O fato de o Papa não negar o inferno muda as percepções do que a Igreja pensa sobre a vida após a morte

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03 Abril 2018

O Sábado de Aleluia é, segundo a tradição cristã, o dia em que Jesus desce ao inferno para libertar as almas "justas” que foram para lá antes dele.

O inferno esteve em pauta nesta Semana Santa após o jornal italiano "La Repubblica" ter citado que o Papa Francisco disse que não existia em um artigo que segundo o Vaticano não é confiável e é fruto da “reconstrução” do próprio autor.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada por The Tablet, 31-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eugenio Scalfari, co-fundador do "La Repubblica", 1'que tem 93 anos e não é cristão, relatou as observações após uma conversa com Francisco, embora o Vaticano afirme que não há nenhuma transcrição do que foi dito. Scalfari encontrou-se cinco vezes com o Papa, mas nunca grava ou toma notas. Não é a primeira vez que o Vaticano rejeitou o relatório de um diálogo entre Francisco e Scalfari.

A verdade é que o Papa, de 81 anos de idade, que fala reiteradamente sobre o diabo e tem fortes influências de um romance que apresenta o Anticristo, dificilmente disse: "O inferno não existe". Também há registros seus confirmando a existência do inferno.

Mas, indo além do que ele disse ou não disse, o resultado final é destacar a percepção de um Papa que está mais interessado em demonstrar misericórdia do que em julgar os pecadores. É o tema abrangente do pontificado de Francisco.

Essa impressão teve tanta aderência que para grande parte da mídia era perfeitamente plausível que Francisco estava de alguma forma se livrando do inferno.

Por outro lado, críticos de Francisco de dentro da Igreja ficam extremamente ansiosos – ou em alguns casos furiosos – pelo que consideram um Papa que brinca com a doutrina central ao usar discussões com um jornalista ateu para indicar possíveis mudanças.

Isso nos leva ao dilema enfrentado por um Papa e muitos outros líderes da Igreja: uma mensagem que deveria atrair as pessoas ao cristianismo, ao mesmo tempo enfurece o núcleo de seguidores.

Colocando em termos políticos brutos, trata-se de equilibrar o apelo ao eleitor indeciso com a garantia de que os fiéis não abandonem os bancos da igreja. Uma entrevista de Scalfari é um caminho no dilema de Francisco. As manchetes dramáticas desencadearam um boom da mídia, mas o Vaticano emitiu uma negação e não há alteração na doutrina.

A confusão irrita os críticos internos, mas não há embasamento para sair de cena nem para começar a emitir condenações formais. Para os de fora, parece que este Papa está tentando promover uma abertura.

Antes do conclave de 2013, no qual os cardeais escolheram o primeiro papa latino-americano e jesuíta, o cardeal Jorge Bergoglio impressionou com um discurso sobre os problemas do catolicismo "autorreferencial”.

Ele disse que havia duas imagens da Igreja: "uma que evangeliza e sai de si mesma" e outra de uma "Igreja mundana, dentro de si mesma, para si mesma, por si mesma".

A decisão de Francisco de ser entrevistado por Scalfari é um risco, mas que ele acredita que vale a pena para ter certeza de que a mensagem do Evangelho não vai ficar aprisionada dentro da Igreja. O mesmo pode ser dito sobre as outras entrevistas que ele concedeu e as conferências de imprensa nada convencionais a bordo do avião papal.

Também é uma tentativa do Papa de evitar o foco na pureza doutrinária, enquanto o discurso da condenação de papas anteriores é substituído por um discurso de acolhimento.

"Precisamos ter cuidado para não cair na tentação de tornar certas verdades abstratas em ídolos", disse Francisco a sacerdotes na Basílica de São Pedro no dia em que seus comentários sobre o inferno foram relatados.

O "ídolo de verdade", acrescentou, "está camuflado. Ele veste-se nas palavras do Evangelho, mas não deixa essas palavras tocarem o coração".

Para Francisco, a doutrina católica não pode ser como uma bela peça de museu, envolta em vidro para que as pessoas a admirem com alarmes prontos para disparar se alguém tentar olhar mais de perto. Pelo contrário, a doutrina deve se tornar pastoral e vital. Não é uma questão de mudar as regras ou de abandoná-las, mas requer menos conversa sobre o que é certo e errado e mais foco em sua aplicação na vida das pessoas.

Em relação ao inferno, Francisco claramente não está confortável com a ideia de ser um poço em chamas ou um lugar para onde as pessoas da Terra que julgam os outros devem ir. Um dos predecessores de Francisco, o Papa Clemente VII (1523-34), uma vez brincou: "Minha jurisdição não se estende ao inferno".

Ele também faz parte de uma mudança de longa data na teologia católica que imagina o inferno como um lugar densamente povoado, mas sim a real possibilidade de viver na "ausência de Deus". Uma representação muito mais profunda e completa da vida após a morte é explorada em "Dream of Gerontius" (Sonho de Gerontio), do cardeal John Henry Newman – em sua expressão máxima no Oratório de Elgar de mesmo nome –, que foi além de distinções limitadas de Céu e Inferno.

Gerald O'Collins, estudioso jesuíta, disse ao Tablet que ambos, Hans Urs von Balthasar, um dos mais influentes teólogos do século XX, e o Papa João Paulo II desenvolveram o ensinamento sobre o inferno, para que "tenhamos esperança e oremos para que ninguém rejeite a Deus a ponto de acabar nesse lugar por toda a eternidade".

Essas mudanças teológicas internas demoram para sair da Igreja e alcançar o mundo mais amplo. Apesar de a entrevista de Scalfari com o Papa parecer um instrumento contundente para transmitir uma mensagem, quando se trata do inferno Francisco está mudando de ideia por pessoas que não são ou já foram católicas que podem ter a falsa impressão de que a Igreja realmente os condena à maldição eterna.

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