Seminários, severas academias educacionais

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17 Abril 2018

O próximo Sínodo, sobre os jovens, começa a acelerar sua preparação. Mas há um aspecto deste Sínodo que não deve ser negligenciado, e diz respeito à segunda parte de seu título: "... o discernimento vocacional". Evidentemente, o "discernimento vocacional" não diz respeito apenas à preparação para o sacerdócio, nem a um ato de escrutínio avaliativo, mas a um inteiro processo educacional sólido e continuamente renovado. Aqui, pretendemos abordar o aspecto referente à formação seminarística.

Padre Michele Giulio Masciarelli tem quarenta anos de experiência como professor de pedagogia em ateneus pedagógicos, de teologia em seminários e em faculdades teológicas, e como Diretor, por várias mandatos, no Instituto Teológico Abruzzese-Molisano (Chieti), mas também como estudioso de pedagogia, tema sobre o qual escreveu vários livros, incluindo "Il grido de Benedetto: dall’emergenza educativa alla pedagogia del cuore". Todi (PG): Tau Editrice, 2009.

O artigo é de Michele Giulio Masciarelli, publicado por Settimana News, 04-03-2018. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

Duas premissas necessárias

Serve uma educação séria. Deve ser dito com antecedência: devemos acreditar que a educação, em todos os seus aspectos (humana, espiritual, teológica, pastoral), deve ser colocada na ordem do princípio[1]. Pode faltar qualquer coisa, mesmo pão e água, mas não educação. E, em termos menos abstratos, ninguém é mais importante na vida dos homens do que o educador, o maior benfeitor da humanidade. Ele é insubstituível, porque, se você pode ser autodidata no conhecimento, não é possível, de forma alguma, autoeducação: ninguém pode ser conselheiro, corretor, juiz de si mesmo. Pretender isso é tornar-se no mínimo ridículo, no máximo, blasfemo. Quem quiser ser tutor e mestre de si mesmo acabará desajeitadamente ajoelhado diante de si mesmo[2].

Nos seminários a educação (não frouxa, permissiva, episódica, descontínua, abstrata, formalista, carente de motivações fortes...) é tema primário, e é claro, deve ser promovida por educadores à altura da tarefa, exige qualidade, longa e forte experiência de vida pastoral-paroquial, competência pedagógica séria, não apenas juvenil, porque é verdade que no seminário se educam jovens (e muitas vezes não só jovens), mas porque são educados para estarem no mundo e a serem pastores na Igreja, dois espaços compostos não somente por jovens.

A psicologia não substitui a educação. Apenas uma observação: a boa atenção aos problemas psicológicos dos candidatos ao sacerdócio, com o recurso de especialistas treinados nas ciências psicológicas, deve ser um suporte apenas de apoio ao trabalho educacional. A Psicologia (é bom lembrar) não é Pedagogia: aquela está, certamente, na ordem dos meios, esta, por sua vez, na ordem dos fins, mesmo que não se dê tanta atenção quanto àquela.

A psicologia nos seminários pode ter um papel discretamente ancilar em relação ao trabalho educacional, complexo e multidimensional, que constitui o Plus, o que está além, que é o propósito da vida seminarística. Em um tempo obrigado a assistir horizontes existenciais cada vez mais exaustos e tristes, caracterizado pelo pensamento fraco e pela queda de certezas éticas[3], é necessário urgentemente retomar, em todos os círculos da educação cristã, especialmente nos seminários, o discurso (não obstante a dificuldade de como fazê-lo)[4], sobre os valores eternos, absolutos, ou pelo menos tão fortes quanto o da pessoa e o que ela exprime, constrói e representa.[5]

Vencer o ceticismo educacional

É inegável. Não temos certeza, hoje, nem mesmo da possibilidade de um projeto educacional; nem, a certeza mínima sobre as estratégias educacionais a serem adotadas; acaba-se pondo em dúvida até mesmo a ideia de educação. Esse terceiro, é ponto o mais preocupante.

As responsabilidades de uma tão vasta crise descrita acima, não são localizáveis facilmente em sujeitos pessoais. São necessárias razões fortes, razões convincentes, previsões tranquilizadoras e, mais ainda, exemplos convincentes, dispostos a cultivar o momento pedagógico como um valor em si, mas também, convictos de que, desse modo, prepara-se a reconstrução do lacerado tecido da vida social.

Ceticismo e desânimo agitam, como vento gelado, todas as áreas de educação, especialmente a família e a escola, nem sempre conscientes de poderem e deverem ser os primeiros sujeitos da educação, e de poderem e deverem dispor-se, elas mesmas, a um verdadeiro projeto educacional. Mas, a desconfiança que afeta o mundo da educação, que adverte o risco real do empobrecimento de todo autêntico projeto educativo, e do ceticismo generalizado, que chega a tocar às raízes do próprio educar, pode ser vencido. Uma das razões da confiança no renascimento de uma experiência educacional frutífera deve ser encontrada na qualidade humana da própria educação, que é capaz de ser emendada, repensada, mudada mesmo profundamente, porque depende da liberdade do homem.

