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24 Maio 2018

Viagem ao mosteiro de Alqosh, perto de Nínive, que abriga o manuscrito original que atesta a tradição da Igreja siríaca. Tendo sobrevivido às guerras no Iraque e ao ISIS, conta uma história muito diferente daquela oficial.

O artigo é de Alberto Melloni, publicada por La Repubblica, 23-05-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Esta é a história de um manuscrito velho de 800 anos, que contém o tesouro da igreja siríaca, aquela igreja nunca aprendeu a pensar em termos da filosofia grega e que, com o seu sistema apostólico, culturalmente autônomo, criou um cristianismo a oriente do Oriente. Um manuscrito de há um século e meio, havia desaparecido de cena. Eu o encontrei lá, onde tinha passado a maior parte de sua vida. Em Alqosh, uma cidade na borda da planície de Nínive. Sobre sua montanha, Rabban Hormizd havia construído, no século VI, um mosteiro ainda hoje visitado por peregrinos que veneram a gruta com as argolas no teto, nas quais, segundo a tradição, o eremita amarrava a barba e os cabelos de modo a não adormecer e para cumprir o mandamento de orar sem parar.

Vista lá de cima, a partir da entrada dessas grutas, a planície de Nínive aparece em toda sua poderosa fertilidade: os campos verdes falam de uma prosperidade antiga e conflituosa, como se no vento quente tivesse permanecido o ruído dos carros dos grandes impérios assírios, o sinal dos símbolos religiosos, a poeira das civilizações jurídicas, o som da linguagem que se tornava escrita, a crueldade dos poderosos e a esperança de vingança do pobre de quem fala o profeta Naum, cujo túmulo se encontra em Alqosh.

Duas estradas, claramente visíveis, imprimem um viés atual à história dessa região, onde quem tiver menos de quarenta anos sempre viveu em guerra. A estrada grande é aquela que vai da Turquia a Zakho e de lá para Arbil e então desce até Bagdá: é a artéria dos suprimentos e comércio na encruzilhada do Curdistão. A outra pequena, perpendicular, desce de Alqosh para Mossul, atravessando uma série de vilarejos que viram o avanço das brigadas do Isis, que chegaram até Teleskof, a vinte quilômetros desse mosteiro controlado pelos peshmergas curdos.

O mosteiro de Alqosh testemunha quase quinze séculos de história do cristianismo sírio. De lá partiu, em 1551, o processo de união com Roma, que deu origem ao patriarcado sírio-católico que se estabeleceu em Amida. Sede dos patriarcas sírios ortodoxos por longo período, o mosteiro sofreu pilhagens violentas e sangrentas por parte dos paxás curdos. Mesmo depois que os caldeus fizeram renascer, graças a Gawriel Dambo, uma vida monástica no início do século XIX. A regra da ordem antoniana de Santa Ormisda dos Caldeus foi, de fato, aprovada pelo Papa Gregório XVI, em 1845, e a nova ordem instalou-se, em 1858, no mosteiro mais moderno construído no vale e dedicado a Nossa Senhora de Sementes: naquela época, no entanto, os assaltos da cidade de Soran e outras destruições já tinham ferido o patrimônio de arte e, principalmente, de manuscritos da tradição siríaca. Naquelas mesmas décadas, a Europa formava alguns especialistas em siríaco, uma língua semítica com caracteres e raízes semelhantes ao hebraico, praticada pelos povos que rezam em aramaico, a língua de Jesus e do Talmud. Entre estes estava Jean-Baptiste Chabot, padre de Tour de formação louvaniense e depois acadêmico na École Pratique de Paris. A ele havia se dirigido Louis Duchesne, o grande historiador do cristianismo primitivo, cuja obra no final do século XIX, foi acusada de "modernismo".

Duchesne pedia a Chabot uma edição ou, pelo menos, uma tradução dos textos da fundação da igreja siríaca - e não era um pedido de mera erudição.

As igrejas siríacas colocavam e colocam em crise o esquema binário que vê no cristianismo uma tradição ocidental (latina e, desta, protestante) e uma tradição oriental (ortodoxa e, mais tarde, russa). Os descendentes daqueles que justamente em Antioquia, pela primeira vez foram chamados "cristãos", dizem que havia um cristianismo sem império, orientado para culturas não greco-latinas, aliás, que floresceu ignorando-as ou rejeitando aquele "direito perpétuo e irrevogável" que Ratzinger credita adquirido pela cultura greco-helenística nos primeiros quatro séculos do cristianismo.

Duchesne, portanto, tinha boas razões para esperar por uma edição/tradução do Synodicon que contém a tradição canônica, conciliar e litúrgica dos primeiros sete séculos de cristianismo sírio. Esse tesouro estava em um manuscrito que permaneceu em Alqosh (NDS 60 e 169), e que ninguém podia ver.

Uma cópia (à mão) tinha sido feita pelo bispo caldeu de Mossul, Joseph David, que a havia levada a Roma em 1869, para o Museu Borgia, de onde foi transferida para a Biblioteca Apostólica Vaticana (BorSyr 81- 82 acessível on-line) .

Chabot estudou e transcreveu: pediu ao abade de Alqosh para ver o original, mas tudo o que conseguiu foi outra cópia que tinha ficado em Paris (BN 332). E a partir dessas duas fontes de segunda mão, em 1902, produziu uma edição crítica do Synodicon Oriental, a primeira fonte da história conciliar das igrejas colocadas fora do Império Bizantino, em desacordo com as definições de fé de Calcedônia, portadores de um dinamismo missionário que chegou a pregar o evangelho na China já no século VI.

O original nunca mais foi estudado.

Transferido para a segurança para Bagdá mudou de numeração, mas ninguém o viu até que o trabalho de edição crítica dos concílios das grandes igrejas (a série COGD promovida pela Fundação para as Ciências Religiosas) começou a procurá-lo. Mas por causa da guerra aquele manuscrito - agora identificado como Bagdá 509 - foi tirado da capital iraquiana e protegido do risco de ser "guardado" pelos exércitos de ocupação em 2006. Escolha providencial porque a área onde ele estava foi bombardeada pelos xiitas.

Mas, em Alqosh, onde o manuscrito havia retornado, desde 2014 pairava a ameaça do Isis: e o precioso manuscrito foi levado em segurança para Zakho.

Pois bem, terminada a guerra com o Isis foi arquivado em um lugar secreto, protegido pela confidencialidade dos monges que não queriam entregá-lo à questionável prática que, com a desculpa de "proteger" os manuscritos, na verdade, torna suas cópias digitais disponíveis no exterior, em grandes universidades que, com as melhores das intenções, se tornam cúmplices da espoliação de uma terra e de uma igreja.

Daquele depósito o manuscrito chegou até a mesa do abade que me permitiu ver e estudar esse item único.

Solene em suas dimensões. Ferido pelo tempo e pelas desventuras. Mas capaz de falar. Fala, de fato, o Bagdá 509 aos estudiosos que estão prestes a dar à série COGD a primeira verdadeira edição crítica integral do Synodicon.

Fala ao mosteiro que o preservou e salvou e que pretende dar uma casa segura a esse manuscrito de valor inestimável, e a outros que eu tive oportunidade de ver com intensa emoção. Fala e revela que, mais uma vez na pesquisa de nicho – aquela em que Tullio Gregory justamente lamenta a degradação causada pelo simplismo ‘engenharístico’ que devastou o sistema do saber - existem significados gerais e universais.

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