Nova teologia eucarística: o primado da prática. Artigo de Ghislain Lafont

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30 Maio 2018

A desconstrução do modelo clássico de saber e de prática eucarística passa necessariamente por uma “mudança das práticas”. Neste novo texto, Ghislain Lafont, partindo das novidades introduzidas por Pio X no início do século XX, põe no centro das atenções o surgimento do conceito de “participação ativa”, com seus méritos e seus limites. Uma leitura clerical da participação condicionou os inícios do movimento litúrgico e ainda condiciona, hoje, seus possíveis desdobramentos. Torna-se, assim, um conceito-chave para interpretar não apenas a Reforma Litúrgica, mas também a mudança da consciência que a Igreja tem de si mesma.

A introdução é do teólogo italiano Andrea Grillo, em postagem publicada no seu blog Come Se Non, 20-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O primado da prática

Por Ghislain Lafont

A eucaristia é uma prática, não um discurso: “Tomai e comei... fazei isto...”. O cristão que “vai” à missa é chamado de “praticante”. Então, se a prática se modifica, se é abandonada, ou se, ao contrário, é intensificada, a reflexão sobre ela sofre uma evolução.

Por isso, acho que o decreto Sacra Tridentina Synodus, publicado em 20 de dezembro de 1905 pela Congregação do Concílio a pedido do Papa Pio X, se coloca no ponto de partida de todas as evoluções ulteriores quanto à celebração da Eucaristia e a reflexão sobre ela. Como se sabe, esse texto era uma exortação premente à prática cotidiana da comunhão sacramental. Não era o primeiro dedicado a esse tema e, como muitas vezes acontece com os documentos da Igreja, ele evocava os antecedentes formulados no Concílio de Trento e posteriormente. A diferença entre esse texto e os textos anteriores é que, ao contrário dos outros, ele teve uma eficácia: pouco a pouco, pôs-se novamente em movimento a comunhão durante a missa, durante a semana e também no domingo. Alguém pode se perguntar por quê.

O motivo defendido pelo papa para convidar à comunhão era a estreita relação existente entre a santidade e o sacramento. Negativamente: o texto enfatiza que não é preciso ser santo antes de fazer a comunhão. Positivamente: a recepção frequente do sacramento fortalece o cristão: nele recebemos a força para reprimir as paixões, purificamo-nos dos pecados veniais e somos ajudados a evitar os pecados mortais.

Outras fórmulas se encontram no texto: “Satisfazer a vontade de Deus, unir-se a ele mais intimamente na caridade, combater os próprios defeitos e fraquezas”, ou ainda “aumentar a união com Jesus Cristo, alimentar com mais força a vida espiritual, ornamentar a alma de virtudes mais abundantes, oferecer um penhor mais seguro de vida eterna”.

A perspectiva, portanto, é bastante moral e individual, mas nenhum aprofundamento doutrinal ou litúrgico teria sido possível nas décadas posteriores se não tivesse havido, acima de tudo, um retorno à prática da comunhão eucarística. Por outro lado, na época, ela estava cercada por diversas prescrições que evitavam o perigo de uma relação mecânica: assim, o jejum eucarístico que era necessário respeitar (a partir do qual decorria o recurso às missas matinais), a comunhão de joelhos na balaustrada, a ação de graças depois da missa, o recurso regular ao sacramento da penitência criavam um clima de recolhimento teologal e de vigilância pessoal, sem o qual a reflexão teológica posterior certamente não teria ocorrido.

Por outro lado, esse decreto sobre a comunhão frequente se seguia a outros provenientes do mesmo papa. Pouco depois de sua eleição, São Pio X havia publicado um motu proprio, Tra le sollecitudini, sobre a música sacra, em que encorajava a desenvolver as celebrações do culto e, portanto, em primeiro lugar, a Eucaristia, em um contexto musical sóbrio e autêntico.

Uma passagem desse motu proprio sugeria a finalidade última da reforma proposta: “Sendo, de fato, nosso vivíssimo desejo que o espírito cristão refloresça em tudo e se mantenha em todos os fiéis, é necessário prover antes de mais nada à santidade e dignidade do templo, onde os fiéis se reúnem precisamente para haurirem esse espírito da sua primária e indispensável fonte: a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja”.

O texto, então, fazia o elogio do canto gregoriano, na sua restauração promovida à época pelos monges de Solesmes e convidava à prática: “Procure-se nomeadamente restabelecer o canto gregoriano no uso do povo, para que os fiéis tomem de novo parte mais ativa nos ofícios litúrgicos”.

Ora, a restauração do canto gregoriano por parte dos monges de Solesmes se inscrevia na linha das “Instituições Litúrgicas” do Pe. Guéranger, fundador e abade daquele mosteiro: nesse sentido, o esforço de Pio X era como que um reconhecimento do princípio e um convite à implementação da liturgia, no plano musical, certamente, mas também para além da música: para o conjunto da instituição litúrgica da Igreja.

Mas talvez isso não teria sido suficiente se, na Bélgica e em um contexto mais pastoral, o Pe. Lambert Beauduin não tivesse retomado e valorizado esse renascimento da liturgia no nível do povo cristão na sua totalidade, através de uma atividade intensa e diversificada, da qual o pequeno livro de 1914, La piété de l’Eglise. Principes et faits, é simultaneamente um relato e um manifesto.

