Pentecostes: a unidade na diversidade

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21 Maio 2018

"Não podemos deixar cair o trabalho pelo ecumenismo e pelo debate inter-religioso mais amplo", escreve Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo.

Eis o artigo. 

Cinquenta dias depois da Páscoa, os discípulos e as discípulas estavam reunidos em Jerusalém e sobre eles/elas baixou o Espírito. Ao sair do cenáculo encontraram ”partos, medos e elamitas; habitantes da Mesototâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia próximas de Cirene; romanos que aqui residem: judeus e prosélitos, cretences e árabes: nós os ouvimos falar das maravilhas de Deus em nossas próprias línguas”. Ali nasciam as comunidades cristãs, unas na diversidade.

A história levou a rupturas, com o surgimento de inúmeras Igrejas cristãs, tantas vezes em escandalosos conflitos. Um movimento ecumênico, no século XX, que vinha de mais atrás, avançou, com dificuldades, num caminho em busca da unidade perdida. Já nos anos 30, lord Halifax, católico anglicano, confidenciara ao leigo católico romano Jean Guitton: “Se quiséssemos profundamente, uns e outros, a união dos cristãos não estaria longe... sabe qual o meu sonho? Sabe para que rezo? ... Eu queria que o arcebispo de Cantuária e o Santo Padre pudessem um dia se encontrar em Roma, face a face, a sós. De boa vontade daria por isso os dias que me restam.[i]

Assinalamos alguns momentos, vistos a partir da Igreja de Roma.

Em dezembro de 1960, João XXIII quis encontrar Geoffrey Fisher, primaz da Igreja Anglicana, arcebispo da Cantuária. Foi tal a pressão negativa da cúria que a visita foi considerada “de cortesia”, sem fotos. Já em 1966, depois do Concílio, o novo primaz, Arthur Ramsey, encontrou Paulo VI em visita oficial. Em 5 de outubro de 2016, Francisco e o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, celebraram em Roma os 50 anos de esforço comum pela unidade.

Outro foi o caminho para superar o antigo cisma do século X entre oriente e ocidente. Em 5 de janeiro de 1964, Paulo VI, da Igreja de Pedro, encontrou, em Jerusalém, o Patriarca Ecumênico Ortodoxo de Constantinopla, Atenágoras, da Igreja de André. Como indicou este último, “Igrejas irmãs, povos fraternos”. Atenágoras vivia no Fanar, em Istambul, uma pequena comunidade no periférico e humilde bairro grego. Em 25 de maio de 2014, Francisco e o novo patriarca, Bartolomeu, se encontraram em Jerusalém, na Igreja do Santo Sepulcro. Depois, novamente em 30 de novembro, em Istambul, na antiga mesquita Hagia Sophia, hoje museu. Vários e cálidos foram os encontros entre eles no Egito e em Lesbos, recebendo refugiados. Há vários anos, em visitas anuais, uma delegação de Roma vai ao Fanar para a celebração de André e outra deste último a Roma, para a festa de Pedro e Paulo.

Em 15 de fevereiro de 2016, Francisco e Kiril, patriarca de Moscou e de todas as Rússias, se encontraram rapidamente no aeroporto de Havana, “território neutro”.

Em 31 de outubro de 2016, Francisco e luteranos fizeram uma comemoração ecumênica em Lund, na Suécia, pelos 500 anos da Reforma.

E dia 21 de junho de 2018, em poucos dias mais, Francisco visitará o Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, considerado por este último, como “um presente para todas as Igrejas”.

Esse processo ecumênico se foi fazendo através de experiências concretas. Por instigação de Pio XI, foi criado em Amay um mosteiro beneditino depois transferido para Chévetogne, dedicado ao ecumenismo. O mosteiro ecumênico de Taizé é um sinal concreto de uma prática na busca da unidade.

Em janeiro de 1959, ao anunciar o concílio, João XXIII falou nessa busca de unidade. Essa orientação foi abandonada nos trabalhos do Vaticano II. Dois concílios anteriores procuraram a unidade, o II de Lião (1272) e o de Florença (1438). Ambos fracassaram nesse objetivo. O patriarca melquita católico Máximo IV Saigh sonhava em 1960, antes do Vaticano II: “O concílio deve ser... um segundo Pentecostes. Houve o inesperado em Pentecostes. Não esperamos nada menos do concílio do que uma recriação de nossa mentalidade cristã”. Isso se deu num vivo diálogo com Giorgio La Pira, leigo católico, prefeito de Florença. Este indicou que muitos “querem defender o papa contra seu coração bondoso... devemos sustentar o papa”[ii]. .Este declarara em novembro de 1960: “A Igreja não é um museu de arqueologia”. Porém a Igreja romana não estava preparada. No concílio vieram apenas observadores de outras Igrejas cristãs.

Num sermão que ouvi domingo, o sacerdote anunciava solene que em Pentecostes nascera a Igreja Católica Apostólica Romana... Para ele a diversidade se dava entre diferentes congregações religiosas e pastorais, dentro do espaço eclesiástico amuralhado.

Um documento da Congregação da Doutrina da Fé, divulgado em 9 de setembro de 2007 por Bento XVI, afirmava que a Igreja romana é a única Igreja de Cristo. Isso levaria a crer que ela deteria a propriedade privada da verdade. Um velho axioma que caíra em desuso afirmava: “Fora da Igreja (católica romana) não há salvação”. Muitos gostariam de recriar um novo gueto católico romano. O clima mudou com Francisco. Como pedia La Pira para João XXIII, hoje temos de defender o papa diante de tendências integristas e anti-ecumênicas. Eu afirmava em texto de 2008: “Se me perguntarem o que sou, responderei: ’Sou cristão, membro de uma das várias denominações cristãs, que deveriam e deverão buscar a unidade’. Um bispo brasileiro declarou-se ‘bispo cristão de denominação católico-romana’”. Não podemos deixar cair o trabalho pelo ecumenismo e pelo debate inter-religioso mais amplo. E o título do capítulo, na obra citada é significativo: “Simplesmente cristão”[iii].

Notas:

[i] Informations Catholiques Internationales, ICI, 15/1/1961.

[ii] ICI, 15/7/1960.

[iii] LAGS,”Uma fé exigente, uma política realista”, Rio de Janeiro, EDUCAM,2008.

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