 272-273), inclusive a absolutização da interpretação de trechos da Escritura como se tem feito com 1Cor 11,2-6, no qual São Paulo acaba se enrolando em uma argumentação tomadas de mestres fariseus e acaba caindo em uma nova forma de subjugar a mulher ao homem. O uso piedoso e modesto do véu, como tem se difundido acaba se convertendo em um ídolo impedindo a verdadeira conversão ao Deus do Reino, o Deus da vida. Sem querer entrar em toda discussão sobre o machismo explícito na prática do uso do véu, identifica-se aqui uma absolutização de uma realidade criada, logo a criação de um ídolo.

O mesmo acontece com o uso de correntes que enfatiza uma forma de devoção, criada pelo ser humano dentro de um contexto histórico concreto muito distante do atual; as coleções de relíquias que mais remetem à Idade Média que à atualidade, a leitura de coletâneas de orações, inclusive em latim, e até práticas litúrgicas, que estão longe de expressar a eclesialidade intrínseca e necessária à Liturgia, são criações do ser humano, portanto também possuem o potencial de se converterem em ídolos. O que dizer das inúmeras práticas piedosas, como a reza do terço da misericórdia sempre às 15h, que possui mais características de rituais mágicos que expressão de uma prática espiritual cristã.

O rito que sacia a voracidade de todos esses ídolos sacrifica a própria pessoa do idólatra. Trata-se de um auto sacrifício, porém estéril. A entrega da própria vida, como a entrega de Jesus Cristo na cruz, se realiza para que outros tenham vida; Jesus dá sua vida para dar vida. No entanto, o culto a esses ídolos não gera nenhuma vida. Entretanto, esse culto estéril não é o único; há um culto de exclusão muito semelhante ao que os contemporâneos de Jesus, mais especificamente os fariseus e os escribas (mestres da lei) realização (SOBRINO, 1996, p. 259-262). Eles prestavam um culto impecável à lei de Deus, contudo não ao Deus da lei que é o mesmo Deus do Reino e da vida que faz com que sua justiça supere toda lei positiva, especialmente para defender a liberdade do ser humano. A separação idolátrica entre puro e impuro persistiu por séculos a fio no seio da Igreja, por exemplo com os cátaros, mas parece persistir culto que hoje se presta a normas da liturgias e ao Direito Canônico e se esquece que ambos estão a serviço da vida do ser humano e não ao contrário, assim como “o sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27).

Essa tendência idolátrica não deixa nem a sexualidade impune; não a idolatra a partir do hedonismo, mas a partir do puritanismo. O rito sacrificial realizado a este ídolo imola a própria pessoa já que a torna incapaz de captar toda profundidade de significado da sexualidade humana, que não só fonte de um prazer considerado ilícito, mas caminho para a própria pessoal, uma vez exige abertura ao outro, exige alteridade. O puritanismo praticado por alguns setores católicos está mais ocupado em se preservar do que se doar e, portanto, doar vida (SOBRINO, 1982, p. 195-202).

Enfim, há um sem-número de práticas que católicos e católicas têm realizado e são criações – para não dizer invenções – humanas e, portanto, podem se tornar ídolos. A idolatria impede a verdadeira conversão para o Deus do Reino, o Deus da vida. A conversão, em primeiro lugar, é obra do Espírito no coração dos homens e mulheres que lhe são dóceis; a verdadeira conversão gera disponibilidade para cumprir a vontade de Deus e misericórdia para com o próximo. A idolatria gera fechamento em si mesmo, logo fechamento à vontade de Deus e, também, opressão e exclusão do próximo mediante a formação de pequenos grupos de iniciados nos cultos idolátricos.

Diante da grave situação social e política pela qual o Brasil e o mundo passam, os católicos e católicas não podem se dar o direito de cair na idolatria. O Deus do Reino, o Deus da vida anunciado por Jesus de Nazaré não quer pequenos grupos de iniciados em ritos ocultos e idolátricos aguardando o final dos tempos; o compromisso social e político pertence ao Evangelho e à sua vivência (SOBRINO, 1996, p. 131-136). Uma verdadeira espiritualidade católica exige comprometimento com o acontecer social e político, sobretudo porque um novo horizonte de justiça e paz somente irá surgir com os pés postos na história.

É urgente que os católicos e católicas se reúnam para que, inspirados pela práxis de Jesus de Nazaré em favor dos mais pobres, as vítimas que morrem por causa da idolatria do acúmulo da riqueza, aprendam mais sobre a vida em sociedade, a vida política, a importância da participação democrática de todos e as responsabilidades inerentes a essa participação e, sobretudo, à liberdade do ser humano. Não é hora de se reunirem só para idolatrarem seus véus, suas correntes, suas relíquias, suas práticas medievais e seu puritanismo. É hora de partilhar solidariamente “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (GS n.01).

Notas:

[1] CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO, Conclusões de Medellín, São Paulo: Paulinas, 1987.

[2] PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, São Paulo: Edições Loyola, 2013; O rosto da misericórdia, São Paulo: Edições Loyola, 2015.

[3] SOBRINO, J., Jesús en América Latina, Santander: Editorial Sal Terrae, 1ª edición, 1982.

[4] SOBRINO, J., Jesus, o Libertador: a história de Jesus de Nazaré, 2ª edição, Petrópolis: Vozes, 1996. Ainda que o texto original espanhol tenha sido publicado em 1991 pela UCA, no presente texto, seguir-se-á a edição citada.

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