Um alerta para os teólogos liberais: a teologia acadêmica precisa da Igreja

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23 Mai 2018

"A ideia de que a teologia católica acadêmica pode prosperar ou mesmo sobreviver independentemente do que aconteça na e para a Igreja é uma ilusão", alerta Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Universidade de Villanova, e autor de Catholicism and Citizenship. Political Cultures of the Church in the Twenty-First Century (Liturgical Press, 2017), em artigo publicado por La Croix International, 19-05-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo. 

O distanciamento entre a teologia acadêmica e a Igreja institucional é uma razão pela qual muitos católicos mais jovens têm procurado círculos neotradicionalistas para obter formação.

A nova geração está reavaliando o que aconteceu na Igreja desde os anos 60 e reagindo contra a teologia que surgiu a partir do Concílio Vaticano II.

Alguns jovens católicos também estão questionando a legitimidade do estado secular e pluralista. É por isso que as preocupações da teologia acadêmica não são mais meramente acadêmicas.

Quem tem contato com jovens católicos — os universitários, por exemplo — deve ter notado que este antiliberalismo teológico não vem apenas de um pequeno grupo de intelectuais com pouca representação. O antliberalismo católico é parte de um fenômeno mais amplo, uma nova busca de identidade católica que assume várias formas.

Pode ser expresso como um entusiasmo pela Missa Tridentina e uma aversão ao Novus ordo, ou pode assumir a forma de um interesse em comunidades contraculturais — em uma versão da "Opção Beneditina".

Mas também pode ser como uma imaginação teológica e política que rejeita a democracia liberal, em favor de uma nova cristandade. Misturada com esse ideal muitas vezes está uma suspeita daqueles cujas regiões não representam uma maioria cristã.
Esta ascensão do antiliberalismo católico marca uma regressão na capacidade dos católicos de entender o problema do Estado e da política atual. Mas também diz respeito ao estado da teologia católica, principalmente nos Estados Unidos.

Acredito que o destino da teologia católica no mundo ocidental seja inseparável do destino de teologia acadêmica. Para sobreviver e prosperar, a teologia precisa das universidades, das editoras e das revistas científicas. É possível imaginar a Igreja sobrevivendo intelectualmente sem a teologia acadêmica, mas acho que seria lamentável para ela.

Principalmente no sistema dos EUA, no qual há não uma Igreja estabelecida constitucionalmente, e a teologia acadêmica faz parte de uma instituição católica religiosa e eclesiástica. Mas não podemos pensar que as instituições que apoiam a teologia acadêmica vão durar para sempre. E para que a teologia católica acadêmica seja saudável, não podemos depender totalmente de poucas grandes instituições como as universidades Notre Dame e Georgetown; também são necessárias as várias faculdades católicas menores, muitas das quais estão lutando para permanecer abertas.

A onda atual antiliberalismo nos diz algo sobre o que aconteceu com os departamentos de teologia e estudos religiosos católicos liberais nos últimos anos. Como membro do corpo docente do departamento de teologia e estudos religiosos da Universidade de Villanova, achei muito significativo o que o arcebispo Charles Chaput tinha a dizer depois de sua palestra aqui.

Alguém perguntou a ele sobre o papel da constituição apostólica de João Paulo II, Ex Corde Ecclesiae (1990), sobre as universidades católicas hoje. Ele respondeu que o documento, emitido pelos Bispos dos Estados Unidos em 1999 para implementar Ex Corde, "não tinha poder suficiente". Foi um reconhecimento extremamente franco do estranhamento entre teólogos católicos e a Igreja.

O que aconteceu nos anos entre a declaração de Land O’Lakes (1967) e a implementação de Ex Corde Ecclesiae emancipou a teologia do controle eclesiástico, mas também emancipou a Igreja Católica da teologia acadêmica.

Houve um rompimento entre bispos e teólogos no final dos anos 70 e início dos anos 80 com a teologia da sexualidade. Em 1979 uma carta da Congregação para a Doutrina da Fé criticava o estudo Human Sexuality: New Directions in American Catholic Thought (Sexualidade humana: novos rumos no pensamento católico Americano), encomendado pela Catholic Theological Society of America, a Sociedade Americana Católica de Teologia, e editado por Anthony Kosnik.

Bernard Law, nomeado arcebispo de Boston em 1984, criticou publicamente a iniciativa do Common Ground do cardeal Joseph Bernardin, um esforço para construir pontes entre os diferentes elementos da Igreja dos EUA, incluindo teólogos acadêmicos. Depois, houve a polêmica sobre o novo catecismo entre meados dos anos 80 e 1992.

Muitos teólogos temiam a redução de seu trabalho acadêmico crítico à catequese; alguns também ficaram preocupados que o catecismo estivesse anulando os ensinamentos do Vaticano II “forçando-os a entrar em moldes conservadores”. Todos esses desenvolvimentos levaram a mais separação entre a teologia acadêmica e a hierarquia.

Hoje, os poucos teólogos católicos que trabalham na academia também aconselham o bispo local ou ajudam a Conferência Episcopal a elaborar suas declarações.

O trabalho dos teólogos católicos tornou-se cada vez menos importante para muitos líderes católicos (bispos, intelectuais públicos, grandes doadores), que voltaram sua atenção para iniciativas que abordassem as "guerras culturais". Mas mesmo para além da ideologia, houve uma verdadeira virada da teologia católica contemporânea em direção à cultura católica.

Isso significa que muitos estudantes católicos nos Estados Unidos não aprenderam sobre o catolicismo com professores de teologia, mas com católicos professores de literatura, artes, história e política. Esses estudantes provavelmente não entendem a importância e a coerência do pensamento teológico como tal. A influência da tradição intelectual católica em todas as disciplinas, não apenas em teologia, foi um dos temas de Ex Corde Ecclesiae.

