Maio de 1968. Schneider, o alemão que "agitou" Trento

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03 Abril 2018

Peter Schneider, nascido em 1940, de Luebeck, filho de um maestro e compositor, é um dos escritores mais importantes da cena alemã contemporânea. Em 1968 foi um dos principais protagonistas da SDS (União Estudantil Socialista Alemã, NdT ) de Berlim Ocidental. Grande amigo de Rudi Dutschke, "Rudy o Vermelho", o líder estudantil, o Rostagno de Berlim.

Em 4 de abril de 1968 em Memphis foi assassinado Martin Luther King. Uma semana depois, em 11 de abril, Dutschke foi baleado à queima-roupa com três tiros na cabeça por Joseph Bachmann, exaltado pintor de paredes neonazista. Rudi permaneceu face a face com a morte por três dias, em seguida, recuperou-se, mas não completamente. Para Schneider aqueles tiros pareceram praticamente o fim de tudo: "Eu tinha perdido a esperança de que existisse um futuro sem Rudi". Então decidiu deixar Berlim. Foi para a Itália. E no início parou em Roma, para poder ir até Marino, visitar Dutschke que estava convalescendo hospedado na casa do compositor Henze.

"Em Roma eu estava em um lugar magnífico - lembra Schneider – a pensão Gemelli, na Fontana de Trevi".

Foi lá que encontrei Paolino Sorbi. "Ele veio me procurar: disse que eu precisava ir para Trento".

A reportagem é de Paolo Mantovan e Paolo Morando, publicada por Trentino, 28-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Sorbi não chegou certamente lá por acaso. A experiência de Berlim da SDS também era bem conhecida em Trento e Sorbi acompanhava de perto os movimentos de Dutschke, tanto que o famoso "contraquaresimal" de Trento foi certamente inspirado pela interrupção da missa na Catedral de Berlim no dia de Natal de 1967, quando Dutschke discursou contra a guerra no Vietnã. E assim, no final do verão de 1968, Sorbi foi até Roma e procurou por Schneider. "Há tempo queria conhecer Dutschke - explica Sorbi – Fique sabendo através de Scalzone que em Roma havia uma delegação alemã da SDS, viajei com minha Fiat 600 e encontrei Schneider. Nós imediatamente nos entendemos. Eu o convenci a vir para Trento".

Schneider sorriu diante do convite no começo, mas o desejo de começar de novo, de voltar a viver e lutar era forte. "O que vocês fazem em Trento?" Peter perguntou a Sorbi. "Manifestações, universidade crítica". Schneider concordou e foi para Trento, em outubro de 1968. "Eu levei uma sacola plástica com meia dúzia de coisas para passar um fim de semana ou uma semana, - confessa Schneider - em vez disso se tornaram meses. Começou a esfriar: eu tinha apenas um blusão e passava uma noite em cada lugar. Foi uma experiência incrível. Olha, é difícil imaginar isso hoje, muito mais explicar. Em Trento eu encontrei um acolhimento impressionante. Havia uma abertura imediata, todo mundo estava lá pronto para te ajudar, para te dar uma mão, para te arrumar um lugar para dormir. Eu não sabia uma palavra de italiano, eu sabia latim e francês, mas eles me faziam tantas e tantas perguntas durante as vinte e quatro horas sem parar, todos os dias, que em duas semanas já me virava bem e já conseguia fazer discursos com termos como "repressão sexual, capital, internacional". Só depois de vários meses que eu aprendi as palavras da vida cotidiana como colher ou travesseiro".

Peter Schneider foi envolvido pela atmosfera contagiante de Trento e o movimento estudantil de Trento acolheu-o como um herói, o homem que tinha escrito o manifesto da SDS "Fizemos erros" que já havia sido traduzido em várias línguas.

"Obviamente, um dos primeiros que conheci foi Mauro Rostagno. Ele me fez mil perguntas, queria saber como fazíamos em Berlim para enfrentar a polícia. Eu tinha sido o responsável pela campanha e pela organização do "tribunal" contra o empresário Springer, o editor contra o qual o movimento lutava. E então eu expliquei o que havíamos feito e o que tínhamos errado. Que as técnicas de confronto com a polícia se baseavam em provocações não violentas porque nós gritávamos: ‘nós vamos lhe dar preservativos, assim vocês farão amor e serão menos agressivos’ Mas aqueles meses em Trento foram inesquecíveis".
Inesquecível foi o clima, a "diversidade" de Trento. Sua irreprimível vitalidade alegre.

