Quando teremos núncios apostólicos leigos?

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17 Abril 2018

O antropólogo e padre jesuíta Ludovic Lado reflete sobre o clericalismo na Igreja.

O artigo é publicado por La Croix International, 16-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A Santa Sé é uma entidade soberana independente localizada no Estado da Cidade do Vaticano. E, como tal, acolhe embaixadores e os credencia para outros Estados do mundo. Os diplomatas do Vaticano ou da Santa Sé têm o título de “núncios apostólicos”.

Como diplomatas, eles fornecem uma ligação entre o Estado ou os Estados que representam, a Igreja local e o Vaticano, particularmente no que diz respeito aos interesses da Igreja Católica.

Eles desempenham um papel decisivo na nomeação dos bispos.

Embora o papel do núncio tenha um objetivo apostólico, como indica seu próprio título, ele também tem uma poderosa dimensão política.

Muitas vezes, me pergunto por que não há núncios apostólicos leigos.

Os núncios geralmente têm o posto de bispo, o que significa que são necessariamente escolhidos dentre as fileiras do clero. Por sua vez, isso também significa que eles são necessariamente homens.

Portanto, é um dos papéis mais clericalizados na Igreja. E eu realmente tenho que perguntar: por quê? Há alguma razão bíblica ou teológica envolvida? Não consegui identificar nenhuma dessas razões.

Inicialmente, Jesus simplesmente tinha discípulos que enviava em missão com a seguinte advertência:

“Eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Tenham cuidado com os homens, porque eles entregarão vocês aos tribunais e açoitarão vocês nas sinagogas deles. Vocês vão ser levados diante de governadores e reis, por minha causa, a fim de serem testemunhas para eles e para as nações. Quando entregarem vocês, não fiquem preocupados como ou com aquilo que vocês vão falar, porque, nessa hora, será sugerido a vocês o que vocês devem dizer. Com efeito, não serão vocês que irão falar, e sim o Espírito do Pai de vocês é quem falará através de vocês” (Mt 10, 16-20; trad. Bíblia Pastoral).

No tempo de Jesus, a Igreja não tinha nenhuma superestrutura política. Além disso, a Bíblia não contém nenhum indício de forma de relação diplomática entre Jesus e Herodes, muito menos com Pilatos.

Pelo contrário, as únicas relações de Jesus com eles eram distantes e muitas vezes tensas. Lembremos o episódio com Herodes no Evangelho de Lucas:

“Nesse momento, alguns fariseus se aproximaram, e disseram a Jesus: ‘Deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar’. Jesus disse: ‘Vão dizer a essa raposa: eu expulso demônios, e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém’” (Lc 13, 31-33; trad. Bíblia Pastoral).

Simplificando, as lideranças políticas não conseguiam suportar Jesus.

Também sabemos que as primeiras comunidades cristãs foram submetidas a ferozes perseguições por parte das autoridades políticas do Império Romano, que duraram até a conversão de Constantino no século IV.

Isso marcou um ponto de virada decisivo no posicionamento político que a Igreja adotaria enquanto assumia progressivamente os contornos do império.

O fato de a Igreja ter acabado se concebendo como uma entidade política a ponto de ter embaixadores como outras entidades políticas é um resultado daquela eclesiologia pós-constantiniana.

O papel do núncio como membro do clero, que cuida dos interesses da Igreja em relação a um Estado, faz parte dessa evolução histórica. Em grande parte, ele segue uma lógica do pragmatismo.

No entanto, continua sendo uma função clerical, porque está enraizada em uma tradição eclesial em que o exercício da autoridade é eminentemente clerical e em que o poder é tradicionalmente mantido pelo clero.

A forma perversa desse poder clerical é o que conhecemos como clericalismo.

Desde o início de seu pontificado, em várias ocasiões, o Papa Francisco alertou o clero contra o clericalismo, que, na sua opinião, “apaga pouco a pouco o fogo profético do qual a inteira Igreja está chamada a dar testemunho”.

Esse clericalismo apaga os carismas dos leigos em vez de discerni-los.

Pessoalmente, não vejo razão para não desclericalizar o papel de núncio.

Não vejo o que o estado clerical acrescenta ao exercício desse papel. Certamente, não se trata de santidade extra!

Eu acredito que o Papa Francisco deveria considerar a possibilidade de abrir esse papel a homens e mulheres leigos como parte da batalha contra o clericalismo.

Os núncios desempenham um papel importante na nomeação dos bispos e é desejável que os leigos também estejam envolvidos nesse processo.

Em um discurso ao clero há não muito tempo, o Papa Francisco fez os seguintes comentários a respeito dos leigos: “Portanto, devemos reconhecer que o leigo, por sua realidade, sua identidade, por estar imerso no coração da vida social, pública e política, por ser partícipe de formas culturais que se geram constantemente, precisa de novas formas de organização e de celebração da fé”.

Para ser um bom núncio apostólico, é suficiente amar a Igreja, ter uma boa formação teológica e canônica, e ter as aptidões diplomáticas necessárias.

Isso não parece ser uma prerrogativa clerical.

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