Mas, para muitos, significava que era possível ter uma educação católica sem estudar muito — ou mesmo sem estudar nada — da teologia católica atual. Por causa da separação entre esquerda e direita que se intensificou no pontificado de João Paulo II, muitos católicos, inclusive intelectuais e até mesmo acadêmicos, consideravam a teologia uma disciplina corrompida pela "opinião liberal".

Intelectuais católicos nas áreas da literatura, da arte, da história, etc., conseguiam ensinar estudos católicos que enfocam nos altos ideais culturais do cristianismo ocidental e em grande medida ignoram ou rejeitam a teologia pós-conciliar.

Portanto, alguns dos mais proeminentes jovens observadores das atualidades católicas têm pouca formação teológica formal, embora saibam muito sobre outros elementos da tradição intelectual católica.

E numa virada perversa, justo quando muitas universidades e faculdades católicas ficaram livres da interferência episcopal, renderam-se com alegria à influência de doadores corporativos, que estavam ansiosos para financiar projetos conservadores nos campi católicos — projetos que frequentemente combinam tradicionalismo teológico e ideologia econômica neoliberal ou libertária.

Este fenômeno deve servir de alerta para os teólogos católicos dos EUA, porque a longo prazo vai ameaçar a vitalidade intelectual, se não a sobrevivência, da teologia acadêmica em escolas e universidades católicas. Teólogos e especialistas em estudos religiosos enfrentam pelo menos dois problemas ao lecionar numa universidade católica considerando o momento católico atual.

O primeiro diz respeito ao cânone. Existe um cânone sobre a teologia católica acadêmica nos Estados Unidos ou agora temos tantos cânones que sua própria ideia se perdeu? Tendo em conta que a teologia católica nos Estados Unidos está sendo deslocada por outras vozes que afirmam representar a cultura católica, será que os teólogos deveriam entender melhor o que a teologia deve incluir numa universidade católica?

Os estudantes e professores tradicionalistas que rejeitam ou ignoram a teologia pós-conciliar certamente têm algum cânone bem-definido, estruturado em partes pela rejeição ao Concílio Vaticano II e à teologia pós-Vaticano II. Mas não sei se os próprios teólogos pós-Vaticano II têm um cânone.

Seus currículos geralmente são um meio termo entre o que eles querem ensinar (porque faz parte de seus projetos de pesquisa) e o que os alunos querem aprender (a credibilidade dos departamentos de teologia depende em partes de sua capacidade de agregar um número suficiente de alunos no curso).

Muitos departamentos de teologia tentam se manter "relevantes" oferecendo cursos que temo que tornem a teologia menos relevante em longo prazo. A ansiedade pela relevância significa que a teologia católica está reduzida a doutrina social católica.

Ao mesmo tempo, a irrelevância crescente da teologia acadêmica deve-se ao fato de que por muito tempo os teólogos católicos na linha do aggiornamento pensavam que essa teologia não precisava ser defendida por ser óbvia.

O resultado é que hoje muitos dos estudantes católicos conservadores fazem a graduação em "Estudos Católicos" e muitos dos progressistas fazem em estudos da paz e da justiça.

O segundo problema é o que eu chamaria de falta de compromisso eclesiástico — ou seja, falta de consciência de que o lugar do complexo acadêmico católico também é dentro da Igreja, mesmo que sua integridade exija certa independência intelectual. Eles precisam da Igreja tanto quanto a Igreja precisa deles.

Hoje, grande parte dos membros da hierarquia não estudaram em universidades seculares, e poucos teólogos leigos tiveram a mesma formação teológica que os bispos. Não é surpreendente que eles se sentem alienados uns dos outros. Mas a Igreja institucional tem uma capacidade de resistência às vicissitudes da história que as universidades católicas provavelmente não têm se atuarem sozinhas.

Por exemplo, a Igreja institucional pode ignorar as forças de mercado de uma maneira que as universidades não podem. Reintegrar a teologia acadêmica ao resto da Igreja torna-se complicado pela escolha — acertada, que não deve mudar — de tornar os departamentos católicos de teologia e estudos religiosos mais diversificados com a contratação de professores não católicos.

Mas o compromisso eclesiástico no sentido que tenho em mente não se trata apenas de adesão à Igreja.

No mínimo, os teólogos e professores de estudos religiosos devem ter mais consciência do seu dever de responder às perguntas dos estudantes católicos tradicionalistas ou conservadores para as quais muitas vezes não têm resposta nos departamentos de teologia liberal progressista.

Em geral, teólogos e professores de estudos religiosos optam por ignorar as grandes mudanças que estão acontecendo na política da Igreja e nas relações entre a Igreja institucional e a educação superior católica.

Acredito que os teólogos católicos liberais precisam oferecer uma alternativa à visão neotradicionalista atual da tradição católica. Mas para isso precisamos considerar a dimensão eclesiástica do que fazemos.

A ideia de que a teologia católica acadêmica pode prosperar ou mesmo sobreviver independentemente do que aconteça na e para a Igreja é uma ilusão.

Nota da IHU On-Line: Massimo Faggioli está no Brasil, a convite do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, participando do  XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, que segue com atividades até quinta-feira, 24-05. Nesta terça-feira, 22-05, ele proferiu a conferência O Papa Francisco na história papal do século passado e a periodização do seu pontificado, que pode ser vista a seguir, na íntegra. Faggioli fará nova palestra nesta quarta, 23-05, sob o tema A universalidade e o (não)lugar político da Igreja no mundo de hoje, às 11h, na Unisinos Porto Alegre. 

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