"Para mim - lembra Schneider - que vinha de Berlim, com essa bagagem tão pesada onde tudo estava quase morto, até mesmo o movimento, com o atentado a Dutschke, para mim essa chegada a Trento foi como um segundo nascimento. Havia uma grande abertura, uma grande criatividade, havia o desejo de fazer a revolução brincando".

Schneider mudava de casa a cada semana, também viveu em uma comunidade de mulheres, e por algum tempo compartilhou também um apartamento com Renato Curcio. Tornou-se um ponto de referência e até mesmo um "contraponto" de Rostagno.

O loiro Schneider levou para dentro do movimento, das reuniões e assembleias, aquela parte até então desconhecido, a "perfeição" teutônica, a organização programática dos discursos e dos percursos, contra o vibrante discurso de Rostagno, tão imaginativo e criativo. Schneider defendia a necessidade de sair da universidade, dizia que os estudantes deviam entrar nas fábricas, enquanto Rostagno estava mais ancorado à dimensão universitária.

Então, em fevereiro de 1969, Schneider foi preso por dois policiais e levado para a delegacia de polícia em Trento. Foi o marechal Gaetano Banno que o expulsou.

"Schneider era um rapaz legal, alto, gentil - explicou o próprio Banno em 2005 para o jornal Trentino - O buscamos na cantina, ele estava se dirigindo para a sua casa. Eu o coloquei-o na minha 600 e o levei para a delegacia. À noite, com o Alfa o levamos à fronteira no Brennero. Sinto muito, aquelas eram as ordens. Ele foi expulso porque assim queria Roma. ‘Pessoa indesejada’. Não toleravam a sua atividade política".

E lá, na delegacia, Schneider recorda: "Eles me comunicaram que eu era um perigo para a ordem pública italiana. Como prova disso um dos policiais de plantão leu para mim as páginas de um arquivo em que foram anotados todos os meus movimentos em Trento e arredores, todas as minhas viagens na Itália – eu tinha retornado várias vezes para visitar Rudi na villa Leprara em Marino - todos os discursos que tinha feito em Trento em palavras-chave. Fiquei espantado com tamanho zelo demonstrado pela polícia e seus informantes que haviam sido colocados para me vigiar, e eu não tinha a menor ideia de que estava sendo vigiado dia e noite. Não fui autorizado a usar o telefone. Nem me permitiram voltar para a minha última moradia para buscar as minhas coisas".

Schneider, então, foi levado para o Brennero. Seus movimentos contínuos para Roma, as conversas com Dutschke e também o papel importante no movimento estudantil de Trento não haviam sido do agrado das esferas romanas.

Em Trento Schneider retornou várias vezes. Aqueles cinco ou seis meses em Trento foram como a erupção de um vulcão na sua vida. E o escritor ainda tem muitos amigos. Sobre o capítulo final de sua expulsão ele deixou um registro significativo na sua obra "Rebellion und Wahn. Mein’68” de 2008.

 

Reproduzimos aqui um trecho:

“A minha expulsão da Itália inspirou alguns artigos nas páginas internas dos jornais italianos. Um jornal fantasiou sobre um psicodrama dentro no movimento trentino que teria encontrado a própria conclusão na minha expulsão. De acordo com esse artigo, o alemão teria caído como um meteorito do longínquo norte sobre os Alpes meridionais da Itália, e em Trento teria galgado rapidamente a uma posição de liderança. No entanto, os trentinos teriam visto no sisudo alemão algo mais similar a uma figura paterna que teria entrado cada vez mais em competição com a materna autoridade regente representada pelo aéreo e genial Mauro Rostagno. No final os trentinos se teriam declarados contrários ao pai adotivo cisalpino e favoráveis ao princípio materno. Era a velha lengalenga que desde os tempos de Petrarca evocava em infinitas variações a incompatibilidade entre o temperamento italiano e alemão. Não acreditei em uma única palavra disso tudo. Mas permaneceu uma ferida aberta".

Por que inclusive - muitos anos depois (como revela o próprio Schneider) - Marco Boato à pergunta de Schneider "por que não houve uma manifestação para libertar o alemão? para me libertar?", respondeu que a última instância para uma mobilização de qualquer tipo era Mauro Rostagno. E Rostagno não se mexeu.

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