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26 Maio 2018

O preço que se paga é, então, muito alto, e enquanto enfurece o escândalo, a coisa mais urgente é "restaurar a justiça e a comunhão", não só no imediato, mas a médio e longo prazo, porque o problema não é apenas lidar com os casos concretos, talvez apenas removendo os culpados (que é necessário, mas não suficiente), o problema é ir à raiz e às estruturas que estão na origem do mal, o problema é "recuperar a profecia".

O comentário é de Raniero La Valle, jornalista e senador italiano, publicado por Chiesa di tutti Chiesa dei poveri, 22-05-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

Caros amigos, enquanto muitas coisas acontecem, o que nos parece mais relevante e rica em futuro é a carta do Papa aos bispos do Chile, e não só em razão dos eventos sem precedentes que afetaram a Igreja chilena, mas por ser um extraordinário texto eclesiologia, que abre um vislumbre do que poderá ser a Igreja, aliás, a religião do amanhã.

É uma carta de dez páginas, que deveria permanecer secreta, por isso não foi publicada no sítio do Vaticano; mas na igreja de Francisco não há mais segredos: é claro que a "Secretaria de Estado" continua a ser chamada assim, mas agora tudo está sendo gritado aos quatro ventos, a vela está acima do alqueire, e até mesmo a mais fraca das brasas pode ser percebida. Então, nós assistimos com espanto a um papa que se apresenta reconhecendo o erro cometido no juízo que tinha feito em relação ao escândalo de pedofilia no Chile, e em seguida, a todo o colégio de bispos que esteve em Roma por três dias para repensar com o papa tudo que tinha acontecido, que se arrepende, pedindo perdão, antes de tudo, às vítimas para depois renunciar ao poder, cada bispo colocando nas mãos do papa seu mandato, sem nenhuma justificação pessoal, do primeiro ao último, todos os trinta e quatro.

É a primeira vez que uma Igreja pede perdão desta forma: até agora, inclusive para suas culpas mais graves, a fórmula era que a Igreja era santa e que, no máximo, pedia perdão pelo mal cometido por algum de seus membros.

Por isso, é preciso ler a carta do Papa. Nós estamos disponibilizando-a em nosso sítio em espanhol, como foi escrita e como foi publicada pela televisão chilena, e tentaremos apresentar a vocês mais adiante uma tradução. Mas, por enquanto, podemos relatar seu conteúdo.

Primeiro é preciso dizer que não parte de um problema de Igreja, ou de doutrina, mas de uma ferida "aberta, dolorosa, complexa e sangrenta" na vida de tantas pessoas, não necessariamente crentes, é "portanto" na vida de povo de Deus. Todas as vítimas, todas as pessoas são o Povo de Deus. Ferida não curada de forma adequada, e, portanto, agora é preciso virar a página, sem jogar a culpa nos outros, porque todos estamos implicados, diz o Papa, "e eu em primeiro lugar".

Mas como intervir? Primeiro é preciso encontrar o caminho. E o caminho é o da conversão, porque é preciso mudar, e não existe mudança sem conversão, e é necessário fazer isso juntos, na "colegialidade" e "sinodalidade".

E aqui está a chave teológica da verdadeira conversão pedida à Igreja: "é necessário que ele cresça e eu diminua", segundo as palavras de João Batista. A Igreja do Chile (mas não só ela) sofre a tentação de "substituir" o seu Senhor. De colocar-se no lugar de Deus. De crescer tanto, que não é preciso mais Deus, porque ela está em seu lugar. Isso é o que aconteceu ao longo dos séculos. Mas se a Igreja basta a si mesma, se não tem mais nada a anunciar, se falta com a sua própria missão, a sua força profética está perdida. E se a Igreja coloca-se no centro da atenção, em vez de colocar o Senhor, que é "o caminho, a verdade e a vida" e assim perde "a memória de sua origem e de sua missão", até mesmo o pecado da Igreja transfere-se ao centro da cena, não se vê mais nada e não se fala mais nada; e é justamente o que aconteceu nesta crise.

O preço que se paga é, então, muito alto, e enquanto enfurece o escândalo, a coisa mais urgente é "restaurar a justiça e a comunhão", não só no imediato, mas a médio e longo prazo, porque o problema não é apenas lidar com os casos concretos, talvez apenas removendo os culpados (que é necessário, mas não suficiente), o problema é ir à raiz e às estruturas que estão na origem do mal, o problema é "recuperar a profecia."

Parece que fica claro o que tenta dizer o Papa: nenhum silêncio e nenhuma fraqueza diante do escândalo, mas a conclusão de tudo não está na "tolerância zero", como ocorre com as coisas do mundo, a conclusão está na recuperação da profecia, em uma Igreja que volte a ser Igreja.

E aqui se percebe toda a ternura e a profundidade com a qual o Papa Francisco pensa a essa Igreja, a reconhece e fala com ela, como se fala com a amada.

Ele reconhece, justamente à Igreja de Chile, ter gerado muitos para a fé, ter lutado para defendê-la, ter combatido quando a dignidade de seus filhos não era respeitada ou era simplesmente negada.

