Em novo livro, ex-lideranças das irmãs religiosas americanas refletem sobre os anos de investigação vaticana

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18 Abril 2018

Em um livro recém-publicado, ex-presidentes da LCWR (Conferência de Lideranças das Mulheres Religiosas, na sigla em inglês), membros da equipe executiva da organização e membros de um grupo de apoio leigo refletem sobre a avaliação doutrinal do Vaticano.

A reportagem é de Gail DeGeorge, publicada por National Catholic Reporter, 16-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Milhares de católicos dos Estados Unidos se reuniram para apoiar a LCWR quando ela foi investigada pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, de 2009 a 2015. Em 2012, a congregação doutrinária exigiu reformas que desafiaram a organização, cujos membros são lideranças de cerca de 80% das congregações religiosas femininas do país, e tiveram implicações mais amplas para os leigos e o papel das mulheres dentro da Igreja.

Em um livro recém-lançado, ex-presidentes da LCWR, membros da equipe executiva da organização e membros de um grupo de apoio leigo compartilham suas experiências e intuições sobre esse momento crítico de sua história.

However Long the Night: Making Meaning in a Time of Crisis. A Spiritual Journey of the Leadership Conference of Women Religious (LCWR) [Por mais longa que seja a noite: fazendo sentido em um tempo de crise. A jornada espiritual da LCWR] conta como as irmãs dirigiram a organização ao longo da avaliação doutrinal até uma resolução amigável com o Vaticano em abril de 2015. Os 10 artigos detalham abordagens e práticas usadas, como o discernimento comunitário, a construção de relacionamentos, um compromisso com a não violência, lições de humildade, métodos de governança adotados pelas congregações após o Concílio Vaticano II e muita oração.

(Foto: Divulgação)

O capítulo final, escrito por três membros do grupo Solidarity with Sisters [Solidariedade com as Irmãs], formado por membros do laicato para apoiar as irmãs em 2012, transmite o que eles aprenderam com as irmãs ao passar de uma reação “imersa em nossa cultura da confrontação” para a “descoberta de outro jeito de ser”.

Não se trata de “revelações de bastidores”, mas sim de um “produto de reflexão ao longo do tempo”, escreve a Ir. Janet Mock, das Irmãs de São José, diretora executiva da LCWR de 2011 a 2014, e a Ir. Annmarie Sanders, das Irmãs do Sagrado Coração de Maria, diretora de comunicação.

A gênese do livro foi um desejo de “fornecer uma base espiritual, informações úteis e talvez alguma inspiração e esperança” para aqueles que trabalham em conflitos, confrontos ou impasses em contextos pessoais, profissionais ou organizacionais, escrevem Mock e Sanders. Cada capítulo inclui questões para reflexão e diálogo. Um guia passo-a-passo para um discernimento comunitário de 90 minutos está incluído como apêndice.

As lideranças da LCWR, inicialmente, não tinham certeza se escreveriam tal livro, disse Sanders. Em um encontro em dezembro de 2015, a ideia foi discutida, mas nenhuma direção clara foi tomada. Um ano depois, após a divisiva campanha presidencial e eleição dos Estados Unidos, e a crescente polarização no país, elas chegaram a uma conclusão diferente.

“À luz do que nossa sociedade estava experimentando, nós olhamos para aquilo que a organização tinha aprendido e sentimos que esses aprendizados poderiam ser úteis para o país”, disse Sanders. “Sentimos um chamado para compartilhar nossas percepções com o mundo em geral.”

Elas se deram oito meses para escrever e compartilhar os capítulos. Em um retiro de cinco dias em setembro de 2017, elas se reuniram em pequenos grupos e, em seguida, como um todo, para concluir o livro, que foi publicado por conta própria em março.

Cada capítulo aborda os fatos e a cronologia da avaliação doutrinal, mas através de lentes diferentes, explorando temas como a integridade pessoal e institucional para uma organização durante um período de crise; a compreensão das raízes das percepções e estereótipos que podem levar à polarização e a um “abismo cultural”; como usar com responsabilidade a influência e gerenciar os holofotes da mídia; e como as lideranças e membros da organização podem encontrar a renovação e o crescimento pessoal mesmo em tempos repletos de pressão.