Educar é "conservar" (H. Arendt)

Diante do que Edgar Morin mostra como "policrise"[6], tenta-se caminhos educacionais que levem, não em primeiro lugar a aprender a resolver problemas (coisa necessária, deve ser feito), mas, a ser e a crescer no ser, em vista da solução dos problemas que a vida coloca continuamente. Esta é uma primeira forma de liberdade, que poderá mudar a experiência educacional desde dentro.

Mas há outra inovação a ser feita no campo educacional, que é a personalização dos valores da tradição. Educar significa transmitir valores, estilos de vida, razões de confiança nos homens, e esperança no futuro.

Educar significa preservar e transmitir a sabedoria da vida, isto é, verdade, bondade, beleza, expressas nas gerações passadas, para aumentá-las e renová-las.

O que Arendt ensina sobre a aparente contradição entre tradição e inovação é sutil. "Não gostaria de ser mal interpretada: na minha opinião o conservadorismo, ou melhor, "o conservar", é parte essencial da atividade educativa, que sempre visa preservar, proteger algo: a criança do mundo, o mundo da criança, o novo do velho, o velho do novo"[7].

É claro, o abandono da busca pelo verdadeiro e do cultivo de conteúdos, inevitavelmente desliza em direção ao "como" da metodologia. É a dolorosa situação, hoje, em que o elemento tecnológico tornou-se omnipresente na proposta educacional nos sistemas escolares. É a única coisa que interessa.

O "grito" de Bento XVI sobre a emergência educacional

É necessário considerar a tradição, cujo esquecimento deve ser preenchido com inteligência. Observa, a propósito, o matemático Giorgio Israel em uma entrevista com Monica Mondo sobre a Carta do Papa Ratzinger sobre a emergência da educação de 21 de Janeiro de 2008[8]: "é claro que o apelo à tradição não pode ser conservativo, um apelo ao passado, em vista de restaurá-lo. Mas, os instrumentos da tradição devem ser oferecidos, precisamente porque o ensino não pode tornar-se pura metodologia. Este é o drama que vivemos hoje. Descartes, que revolucionou o pensamento filosófico, formou-se no colégio jesuíta de La Flèche. Galileu era basicamente aristotélico. Mas agora, ao contrário, pensa-se que é preciso projetar-se para frente, isto é, no vazio, substituindo o conteúdo pela metodologia, "uma escolha de quem não tem nada", dizia Lucio Colletti"[9].

Além do mais, para além dos gracejos, metodologia e tecnologia não são educação. É preciso perguntar-se por que e com que propósito educar, que homem queremos educar, quais valores queremos transmitir e cultivar. Os bispos italianos, em Carta aos alunos, pais e comunidades educativas, escreveram, alguns anos atrás: "A comunicação será tão mais construtiva quanto mais souber abraçar – nos modos culturais, próprios da escola - todas as dimensões da pessoa, com destaque para as expectativas mais profundas, explicando seus significados, facilmente esquecidos pela mentalidade atual: a busca da verdade, a compreensão da identidade e da dignidade própria de cada pessoa, a educação para a responsabilidade e para a solidariedade, o sentido religioso"[10].

Referências:

[1] Cf. MENICHELLI, Arciv. Edoardo. Primo: educare. Sei messaggi sui giovani. Leumann (TO): Elledici, 1998.

[2] Cf. DONATI, M; MALFATTI, M. (a cura). L’educatore indispensabile. MilanoVita e Pensiero, 1992.

[3] Cf. NOCE, A. Del; SPIRITO, U. Tramonto o eclissi dei valori tradizionali? Milano: Rusconi Libri, 1971; FICHERA, G. Crisi e valori ed altri saggi. Padova: Cedam, 1958.

[4] Em relação ao problema do desaparecimento dos valores e sobre a possibilidade de reencontrá-los, cf. STOETZEL, J. I valori del tempo presente: Un’inchiesta europea. Torino: Società Editrice Internazionale, 1984; Aa.Vv. L’Occidente ha ancora valori da proporre? Palermo: Augustinus, 1986; RIGOBELLO, A. (Org.) Per una cultura del valore. Roma: Nova Spes, 1989; Fondazione Internazionale Nova Spes. Per una carta dei fondamentali valori umani. Roma: Nova Spes, 1993.

[5] Cf. LA PIRA, G. Il valore della persona umana. Firenze, 1962.

[6] Cf. MORIN, E. Terra Patria, Milano: Cortina, 1993, pp. 92-94.

[7] ARENDT, H. Tra passato e futuro, Milano: Garzanti, 19992, p. 250.

[8] Cf. L’Osservatore Romano, p. 8, 24 jan. 2009.

[9] L’Osservatore Romano, p. 5, 23 fev. 2008.

[10] Commissione Episcopale CEI per l’Educazione Cattolica. La Cultura, la Scuola e l’Università, Per la scuola, n. 6, 29 abr.1995.

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