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18 Abril 2018

"O sonho igualitário das origens sobreviverá em grupos de cristãos marginais ou entre os considerados hereges (Shakers da Inglaterra) ou então é projetado para a escatologia, no termo da história humana. Foi preciso esperar os movimentos libertários feministas europeus e norte-americanos a partir de 1830 para fazer valer o antigo sonho cristão", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

Eis o artigo. 

O cristianismo originário fundado nas práticas de Jesus e posteriormente de São Paulo haviam instaurado uma ruptura na linha da igualdade de gênero. Mas ele não se sustentou. Sucumbiu à cultura dominante predominantemente machista que subordinava a mulher ao homem. Qualquer motivo fútil permitia o divórcio, deixando a mulher desamparada.

O próprio apóstolo Paulo, contradizendo o princípio da igualdade, bem formulado por ele (Gal 3,28), podia dizer consoante o código patriarcal: “o homem não procede da mulher e sim a mulher do homem; nem o homem procede da mulher sim a mulher do homem; nem o homem foi criado para a mulher, senão a mulher para o homem; deve, pois, a mulher usar o sinal de sua submissão (o uso do véu: 1Cor 11,10).

Esses textos que alguns estudiosos consideram uma inserção posterior a Paulo, serão brandidos, pelos séculos afora, contra a libertação das mulheres, constituindo o cristianismo histórico, principalmente a hierarquia romano-católica, não tanto os leigos, um bastião de conservadorismo e de patriarcalismo. Ele não viveu, profeticamente, sua própria verdade e em nome dela não resgatou a memória libertária das origens, contestando a cultura dominante. Ao contrário, deixou-se assimilar por ela e ainda criou um discurso ideológico de sua naturalização e, assim, de legitimação até os dias atuais, pelo menos no nível dos discursos papais, na contramão do que os teólogos e teólogas já há muito tempo ensinam. Bem dizia uma feminista alemã M.Winternitz: “A mulher sempre foi a melhor amiga da religião, a religião, no entanto, jamais foi amiga da mulher”.

A essa ideologização de transfundo bíblico-teológico se acrescentou ainda uma outra de ordem biológica. Admitia-se, antigamente, que o princípio ativo no processo de geração de uma nova vida dependia totalmente do princípio masculino. Levantava-se, daí, a questão: se tudo depende do homem por que então nascem mulheres e não só homens? A resposta, reputada científica pelos medievais, era a de que a mulher é um desvio e uma aberração do único sexo masculino. Em razão disso, Tomás de Aquino, repetindo Aristóteles, considerava a mulher como um “mas occasionatus” (um homem a caminho), mero receptáculo passivo da força generativa única do varão (Summa Theologica I.q.92,a.1 ad 4). Argumentava ainda: “A mulher necessita do homem não somente para engendrar, como fazem os animais, senão também para governar, porquanto o homem é mais perfeito por sua razão e mais forte por sua virtude” (Summa contra Gentiles, III,123).

Tais discriminações, embora sobre outras bases, agora psicológicas, ressoam, modernamente, para perplexidade geral, nos textos de Freud e de Lacan. Com razão se diz que a mulher é a última colônia que ainda não logrou sua libertação (cf. M. Mies, Woman, the Last Colony, Londres, Zed Books 1988).

O sonho igualitário das origens sobreviverá em grupos de cristãos marginais ou entre os considerados hereges (Shakers da Inglaterra) ou então é projetado para a escatologia, no termo da história humana. Foi preciso esperar os movimentos libertários feministas europeus e norte-americanos a partir de 1830 para fazer valer o antigo sonho cristão. À luz dos ideais do Iluminismo que afirmavam a igualdade original e natural entre homens e mulheres, Sarah Grimké podia escrever suas Letters on the Equality of the Sexes and the Condition of Woman (1836-1837), inspiradas nos textos bíblicos libertários e, em 1848, em Seneca Falls, Nova Iorque, as líderes cristãs feministas podiam formular a Declaration of the Rights of Women, calcada sobre a Declaration of Independence dos EUA e por fim começar a publicar em 1859 o The Woman’s Bible em Seattle.

A partir de então formou-se a irrefreável onda do feminismo e do ecofeminismo modernos, movimentos seguramente dos mais importantes, no questionamento da cultura patriarcal nas igrejas, nas sociedades e apresentando um novo paradigma civilizacional.

Vale ressaltar que é do grupo de feministas que nos veio uma das críticas mais severas do paradigma racionalista da modernidade e da introdução da categoria cuidado na discussão da ética, centrada tradicionalmente na justiça. O eco-feminismo representa uma das grandes correntes da reflexão ecológica atual reforçando o novo paradigma relacional.

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