Em março de 2009, a LCWR recebeu uma carta da congregação doutrinária anunciando a decisão de conduzir uma avaliação doutrinal, expressando preocupação com alguns de seus oradores em suas assembleias nacionais que “desposam posições teológicas errôneas”. Alguns meses depois, a revisão se expandiu e incluiu todos os programas e recursos da LCWR.

Enquanto as lideranças da LCWR se comunicavam imediatamente com o conselho, ex-presidentes, teólogos, canonistas e outros consultores, “nossa primeira resposta foi entrar em um discernimento contemplativo que nos ajudasse a preparar o palco para um encontro respeitoso e honesto com as autoridades da Igreja”, escreve a Ir. Marlene Weisenbeck, das Irmãs Franciscanas da Adoração Perpétua, que foi presidente da LCWR em 2009.

A LCWR forneceu os materiais solicitados pelo Vaticano, cópias de publicações e discursos das assembleias da LCWR, em 2010. Ao longo do ano seguinte, a organização manteve abertos os canais de comunicação com a congregação doutrinária, ao mesmo tempo em que aderiu a um acordo para manter o processo confidencial.

Em 18 de abril de 2012, autoridades da LCWR foram a Roma para a reunião agendada com a congregação doutrinária, onde receberam um mandato de reforma. A LCWR teria que revisar seus estatutos e submeter todos os oradores, programas e planos para revisão por até cinco anos. O arcebispo de Seattle, Peter Sartain, foi nomeado para supervisionar a implementação do mandato, assistido por dois outros bispos.

Sem o conhecimento das lideranças da LCWR, uma cópia do mandato foi publicada no sítio da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos. Sanders escreveu sobre quando recebeu um telefonema de um repórter da Associated Press enquanto estava embarcando em um voo de San Francisco para Baltimore, pedindo uma reação sua ao mandato.

No momento em que desembarcou, escreve Sanders, ela recebeu mensagens de vários meios de comunicação nacionais e internacionais. As lideranças da LCWR não tinham uma resposta: elas ainda estavam tentando absorver o que havia acontecido e formular uma reação.

Junto com a visitação apostólica do Vaticano às congregações religiosas femininas dos Estados Unidos, que também começou em 2009, a ação da congregação doutrinária tocou um nervo sensível entre os leigos. O resultado foram manifestações, campanhas na internet e declarações públicas de apoio de outras organizações. Quase 100 mil pessoas enviaram cartas, e-mails ou assinaram abaixo-assinados, dos quais alguns foram enviados aos bispos locais ou aos três bispos indicados para supervisionar a organização, em apoio à LCWR.

“O que estava acontecendo com as religiosas parecia refletir e validar a dor experimentada por grande parte dos leigos”, escreve a irmã franciscana Pat Farrell, que foi presidente da LCWR em 2011. A LCWR “estava envolvida em um confronto com as autoridades da Igreja que tocava preocupações profundas de um público muito mais amplo, embora a Congregação para a Doutrina da Fé visse isso como algo muito específico e limitado à própria LCWR”.

“Essa polarização na Igreja Católica dos Estados Unidos era o nosso contexto, que nós sentimos profundamente e que tinha muita importância para nós”, escreve Farrell. “Como mulheres religiosas, nosso amor pela Igreja, embora questionado por alguns, era profundo e inegável para nós (...) Sentir-nos à parte ou em desacordo com a Igreja institucional era doloroso e inaceitável.”

Durante seis semanas, as lideranças da LCWR não disseram nada publicamente sobre o mandato e pediram que seus membros se abstivessem de dizer qualquer coisa até que o conselho se reunisse em maio de 2012. Em sua assembleia em agosto de 2012, todos os membros que quiseram falar sobre o mandato foram autorizados. Mas o processo de contemplação e discernimento comunitários, repetidamente citado ao longo do livro, foi crucial para determinar o caminho a se seguir.

