A negação da morte é "um retrocesso civilizacional"

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08 Maio 2018

Quando as pessoas estão a morrer, querem sobretudo ter conforto, querem sofrer o menos possível, afirma António Maia Gonçalves, no livro Reanimar — Histórias de Bioética em Cuidados Intensivos.

A entrevista é de Alexandra Campos, publicada por Público, 05-05-2018.

Muitas pessoas morrem nos lares, cada vez mais se morre em instituições "e é importante garantir que esses fins de vida ocorrem com dignidade", diz o médico Maia Gonçalves.

Eis a entrevista.

Na Antiguidade, recorda no livro, prevalecia um sentimento de familiaridade com a morte, enquanto hoje, nesta “sociedade altamente tecnológica”, a morte passou a ser um tema a evitar.

Atualmente, há uma cultura voltada para o sucesso e a morte é vista como um insucesso, tenta-se esconder, negar. Mas, tal como a doença, a morte faz parte da vida. Desse ponto de vista, houve um retrocesso civilizacional. A morte é uma coisa natural. Mesmo uma criança, [quando lhe morre alguém próximo], deve ir ao funeral para poder fazer o luto.

Recorda o caso do seu pai, que morreu em casa ao lado dos familiares, o que hoje é cada vez mais raro — a maior parte das pessoas morrem nos hospitais. Acha que é possível inverter esta tendência?

Acho que este é um ônus que não devemos pôr nas famílias. É preciso abdicar de muita coisa para se conseguir proporcionar isso [a morte em casa a um familiar]. Temos é de adaptar os cuidados prestados à realidade demográfica e isso passa por cuidados paliativos, pelo apoio domiciliário, que, em termos de investimento, implica muito menores custos do que o internamento hospitalar. O que não faz sentido é termos dado a possibilidade às pessoas de terem grande longevidade e, depois, as respostas que temos para oferecer sejam apenas a oportunidade de se matarem. Quando as pessoas estão a morrer, querem sobretudo ter conforto, querem sofrer o menos possível.

Lembra também que hoje há muitas pessoas que morrem nos lares de idosos. Como morrem estas pessoas?

A realidade laboral e social atual muitas vezes faz com que as pessoas não tenham condições para ter as pessoas em casa. Muitas pessoas morrem nos lares, cada vez mais se morre em instituições e é importante garantir que esses fins de vida ocorrem com dignidade. Ainda sou do tempo de velar os corpos em casa, mas é preciso ter condições para proporcionar isso e necessário que haja vontade política para as criar. Poder cuidar em casa sempre que possível, poder morrer em casa são direitos que devíamos dar a todos. Agora, não se pode mandar as pessoas para casa e depois não ter médico e enfermeiro que vão lá dar o apoio necessário.

Diz que não mente aos doentes, mas também afirma que não se deve tirar-lhes a esperança.

Se tenho um doente de 88 anos, acamado, por que lhe hei-de dizer que vai morrer? É uma crueldade. Agora, se ele me confrontar com a pergunta, tenho que lhe responder. Seja como for, a família está sempre informada. Quando têm um diagnóstico de doença terminal com prognóstico limitado, as pessoas têm necessidade de se despedir, de tratar de questões pendentes, questões burocráticas, legais, financeiras, por isso o médico tem a obrigação de transmitir a verdade, mas deve dar-lhes sempre um caminho, alguma segurança, não lhes tirar o chão.

Isso parece ser muito complicado.

É duro. A prática clínica tem vindo a ser adaptada à evolução demográfica. Há 30 anos não reanimar era uma coisa impensável, um doente estava agônico e ainda se fazia mais radioterapia, mas agora há cada vez menos futilidade terapêutica. Hoje, a boa prática é não reanimar numa situação irreversível, é dar cuidados de conforto.

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