Imaginando o catolicismo no Metropolitan Museum of Art

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23 Mai 2018

Ainda que seja sempre importante considerar o ponto de vista da outra pessoa, prepare-se para fortes emoções ao visitar a exposição "Corpos Celestiais: moda e a imaginação católica", no Metropolitan Museum of Art de Nova York. É muito diferente de tudo o que você já viu.

O comentário é de Phyllis Zagano, pesquisadora da Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York, publicado por National Catholic Reporter, 22-05-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

#MetGala Co-Chair @BadGalRiRi stuns as she arrives on tonight's carpet. #MetHeavenlyBodies #Rihanna

Uma publicação compartilhada por The Met (@metmuseum) em

Você pode ter visto as fotos de várias celebridades no “Met Gala" - ao estilo "Melhor roupa de domingo". Entre elas estava a atriz Sarah Jessica Parker (que fazia a série "Sex and the City" e hoje estrela "Divorce"), num vestido lamê dourado e com um adorno lembrando um presépio na cabeça. A cantora Rihanna (cujas canções incluem "S&M" e "Love the Way You Lie") se vestiu de papa num minivestido de strass. Outras celebridades estavam no tapete vermelho em criações de vários estilistas, de Balenciaga a Versace.

A exposição do Costume Institute do Met, que está sendo produzido há três anos, complementa "Culturas femininas: igualdade e diferença", a tentativa de 2015 do Pontifício Conselho para a Cultura de investigar o "outro" feminino. Lembram do site do Conselho (já alterado) com uma foto da escultura de Man Ray de 1936 escultura "Venus Restaurada"? O Conselho ajudou o Costume Institute a obter objetos e vestimentas da Igreja.

Na minha opinião, existem muitos círculos de "alteridade" aqui. Para começar, todas as modelos, ao vivo no baile e de gesso no museu, são do sexo feminino. As vestimentas católicas são o foco: o Vaticano emprestou cerca de 40 peças da sacristia da Capela Sistina.

Portanto, tudo o que era sagrado era masculino e tudo o que era profano era feminino.

Não que cada vestido fosse mesmo horrível, mas a justaposição com peças de arte sacra em todo o museu mexe com a sensibilidade e aumenta as defesas dos cristãos. Por quê? Talvez porque, às vezes, os curadores demonstram sua abjeta falta de conhecimento sobre o simbolismo cristão e católico. Por exemplo, num vídeo, o curador Andrew Bolton chama de cruz um crucifixo. E quem disse que as vestes papais são brancas por causa da pureza obviamente nunca ouviu falar do Papa dominicano Pio V. Além disso, quem descreve "as vestes de Madonna" dizendo que Maria, mãe de Jesus, "era venerada como a noiva de Cristo"?

Erros como esses ofendem católicos com formação, mas há mais: a máscara bondage com crucifixos pendurados; a música de filme de terror no Great Hall, a entrada do Met; os hábitos estilizados e o traje clerical em manequins femininos alinhados são todos extras da história.

Quem é o "outro"? Eu gostaria de ver a exposição sendo exemplo de algo, mas não sei bem de quê. O Met diz que os estilistas foram influenciados por temas católicos e por arte, pela “imaginação católica" - dizendo que baseou o termo no falecido sociólogo padre Andrew Greeley, a quem considera teólogo.

Uma coisa é criar um projeto e outra é profanar uma imagem. Quero acreditar que nenhum dos envolvidos tinha a intenção de ofender, mas parece que foi o que todos conseguiram.

Até o comediante Stephen Colbert, que é ostensivamente católica e estava no baile, entrou no jogo. Recentemente, no seu programa de TV, ele duas observações "católicas" de mau gosto — uma sobre controle de natalidade e outra sobre masturbação — num bloco sobre as vestes e acessórios papais. Ele fez essas "piadas" sobre o pluvial e o báculo papal, dois exemplos requintados de arte sacra que foram e podem ir a ser usados em ritual.

Há muitos pontos em que se pode demarcar limites neste evento. Primeiro, as imagens sutis e não tão sutis de depreciação do feminino refletem-se no esplendor da da ostentação papal. As mulheres são tanto objeto e objetificadas; os homens são dominantes e dominadores. Em segundo lugar, o baile e as exposições ampliam a nítida divisão entre ricos e pobres, entre a nata da moda e a multidão. Em terceiro, o próprio museu está distanciando o cristianismo.

Este último ponto destaca-se pela metamorfose do sagrado para o profano. Considere a eliminação gradual dos cartões postais de arte sacra do museu. Eles se esgotaram e não foram repostos. Nos Cloisters, o Met exibe um relicário de cruz do século XII que ainda guarda relíquias. Agora a loja do Met está vendendo as Reliquary Cross Unisex Bomber Jackets, jaquetas que fazem alusão a este objeto (por US$ 148). Além disso, há a versão em colar, o "Brother Sun, Sister Moon" Rock Crystal Rosary Neckless (US$ 525). E não para por aí.

Quero ver tudo isso do ponto de vista do outro. Quero dizer que suas intenções não são ruins, mesmo que ultrapassem os gostos vanguardistas. Quero dizer que eles estão mergulhados no pseudointelectualismo. Quero dizer que só são insensíveis, ingênuos ou ignorantes.

Mas também quero encorajar o resto, os que foram ofendidos pela difamação das mulheres e o desrespeito ao sagrado, para não entrar neste último sequestro da religião. Você tem razão de se sentir ofendido. Tudo bem dizer que é tudo muito triste, e até brega. Porque é.

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