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25 Abril 2018

No sexto ano de seu pontificado, Francisco encontra-se em um cenário internacional que é muito menos favorável à tradicional linha da Santa Sé e à estratégia profética e geopolítica do papa argentino do que no momento de sua posse.

A reportagem é de Marco Politi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 24-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As mudanças mais estridentes e que causam mais problemas à tradicional política vaticana dizem respeito ao Ocidente, à Europa e à Terra Santa. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Santa Sé e Washington estão em lados opostos em relação a questões fundamentais.

Para além da cortesia diplomática e da vontade de manter boas relações, Bergoglio e Trump estão em uma sintonia totalmente diferente.

Por outro lado, ainda na longa fase anterior às eleições presidenciais estadunidenses, o papa argentino havia farejado o perigo e – fato incomum para a Santa Sé – tinha intervindo por nada menos do que duas vezes na campanha eleitoral. Uma primeira vez, ao receber por poucos minutos em Santa Marta o candidato Bernie Sanders – poucos minutos, mas suficientes para mostrar um favor em relação ao político estadunidense mais próximo das concepções do Estado social de molde europeu e mais distante da direita trumpiana do liberalismo selvagem e do fundamentalismo – e uma segunda vez ao atacar Trump diretamente sobre a questão do muro entre o México e os Estados Unidos.

Isso tinha acontecido em fevereiro 2016 em uma conversa com os jornalistas na volta da viagem ao México: “Quem só pensa em fazer muros e não pontes não é cristão. Isso não está no Evangelho. Votar ou não votar nele (em Trump)? Eu apenas digo que, se ele falou assim, esse homem não é cristão”.

A partir do momento em que o novo presidente dos Estados Unidos tomou posse, foram nada menos do que três as decisões políticas internacionais que colocaram Washington em uma linha oposta à vaticana. A retirada dos Acordos de Paris sobre o clima. A retirada do acordo da ONU sobre a proteção dos migrantes e refugiados, o chamado Global Compact on Migration. A retirada da Unesco sob o pretexto de que haveria “persistentes preconceitos anti-Israel”.

O último ponto chega ao coração da política do Oriente Médio, porque Trump, em dezembro de 2017, também decidiu mudar a embaixada estadunidense de Tel Aviv para Jerusalém, invertendo a política anterior de todos os presidentes estadunidenses e mandando para os ares os Acordos de Oslo que deviam encerrar o conflito israelense-palestino.

Para a Santa Sé, credenciar que toda Jerusalém (não apenas a parte Oeste israelense, mas também a parte Leste árabe) seja a capital de Israel significa sabotar toda solução equitativa: tanto a de Jerusalém com um status internacional especial como capital das três religiões, quanto a de Jerusalém como sede das capitais de Israel e da Palestina (a parte ocidental para uns, a parte oriental para outros).

O Vaticano e Francisco não têm a mínima intenção de abrir um conflito com Israel para não abrir as feridas da história conturbada das relações da Igreja Católica com o judaísmo e das culpas de antijudaísmo do qual a história cristã está repleta.

Mas a cautela diplomática não significa que no Vaticano não haja um alerta em relação à política de sistemática anexação e ocupação que o governo da direita nacionalista e fundamentalista leva em frente, engolindo ano após ano territórios que pertencem à Palestina, com o objetivo muito claro de impor o fato realizado.

Divididos por opiniões diferentes sobre as reformas de Francisco, os membros da Cúria convergem, no entanto, no julgamento que emerge da visão delineada recentemente pelo escritor israelense David Grossman, quando denunciou: “Quando Israel oprime outro povo por 51 anos, e ocupa suas terras, e põe de pé uma realidade de apartheid nos territórios ocupados, eis que ele se torna muito menos do que uma casa...”.

Também preocupa Francisco e a Secretaria de Estado a frenética campanha que o primeiro-ministro israelense, Netanyahu, promove contra o Irã, incitando os Estados Unidos a atacar Teerã (alavancando também a Arábia Saudita e seus projetos de hegemonia). Não foi esquecida no Vaticano a campanha igualmente frenética que, na época, os governantes israelenses lançaram para pressionar Bush Jr. a invadir o Iraque. Uma guerra infeliz que o Papa Wojtyla condenou e tentou combater de todos os modos. Já incumbe no cenário internacional a (aparentemente iminente) escolha de Trump de romper o acordo nuclear com Teerã.

Ainda no Oriente Médio, a grande preocupação do papa é a falta de colaboração entre as grandes potências (EUA e URSS, em particular) para gerir a crise síria. Bergoglio repetiu isso em todos os lugares, de Leste a Oeste: não é com a política das esferas de influência que se traz a paz novamente para a Síria. Praticar políticas de poder só prolonga o rastro dos mortos e o sofrimento dos sobreviventes.

Mas o cenário europeu também preocupa Francisco fortemente. A proclamação dos “países nórdicos” que querem impedir um fortalecimento da União Europeia. O bloco dos quatro países de Vysegrad (Polônia, República Tcheca, Hungria, Eslovênia) ao qual se soma a Áustria: compactos na defesa de uma agressiva política “fora aos migrantes”, compartilhada pelo líder da centro-direita italiana, Matteo Salvini.

E não falta, nessa coroa de espinhos para a profecia de Francisco, a constatação de que a direita nacionalista e integralista polonesa foi capaz de mobilizar (em outubro de 2017) um milhão de manifestantes, que enalteceram a Polônia católica, formando uma “corrente do rosário” de 3.500 quilômetros de comprimento nas fronteiras polonesas: em um delírio fundamentalista, que colocou terrorismo, secularização, Islã e migrantes em um único caldeirão, como males a serem combatidos.

É frio o vento que sopra em torno da geopolítica vaticana neste pedaço de época. E a lista pode continuar. A Turquia, onde reside o patriarcado ecumênico ortodoxo, torna-se cada vez mais repressiva. E a China não quer aceitar um acordo que, pelo menos parcialmente, deixe o papa livre para escolher seus bispos.

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