“No fim, conseguimos ver juntas com os olhos do nosso coração comum mais do que qualquer uma de nós poderia ter visto sozinha”, escreve Farrell.

Em vários capítulos, as irmãs discutem a dor que o mandato causou em nível individual e coletivo.

“Ficamos impressionadas com as acusações de erro doutrinário, críticas e julgamentos sobre supostas políticas de dissidência corporativa, a nossa fidelidade ao feminismo radical e uma distorção da nossa fé”, escreveu a Ir. Marcia Allen, das Irmãs de São José, presidente da LCWR em 2015, e a irmã franciscana Florence Deacon, presidente da LCWR em 2012.

Percepções equivocadas se acumularam ao longo dos anos, como as irmãs descobriram. A Ir. Sharon Holland, das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, presidente da LCWR em 2014 e advogada canônica que atuou na equipe da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica do Vaticano, escreveu sobre um “momento de percepção crítica” em uma reunião de 2014 entre a LCWR e a congregação doutrinária, “na qual uma autoridade da Congregação para a Doutrina da Fé expressou pesar porque certas percepções se tornaram ‘institucionalizadas’”.

Embora o mandato tenha sido dirigido à LCWR, ele também refletiu o conflito mais amplo dentro da Igreja em torno da visão sobre o Vaticano II, como observam várias seções do livro, particularmente o capítulo da Ir. Carol Zinn, das Irmãs de São José e presidente da LWCR em 2013.

A LCWR “abraçou a renovação da vida religiosa com vigor, vitalidade e vulnerabilidade” dentro do contexto do Vaticano II, escreve ela. “O papel dos leigos, a relação entre os ordenados e os leigos, e a contribuição das mulheres na Igreja tornou-se um ponto privilegiado de conversação no trabalho de renovação.”

No entanto, com essa adesão plena aos esforços de renovação do Vaticano II, a LCWR, como um grupo de lideranças religiosas femininas, parecia “contribuir com o atual conflito no Vaticano”, escreve ela.

A reação generalizada ao mandato e o apoio à LCWR por parte dos leigos, de outras organizações católicas e de congregações religiosas femininas em todo o mundo indicaram que “havia algo de muito profundo em jogo nessa jornada”, escreve ela. “Sentíamos a esperança de querer que a nossa Igreja crescesse na visão do Vaticano II compartilhada por muitos. E tocávamos a dor profunda experimentada por muitos na ausência da concretização de tal visão.”

Em sua declaração pública quando o mandato foi concluído em 2015, a LCWR disse esperar que a avaliação e o mandato “levem à criação de espaços adicionais dentro da Igreja Católica, onde as lideranças e os membros da Igreja possam falar regularmente sobre os assuntos críticos diante de todos nós”.

However Long the Night apresenta métodos que podem ser usados para uma abordagem comunitária e contemplativa de tais conversas dentro da Igreja e de outras organizações. Isso já está acontecendo com vários membros do grupo Solidarity with Sisters, que, em seu capítulo, escrevem que adotaram práticas contemplativas em seus locais de trabalho.

Um membro diz que criar espaço para a contemplação silenciosa é útil para equipes que tomam decisões difíceis. Outro diz que o discernimento comunitário e a tomada de decisão coletiva da LCWR “são as ‘melhores práticas’ que podem ser traduzidas para um uso amplo nas organizações”.

Além de fornecer intuições sobre como a LCWR reagiu à crise e lições para outras organizações, However Long the Night é também uma história de uma jornada espiritual que trouxe lições de humildade e bênçãos inesperadas para a organização, suas lideranças, membros e apoiadores.

“Aprendemos que, mesmo quando injustamente acusados”, escreve a irmã dominicana Mary Hughes, presidente da LCWR em 2010, “podemos confiar em Deus para nos fazer atravessar a noite, por mais longa que seja.”

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