Papa Francisco e cardeal Marx têm visões divergentes sobre o marxismo

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09 Maio 2018

Normalmente, o Papa Francisco e o cardeal alemão de Munique, Reinhard Marx, são considerados aliados. Recentemente, no entanto, os dois deram visões divergentes sobre o legado de um dos movimentos sociais e políticos mais influentes do mundo moderno - ironicamente, sobre o "marxismo".

Enquanto o cardeal bávaro disse em uma entrevista que o pai do comunismo "inequivocamente" havia influenciado a doutrina social católica, Francisco escreveu no prefácio de uma coleção de textos do papa emérito Bento XVI sobre religião e política que o marxismo está equivocado ao negar que a humanidade depende de Deus.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 08-05-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O livro sobre os escritos de Bento XVI, intitulado Liberare la libertà – Fede e politica nel terzo millennio, será lançado em italiano na sexta-feira, em uma apresentação no Senado de Roma. No lançamento do livro estarão presentes o secretário pessoal do papa emérito, o arcebispo Georg Gänswein, e o Presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani.

O prefácio foi publicado antes do lançamento, no domingo, pelo jornal italiano La Stampa.

Citando um dos textos de Bento XVI que está no livro, Francisco diz que o estado "não é a totalidade" e que a exigência de ser "o totum das possibilidades e esperanças humanas", como fez o Estado romano, engessa e empobrece a humanidade.

"Com [esta] mentira totalitária, [o Estado romano] tornou-se demoníaco e tirânico", escreveu o papa emérito no texto citado por Francisco.

É nessa base, segundo Francisco, que o então cardeal Joseph Ratzinger - que mais tarde seria Bento XVI - ao lado de São João Paulo II, elaborou e propôs "uma visão cristã dos direitos humanos capazes de questionar em nível teórico e prático a afirmação totalitária do Estado marxista e a ideologia ateísta na qual foi baseado".

Em um texto sem nome dos anos 70, que, de acordo com o Papa Francisco, mostra "uma profundidade teológica... adequada a um autêntico pastor", Ratzinger contrasta o marxismo e o cristianismo ao observar a opção preferencial do cristianismo aos pobres.

"Temos de aprender - mais uma vez, não apenas em nível teórico, mas na forma de pensar e agir - que ao lado da presença real de Jesus na Igreja e no Sacramento, existe essa outra presença real de Jesus nos pequenos, na crueza deste mundo e também nas pessoas em que ele quer que o encontremos", escreveu Ratzinger no texto citado por Francisco.

O profundo contraste entre o cristianismo e marxismo, segundo Ratzinger, é demonstrado na diferença abismal na forma como a redenção deve acontecer: "A redenção ocorre através da libertação de toda a dependência, ou é a única forma de libertação, a dependência completa do amor, que depois também seria a verdadeira liberdade"?

Em 30 anos, escreveu Francisco, Ratzinger "nos acompanha no caminho à compreensão do nosso presente", observando que hoje, mais do que nunca, a humanidade continua tentada a recusar "qualquer dependência do amor que não seja o amor de uma pessoa a seu ego".

Tal dependência do "eu e seus desejos", escreve o pontífice, leva ao perigo da "colonização" das consciências por uma ideologia que nega a certeza básica de que a humanidade existe como masculino e feminino, a quem é atribuída a tarefa de transmissão da vida".

Esta ideologia, conforme o prefácio escrito por Francisco ao livro de Bento XVI, chega a "planejar e produzir racionalmente" seres humanos e considera "lógico e lícito" eliminar o que não é mais considerado "criado, doado, concebido e gerado, mas feito por nós mesmos".

A melhor maneira de defender a humanidade a partir dessas reduções ideológicas, afirma, é colocar a obediência a Deus como o limite de obediência ao Estado.

Na mesma época, o cardeal Marx disse que o pai do comunismo pode ser "muito útil" à luz das revoluções e guerras atuais.

"Sem a participação material, os direitos humanos permanecem incompletos", Marx disse ao Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung. "Sem ele [Karl Marx], não haveria qualquer doutrina social católica", disse o cardeal, afirmando também que o sociólogo não é responsável por crimes cometidos em seu nome.

O religioso também declarou que sempre foi fascinado pelos textos do seu homônimo e que, em sua opinião, a doutrina social da Igreja deve reconhecimento à de Marx.

"Devemos muito a Karl Marx", afirmou, citando o teólogo jesuíta Oswald von Nell-Breuning. "Isso não significa que ele é um dos santos padres da Igreja. Mas sua posição sempre foi um ponto de discussão".

De qualquer forma, disse, "nós não deveríamos ter permitido que o capitalismo desenfreado nos roubasse a bandeira da justiça aos trabalhadores e de solidariedade aos que sofrem”.

"Historicamente [não se pode] separar um pensador do que foi feito em seu nome pelos outros", observou, de acordo com o jornal do Vaticano, o L'Osservatore Romano, que publicou um artigo no dia 5 de maio com algumas palavras do cardeal, intitulado “Marx na contraluz” [Marx in controluce]. "Também é verdade que ele não deve ser responsabilizado por tudo o que se fez devido a suas teorias, até os gulags de Stalin".

Marx deu duas entrevistas, uma para o Frankfurter e outra para o Rheinische Post. Em ambos os jornais, o conteúdo era semelhante, às vésperas do 200º aniversário de nascimento do autor do Manifesto Comunista, em 5 de maio de 1818.

Sobre o manifesto escrito por um homem que, segundo o jornal do Vaticano, era "um dos críticos mais ferrenhos da Igreja e dos padres", o cardeal reconheceu que ficou "impressionado".

De acordo com o cardeal, agora que o "socialismo real" acabou na Europa, é possível "ter um olhar mais imparcial à sua filosofia", pois ele é um pensador que "contribuiu para estruturar a nossa história" mesmo que num "sentido negativo".

Marx, que foi nomeado cardeal por Bento XVI, também lembrou a história que São João Paulo II contou para brincar dizendo que era o “nostro marxista”.

Entre outras coisas, o cardeal destacou que Karl Marx foi um "analista perspicaz do capitalismo" e que hoje seu impacto ecológico e político ficou visível: "o que é tecnicamente possível pode ser feito" e "o que gera receita não deve enfrentar obstáculos".

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