Uma Igreja que soube não se colocar no centro, mas "nos momentos mais sombrios da vida de seu povo teve o vigor profético não só para levantar a voz, mas também para convocar para criar espaços de defesa de homens e mulheres sobre os quais o Senhor a havia encarregado de vigiar "sabendo perfeitamente que "não era possível proclamar o mandamento novo do amor sem promover mediante a justiça e a paz, o verdadeiro crescimento de cada pessoa". O período ao qual o papa se refere aqui é o da ditadura, e, portanto, a citação é de Paulo VI.

Mas, a abraçar toda a sua história, a verdadeira força da Igreja chilena, foi a misericórdia popular, que é "um dos maiores tesouros que o povo de Deus soube cultivar", com suas festas, suas danças, o sua música, suas roupas, transformando tantas localidades do país "em santuários da misericórdia popular, porque não são festas que ficam fechadas dentro do templo, mas conseguem cobri de festa toda a comunidade." E , portanto, é uma Igreja que aprendeu como a fé é transmitida apenas no dialeto, assim celebrando, cantando e dançando, "a paternidade, a providência, a presença constante e amorosa de Deus." Uma Igreja que está ao lado dos pobres, dos doentes, dos sem-teto, dos órfãos ...

Uma Igreja composta de muitos povos, capazes de promover as riquezas e a boa vida de cada um, como nos anos 1960 os bispos do Sul fizeram para o crescimento do povo Mapuche, com o qual há muito a aprender; uma Igreja profética, capaz de confessar (e aqui Francisco cita o cardeal Silva Henriquez de Santiago, que foi um dos faróis do Concílio) "que em nossa história pessoal e na história do Chile, houve injustiça, mentiras, ódio, culpa, indiferença"; de modo que o arcebispo convidava os outros pastores e fiéis a serem "sinceros, humildes e dizer ao Senhor, nós pecamos contra ti! Pecar contra nosso irmão, homem e mulher, é pecar contra Cristo, que morreu e ressuscitou por todos os homens. Sejamos sinceros, humildes! Eu pequei contra ti Senhor! Não obedeci ao teu Evangelho!". E acrescenta Francisco; "A consciência consciente de suas limitações e pecados faz com que viva em guarda contra a tentação de suplantar o seu Senhor."

E qual é o antídoto? O santo povo fiel de Deus, que por seu silêncio cotidiano de muitas formas testemunha que o Senhor não abandona, apoia e sofre com seus filhos. O santo e paciente povo de Deus, vivificado pelo Espírito, que é a mais bela face da Igreja profética que sabe como colocar ao centro o seu Senhor na labuta cotidiana. "Neste povo fiel e silencioso está o sistema imunitário da Igreja."

Assim imunizada, a Igreja poderá reencontrar a si mesma. Poderá afirmar sem ambiguidade que o discípulo nunca vai ser o Messias. Proteger-se, portanto, de toda forma de messianismo que pretenda erguer-se como a única intérprete da vontade de Deus. Não cair, como tantas vezes é possível, na tentação de um exercício eclesial da autoridade que pretenda se substituir às várias instâncias de comunhão e participação e, o que o pior, substituir-se à consciência dos fiéis, esquecendo o ensinamento conciliar segundo o qual "a consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, onde ele está sozinho com Deus, cuja voz ressoa no seu recesso mais íntimo" (GS n. 16, que cita um discurso radiofônico de Pio XII).

Os falsos messianismos, declara o Papa, com a pretensão de eliminar a eloquente verdade que a totalidade dos fiéis têm da unção do Espírito. Nunca um indivíduo ou um grupo privilegiado pode pretender ser a totalidade do povo de Deus e menos ainda considerar-se a voz autêntica de sua interpretação. É preciso estar atentos à "psicologia da elite" que pode insinuar-se em nossa maneira de abordar as questões. Ela produz dinâmica de divisão, de separação, círculos fechados que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias, nas quais, em vez de evangelizar, o que importa é se sentir especiais, diferentes dos outros, ressaltando que nem Jesus Cristo e nem os outros realmente interessam. Messianismo, elitismo e clericalismo são sinônimos de perversão do ser eclesial e também sinônimos de perversão - escreve o Papa - é a perda da sã consciência de saberem-se pertencentes ao santo povo de Deus que nos precede e, graças a Deus, vai nos suceder.

A consciência do limite nos salva da tentação e pretensão de ocupar todos os espaços e, sobretudo, um lugar que não nos pertence, aquele do Senhor. Só Deus é capaz da totalidade. "A nossa missão será sempre compartilhada. A consciência de ter chagas nos liberta, liberta-nos de nos tornarmos autorreferenciais, nos considerarmos superiores. Liberta-nos daquela tendência prometeica de quem, em última análise, confia apenas em suas próprias forças e se sente superior aos outros".

E a conclusão fulgurante da carta é: "Irmãos as ideias se discutem, as situações se discernem, estamos aqui reunidos para discernir, não para discutir."

Discernir, parece-nos que signifique abrir mão dos velhos hábitos, mover o olhar para o que será o futuro da Igreja e da própria religião no mundo.

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