Marielle Franco em memórias de um padre numa Exéquia interpelante: A "mosca que entrou na nossa sopa".

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04 Abril 2018

"Como auscultar demandas e tocar em tabus a partir de Corpos historicamente desconsiderados, silenciados e ocultados?", questiona Geraldo José Natalino (Padre Gegê), pároco da Paróquia Santa Bernadete, membro do grupo Fé e Política Pe. João Cribbin, psicólogo (PUC-RJ) com Pós-graduação em psicologia junguiana, mestre em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-RJ e doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP.

Eis o artigo.

Tenho quase 25 anos de padre e nunca, salvo no velório de Abdias Nascimento (2011), objeto de pesquisa de minha tese doutoral, deparei-me com um corpo-vivo tão carregado de proposições afrodiaspóricas e tão grávido de Marés contra-hegemônicas. No Corpo aparentemente inerte estavam enredados corpos, vozes, saberes e poderes.

Desse modo, a primeira afirmação que se faz mister é a de que trato a memória do Corpo-Maré-Marielle no âmbito simbólico; logo, enquanto conteúdo psicológico polifônico e, por isso, capaz de provocar variadas interpelações à sociedade e, em particular à Igreja. A propósito, se a ativista se afirmasse umbandista ou de outros credos quaisquer, a Igreja Católica de desincumbiria de algumas aproximações, mas pelo fato de Marielle sustentar herança católica somos, pela força de seu pertencimento, desafiados a dialogar não somente com uma vida ceifada brutalmente mas, antes e sobretudo, com pautas e agendas, em geral, não consideradas, rejeitadas e até demonizadas pelo corpo eclesial.

A meu juízo, fosse a ativista da Opus Dei, loira de olhos azuis e executada com um terço no pescoço e uma prancha de surf na mão, clérigos circulariam seu corpo como insetos em torno da lâmpada. Isso se não a declarassem santa in loco. Mas, ao contrário, Marielle traz consigo outras Marés; marés propositivas de pretas-faveladas-de esquerda-feministas-lésbicas etc.

De modo geral, a Igreja vira a face para essas demandas e interpelações e sequer se dá ao trabalho de escutá-las. Poderíamos indagar: não estaria a o corpo-memória da ativista desafiando a igreja a considerar questões historicamente reprimidas? Não estaria o corpo-memória-Marielle provocando a Igreja a deparar-se com assuntos que quase sempre a Igreja costuma esconder debaixo do tapete? O corpo-memória-viva, como um espelho, não seria capaz de fazer com que a igreja olhasse para um sem número de seus filhos e filhas “de esquerda” que muitas vezes são execrados das práticas pastorais por não encontrarem lugares de diálogo? Quantos militantes não encontram pontos de diálogo em suas paróquias? Quantas paróquias se divorciaram dos movimentos sociais e olham com desprezo os que deles participam? E os filhos e filhas da igreja, os homossexuais (clérigos e não clérigos), que jamais encontraram um espaço de escuta e enunciação das vivências, por vezes dilacerantes de suas sexualidades? Não estaria o corpo-memória da ativista suscitando que a igreja rompesse o paradigma do silenciamento e da ocultação que a faz, muitas vezes às duras penas, tentar tapar o sol com a peneira?

Por isso, sustentamos a posição que o corpo–memória-Marielle, como uma epifania, carrega conteúdos desafiadores na ordem alteritária, porque esse Corpo tem Rosto (Lévinas), tem Cor, Geografia, Gênero, Opções e enunciações. Esse corpo tem Marés: marés que põem em xeque o paradigma patriarcal e exclusivista “de direita” e de brancura, pouco capaz de dialogar amadurecidamente com o plural, o diverso e o contraditório. Por essa razão, a “mosca na sopa” é metáfora adequada da persona non grata, daquilo que aparece na sua alteridade irredutível e desafiante.

A Literatura ajuda na compreensão dessa situação capaz de desbancar o absolutismo de qualquer ego ou sistema ancorado na repulsa do inesperado e do diferente. Vale lembrar que para Edgar Morin a educação do futuro tem que incorporar a capacidade de lidar com o inesperado. Exemplarmente, Clarice Lispector no conto “Perdoando Deus", fala de uma senhora que se julgava santa e perfeita e de repente depara-se com um rato morto com o qual é desafiada a dialogar com seus “ratos” interiores reprimidos.

A mesma Clarice na obra “A Paixão segundo G.H” fala do encontro de uma senhora que vivia em posição de conforto, mas que inesperadamente é visitada por uma barata a partir da qual é desafiada a lidar com suas zonas sombrias e escondidas. Gabriel García Márquez no conto “O afogado” aborda a epifania de um corpo vindo do mar que chegando numa ilha tristonha desperta conteúdos adormecidos nas mulheres outrora entristecidas e sem vida.

O corpo do afogado aparece com seu poder de fala e interpelação numa ilha “morta”. E é disso que estamos tratando nesta breve reflexão. 

Freudianamente falando, trata-se do “retorno do recalcado”; em linguagem junguiana chamaríamos do contado do ego com a “sombra” – o outro lado da moeda – cujo diálogo é indispensável para o desenvolvimento e amadurecimento da personalidade e o alargamento do campo da consciência.