Em última análise, eu acredito que, se o decreto 1905 deu os seus frutos, isto é, se a Eucaristia na Igreja foi restaurada ao seu lugar de princípio primeiro da vida cristã, isso pôde acontecer porque o decreto caiu em um contexto favorável, ou seja, o do movimento litúrgico nascente.

Em outras palavras, os decretos do Papa Pio X, unidos aos esforços de reflexão teórica e de implementação prática de pensadores e pastores, iniciaram um novo período na história espiritual da Igreja latina, sucedendo-se a outro precedente de duração milenar: com efeito, abriu-se um tempo de prática eucarística enraizada no plano litúrgico, que pouco a pouco levaria a uma valorização diferente de todo o Mistério cristão. A partir dos decretos de Pio X ao Concílio Vaticano II, e depois dele até os nossos dias, um caminho tinha sido traçado; esse caminho foi percorrido, mas ainda está em aberto.

* * *

No entanto, nesses esforços do início do século XX, havia um limite, talvez um obstáculo à continuação do aprofundamento teórico e de tradução prática: enfatizei nos textos de Pio X a expressão, evidenciada com entusiasmo pelo Pe. Beauduin, “participação ativa”. Mas de que se tratava?

No início do decreto Tra le sollicitudini, afirma-se: “Receber a graça dos Sacramentos, assistir ao Santo Sacrifício do altar, adorar o augustíssimo Sacramento do Corpo do Senhor e unir-se à oração comum da Igreja na celebração pública e solene dos ofícios litúrgicos”.

Receber, assistir, adorar, unir-se não são verbos da prática, não dizem nada do que se deveria fazer. As ações são referidas a outros, nós nos unimos a elas (assim também se diz para a oração comum), mas não são competências diretas do cristão. Então, somos realmente ativos? Talvez a prática do cristão se limite – algo já imenso por si só – a receber a comunhão?

Um elemento de resposta vem da leitura do primeiro capítulo da Piété liturgique. Cito as primeiras linhas: “O poder sacerdotal do sumo Sacerdote da Nova Aliança é a fonte superabundante de toda a vida sobrenatural. Ora, Jesus Cristo exerce esse poder santificante aqui na terra apenas através do ministério de uma hierarquia sacerdotal visível” (grifo do autor). E um pouco mais adiante nos é dito: “Fazer de nós vítimas vivas e santas, oferecidas todos os dias para a glória do Pai em união com o único sacrifício de Cristo, esta é a missão santificante da hierarquia católica”.

Ora, São Paulo, no capítulo 12 da Carta aos Romanos, que aqui é evidentemente a fonte do Pe. Beauduin, escreve a todos os seus destinatários (não só aos responsáveis da comunidade romana): “Irmãos, pela misericórdia de Deus, peço que vocês ofereçam os próprios corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” [trad. Bíblia Pastoral].

Por um lado, a hierarquia faz por nós, por outro, o Apóstolo exorta a oferecer a si mesmos. Então, quem faz o quê? O capítulo continua: a hierarquia organiza as funções sagradas, em primeiro lugar o sacrifício eucarístico e tudo o que o rodeia, leituras e cerimônias da missa, mas também os outros sacramentos e sacramentais; os padres celebram solenemente o ofício divino.

A hierarquia organiza o ciclo das festas ao longo do ano. Mas também subdivide os fiéis em paróquias, guia as suas reuniões, acompanha as suas festas familiares e de todos os tipos: “Sob as mãos bendizentes dos ministros de Cristo, os membros de Cristo ressuscitado são postos pelo sacerdócio criador da Igreja em uma renovação antecipada”. Daí a conclusão: “Nunca se inculcará o suficiente nas almas daqueles que buscam a Deus a exigência de se associar o mais intimamente possível e com a maior frequência disponível a todas as manifestações dessa vida sacerdotal hierárquica que acabamos de descrever e que nos coloca diretamente sob a influência do sacerdócio de Jesus Cristo”.

Enfatizei as palavras associar-se intimamente, não para criticá-las, mas para levantar uma questão: onde se encontra, nessa intimidade, a participação ativa? A comunhão sacramental é suficiente para fazer do cristão um sujeito litúrgico em sentido pleno?

A minha hipótese é de que, no início do século XX, ainda estamos no âmbito definido pela deriva da vida cristã em direção clerical, que eu descrito no capítulo anterior, e que tinha recebido o seu caráter sacral dos escritos hierárquicos do Pseudo-Dionísio, familiares à teologia clássica a partir da alta Idade Média.

O renascimento litúrgico nos seus inícios não podia, de uma só vez, distanciar-se desse contexto; ser-lhe-iam necessárias as experiências e os experimentos não só litúrgicos, mas também pastorais, que ocorreriam entre as duas guerras de 1914-1918 e de 1939-1945.

Mas o que é importante extrair não só de Pio X, mas também do Pe. Beauduin, não são os elementos clássicos em parte obsoletos, mas sim o impulso dado em uma nova direção, iniciada por eles e ainda hoje em devir, que vai na direção de uma participação verdadeiramente e não apenas intimamente ativa do povo de Deus: certamente na Eucaristia, mas também em toda a vida da Igreja.

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