O Movimento de 1968? Derrota política, mas vitória cultural

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03 Abril 2018

Peter Schneider, ativista do “maio de 1968”, voltou para Trento, Itália, na semana passada e relembrou a história daquele período.

A entrevista é de Paolo Mantovanna, publicada por Trentino, 28-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O que vocês fizeram em 68?

Uma coisa que precisa ser redescoberta. O maior impulso vinha do desejo de reinventar a vida, o modo de viver, a sociedade. Questionamos quase tudo: a relação entre pais e filhos, o sexo, a arte (mesmo errando porque a arte também foi a fonte de muitas ideias na época). E estávamos à procura de um modo de viver mais intenso e mais honesto: era uma busca pela verdade. Estas são as coisas boas que nos acompanharam no início.

Vocês, de 68, de Trento, de Berlim e do mundo: vocês ganharam ou perderam?

Eu estou contente por não termos ganhado a revolução, porque teria sido um desastre.

Então, você perderam ...

Perdemos politicamente, culturalmente vencemos. Politicamente, nós quisemos criar uma sociedade anticapitalista, socialista, eliminando a propriedade privada. Eram velhos conceitos. Eles nunca funcionaram, o socialismo real sempre foi um desastre. Melhor ter perdido. Mas nós vencemos culturalmente porque mudamos a sociedade. Nós destruímos a cultura da obediência: na Alemanha era uma coisa absurda.

Há algo para se desculpar?

Não de 68. Na Alemanha e na Itália nenhuma geração tinha tido a oportunidade de revelar a energia da mudança, porque ainda era preciso se confrontar com as consequências do fascismo. Portanto, nós que fizemos parte do movimento não devemos pedir desculpas pelo que aconteceu por causa de 68. Se alguém tem que pedir desculpas, é quem estava lá e não participou. Como você podia estudar e se preparar para a profissão como se nada estivesse acontecendo?

Depois, porém, houve a página o terrorismo.

Aconteceram algumas ambiguidades no movimento, isso sim. Porque em algum momento foi preciso responder a esta pergunta: queremos a luta armada ou não? Até mesmo Dutschke era ambíguo sobre esse ponto. Eu sempre fui contra a violência. O erro de base do movimento, na Itália como na Alemanha, foi considerar que a sociedade estivesse se direcionando para um novo fascismo. Não era isso. Alguém pensou na "resistência" e a aplicou de forma equivocada e trágica.

E em Trento?

Trento foi importante pelas diferenças com Berlim. Em Berlim quando nasciam círculos com orientações políticas diferentes, as pessoas acabavam em lados opostos, até deixavam de se cumprimentar. Trento era outro mundo, discutia-se animadamente, depois se comia e bebia juntos.

Mais humanos?

Sim, e se brincava mais. Conseguia-se falar de si mesmos. Lembro uma vez que Checco Zotti apagou as luzes na universidade e alguém falou de sua mãe, e, de repente, todos disseram algo sobre sua mãe, confissões de amor ou de ódio visceral: eu nunca tinha ouvido nada parecido em Berlim.

Rostagno.

Um talento incrível de espontaneidade. Ele sabia compreender uma situação e expressar sua energia naquele momento. Portentoso. Nós nos encontramos novamente muitas vezes, mesmo depois de 68. Ele gostava muito do meu romance Lenz (Lenz, ed. Feltrinelli de 1973, tornou-se um texto cult para a esquerda, cristalizando a desilusão com o fracasso dos movimentos estudantis, NdE). Notei que havia sempre em torno de Rostagno doze pessoas, eu os chamaria de apóstolos, que escutavam o mestre.

Ele tinha um carisma extraordinário. E era extremamente autocrítico. Ele tinha o talento para transmitir as mensagens com enorme energia.

Curcio.

Renato também era um líder, mas de segunda linha em comparação com o espírito livre e lúdico de Rostagno. Renato era introvertido e não era tão habilidoso com as palavras. Mas uma vez eu o acompanhei em uma visita a alguns camponeses de montanha: ele estudava as palavras de maior impacto daquela sociedade de montanha, preparava-se para uma carreira universitária, e era muito respeitado e estimado pelos agricultores;eu pensei comigo mesmo: ele é grande. Eu nunca teria imaginado que se tornaria o líder das Brigadas Vermelhas. E quando ele saiu da prisão eu o ouvi e fiquei profundamente decepcionado. Havia tanto companheirismo entre todos nós, mas ele nunca encontrou uma palavra, nem uma, para dizer: sim, eu errei. Ele nunca quis admitir isso. Acredito que ele tenha mergulhado tão profundamente na tragédia que já não seja mais sequer capaz de dizer "eu errei".

Boato.

Com Marco eu me dava bem. Até agora nós somos bons amigos. Com ele era fácil falar, ele sempre foi um espírito claro. Era o embaixador para qualquer ambiente externo ao movimento. E dentro era um extraordinário vigilante: ele acreditava nos princípios, mas queria colocar alguma ordem em todos esses incêndios. Sempre é preciso alguém como ele em momentos em que tudo explode. Ele manteve-se fiel a tudo o que era possível ser fiel, mas teve que - como eu – separar-se dos extremistas.

Sorbi.

Paolino, ahahaha, a gente falava o tempo todo, nunca parava. Era um "Jesus com metralhadora". Dizia que Che Guevara tinha continuado com o trabalho de Jesus com as armas. Mas sobre Che, ainda agora, existe uma mitificação ambígua. Muitos não estavam dispostos a enfrentar os erros e maldades de Che.

Saugo.

O gigante Italo! Fenomenal. Ele tinha energia de sobra. Eu tinha gerado a ideia, com a minha fantasia típica do romantismo alemão, que este de Trento era um grupo de nobres guerreiros, onde cada um desses jovens tinha suas próprias características e habilidades especiais.

Hoje?

Eu não sou pessimista sobre as novas gerações. Muito pelo contrário. Elas têm razão para não confiar mais das grandes ideologias que foram apenas ilusões. Acredito que esse movimento contra as armas nos Estados Unidos seja importante. Poderá produzir alguma coisa. Não é para a revolução, mas contra as armas. E para obter esse propósito, deve entender que também precisa mudar outras coisas na sociedade.

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