O corpo, a coisa, o diferente, o reprimido, o rejeitado e esquecido está, inesperadamente, ali em sua alteridade radical e irredutível em face da qual não se pode virar o rosto. É o momento desafiador que inaugura um instante misterioso, fascinante e tremendo do face a face; rosto interpelante, nos termos de Lévinas. Nesse instante de inescapável contato, o ego ou o sistema eclesial pode abri-se ao diálogo e, consequentemente, ao alargamento de seus horizontes ou fechar-se cada vez mais em si mesmo e optar pela repetição ou mesmice. Nessa segunda possibilidade (“o caminho mais fácil”) o ego ou o sistema eclesial reedita a triste sina do mito de Sísifo descrita por Albert Camus que por condenação intermitentemente sobe e desce a montanha carregando sua grandiosa pedra. Sísifo está condenado a repetir, a viver sob o domínio do mesmo. Essa é a terrível sina de quem não quer mudar. É também a terrível sina de uma Igreja que não se põe em saída, segundo os apelos constantes do Papa Francisco. É uma Igreja não suficientemente atualizada, ainda que esteticamente clamorosa. A unilateralidade não só reduz quanto empobrece e adoece o campo da consciência pessoal e eclesial e ainda coloca a igreja muitíssimo aquém dos possíveis e necessários aggiornamentos.

No plano psicológico, um ego ou um sistema eclesial amadurecido é aquele que dialoga com a direita e a esquerda, com o masculino e com o feminino, com os de dentro e com os de fora. O amadurecimento, nessa perspectiva, implica necessariamente em confrontar com os conteúdos mais difíceis e por vezes insuportáveis a um ego pueril. Amadurecimento e alargamento do campo da consciência demandam confrontação com os “corpos, “ratos”, “baratas” e “moscas”.

No plano teológico, frei Clodovis Boff pensando “Uma Igreja para o Novo Milênio” tem oportunas, pertinentes e relevantes palavras. Segundo o frade, a Igreja “é estruturalmente marcada pelo ‘gênio do varão’”. E diz ainda: “uma Igreja do futuro há de crescer em sua outra metade atrofiada, dando um espaço maior à mulher”. Para o frei pesa sobre as Igrejas cristãs e a sociedade uma dívida para com a mulher. Escreve também Clodovis Boff: “A misericórdia se estende também a todos os que os sistemas morais e religiosos condenam e que são tidos como ‘pecadores’, proscritos, perdidos, desgraçados. A lista aqui é longa, repartida entre categorias tradicionais e outras novas: as prostitutas, as mães solteiras, os recasados, os sacerdotes e religiosos(as) que ‘deixaram’, os homossexuais...”.

No grupo dos homossexuais (gays, lésbicas e outros) não podemos olvidar dos clérigos e freiras que vivem em cofres fechados á sete chaves terríveis dilacerações na vivencia da sexualidade sem que a igreja muitas vezes sequer fosse capaz de debruçar seus ouvidos numa escuta mais interessada, realista, qualificada e compreensiva. Nesse horizonte, não é incomum o juízo de valor sepultar o juízo de realidade dando lugar a triste formulação: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Não se trata, pois, de aceitar ou assinar em baixo de tudo para se apresentar modernosa. O que se está em jogo é a exigência para se romper com a política do “tapar o sol com a peneira” e de não se tratar assuntos humanos com “quatro pedras não mão”. O que se exige é a competência da escuta, do diálogo é, em especial, de não virar o rosto ante o diverso ou o contraditório. Segundo Jung quanto mais se despreza, se demoniza ou rejeita um conteúdo (por mais assustador que pareça) mais ele perturba o ego exigindo contato, diálogo e cidadania, conforme Dioniso em Tebas nas Bacantes de Eurípides.

Esse conteúdo perturbador e desafiador trazido pela persona non grata chamo de “mosca na sopa”. E é possível que as vezes uma vida mais verdadeira, integrada e feliz dependa do contato corajoso e sincero com uma aparente desprezível “mosca”. Em síntese, em face do Corpo-Memória-Discurso da ativista (negra-mulher-favelada-“de esquerda”-lésbica etc) a igreja não pode ou não deve, sob pena de imitar Sísifo, patrocinar o recuso possível e escabroso do “jamais vu”. Aliás, a meu juízo, o “jamais vu” (“jamais vi”) é a mãe do “Je m’en fiche” (conforme William James, “não tô nem aí”).

Como auscultar demandas e tocar em tabus a partir de Corpos historicamente desconsiderados, silenciados e ocultados? Bem maiores que quaisquer ativistas são os seus sonhos, suas utopias e suas lutas. Desta feita, maior que Marielle é a sua agenda, as suas pautas. Desprezar, demonizar, ou querer matar a “mosca” (física, moral ou simbolicamente) pode significar a escolha pelo caminho mais comum, mais truculento, mais repetitivo, mais vil, mais infeliz e sem vida. Contudo, terrível e desastrosamente, essa escolha também é possível... A propósito, não teria Jesus Cristo sido rejeitado, torturado e executado por ter sido “mosca na sopa” repetida, fria, insossa e vomitável do sistema social e religioso de sua época?

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