''É preciso tentar entender este pontificado sem divisões, a partir de suas contradições.'' Entrevista com Gian Franco Svidercoschi

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31 Março 2018

“Se há uma coisa que me impressionou na sucessão dos vários pontificados, pelo menos desde o Concílio Vaticano II, é a incrível continuidade que marcou o amadurecimento do conceito de misericórdia.”

A reportagem é de Francesco Gagliano, publicada por Il Sismografo, 29-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Gianfranco Svidercoschi é um vaticanista de longa data. Na sua carreira, ele assistiu a sucessão de sete pontífices e foi testemunha de grandes eventos da Igreja Católica, como o Concílio Vaticano II. É o autor de numerosos livros. Entre os que tiveram mais sucesso, lembramos “Carta a um amigo judeu”, traduzido em 20 línguas [incluindo o português, pela Ed. Paulinas], e, com o cardeal Dziwisz, Una vita con Karol. Seu último volume é Un Papa che divide e se concentra na atual situação do pontificado de Francisco, a cinco anos de sua eleição ao sólio de Pedro.

Na reflexão de Svidercoschi, a chegada a esse recente marco permite enfocar claramente aqueles elementos que tornaram o atual pontificado inédito e revolucionário. Na opinião dele, são aspectos que fazem parte da natureza profunda de Francisco e que abriram uma nova temporada na vida da Igreja, que ainda está em seus inícios, mas que já apresenta contornos bem definidos.

O mesmo tempo, porém, são igualmente evidentes as fraturas e verdadeiras oposições, provenientes de diversos ambientes, que, nesses anos, progressivamente fizeram ouvir a sua voz. No livro, Svidercoschi se propõe a compreender essas oposições e convida a todos a tentarem entender esse pontificado tão inédito, justamente a partir de suas contradições. Trata-se de uma chave de leitura importante, original e talvez decisiva, a fim de compreender para onde a Igreja está indo nesta complexa fase histórica.

Eis a entrevista.

Há pouco mais de duas semanas, o pontificado de Jorge Mario Bergoglio completou cinco anos, e os especialistas publicaram inúmeras avaliações. O senhor fez a sua? Poderia resumi-la em dois ou três pontos essenciais?

Mais do que uma avaliação do pontificado, tentei, com o meu livro, evidenciar a “novidade” da qual o Papa Francisco se fez portador. Isto é, a exigência de um retorno às raízes, para onde tudo começou, para o Evangelho. Um Evangelho que hoje deve ser conjugado no sinal da misericórdia, da atenção prioritária àqueles que mais precisam, aos feridos pela vida e, portanto, a todos os tipos de periferia, também existenciais, também morais.

O Papa Bergoglio lançou as bases para um novo modo de entender e viver a fé cristã. Ele iniciou uma grande reforma no plano dos comportamentos, das mentalidades, em suma, da mudança dos corações, do clima geral na comunidade cristã. Ele colocou em movimento uma vasta renovação pastoral, missionária e estrutural. Deu nova visibilidade e nova força à Igreja Católica em nível ecumênico, inter-religioso e especialmente na política internacional. Tudo isso, porém, ainda está nos seus inícios. O catolicismo se encontra em uma fase de transição muito complexa, muito sofrida. E é preciso reconhecer isso. Sem medos.

Na sua opinião, quais são as maiores contradições desse pontífice já universalmente reconhecido como revolucionário? Quais são as luzes e as sombras?

Francisco tentou uma obra tão extraordinária quanto inacessível: iniciar uma revolução dentro de uma instituição, como a Igreja Católica, habituada há 2.000 anos a evitar “abalos” fortes demais. Não só isso, mas, para não correr o risco de ser normalizado, ou mesmo de ser freado pelos grupos opositores, o papa considerou que devia fazer essa obra muito rapidamente, sem mediações, sem gradualidades, muitas vezes passando por cima das competências da Cúria Romana. O que, inevitavelmente, provocou uma dupla reação contrastante, entre aqueles que aceitavam sua proposta e aqueles que eram contrários: e essa duplo reação contrastante, quase automaticamente, traduziu-se em uma divisão.

Essa divisão é clara?

Uma certa oposição cresceu claramente em alguns ambientes da hierarquia e da Cúria: como se viu em particular na questão dos divorciados recasados. Mas há também fiéis leigos que, ligados estritamente à tradição ou prisioneiros de seus “hábitos” espirituais, não conseguem viver o Evangelho – como Francisco propõe – na sua simplicidade e na sua radicalidade, até mesmo social; assim como não conseguem aceitar todo esse “perdonismo”, como eles chamam. E é por isso que, em vez de se dividir, seria preciso tentar entender esse pontificado – mesmo quando não compartilhamos certas aberturas, certas mudanças – justamente a partir de suas contradições. Que são as contradições do atual momento histórico. São as contradições de um novo modo de “ser papa”. São as contradições de uma revolução que recém-despontou.

Uma das reformas mais tangíveis desse pontificado diz respeito às mídias vaticanas. A comunicação foi atualizada aos modernos meios digitais. O senhor acha que essa mudança melhorou o modo em que a Santa Sé e a Igreja narram a si mesmas?

Com muita honestidade, devo admitir que ainda estou ligado – também por motivos de idade – a um modo antigo, e provavelmente superado, de fazer comunicação. Assim como devo admitir que não conheço detalhadamente a reforma das mídias vaticanas. Mas, com igual honestidade, devo dizer que não estou totalmente convencido do tipo de projeto que foi decidido para renovar o mundo da comunicação da Santa Sé. A “religião” é algo muito diferente de uma notícia, por assim dizer, secular e, portanto, precisaria de instrumentos e de caminhos que saibam ajudá-la a chegar às consciências dos fiéis. E não só dos fiéis.

Na sua longa carreira como vaticanista, o senhor viu a sucessão de nada menos do que sete pontífices. Junto com o seu revezamento, o rosto da Igreja também mudou progressivamente. Na sua opinião, quais são os novos horizontes para os quais a Igreja do século XXI pode levar sua mensagem e quais são, em vez disso, os horizontes nos quais ela já perdeu toda ou boa parte da sua presença histórica?

Se há uma coisa que me impressionou na sucessão dos vários pontificados, pelo menos desde o Concílio Vaticano II, é a incrível continuidade que marcou o amadurecimento do conceito de misericórdia. Até que se chegou a um papa – Francisco – que fez dela o emblema de seu pontificado e a propôs como bússola para a vida pessoal e social. Pois bem, essa recuperação da misericórdia, na minha opinião, poderia escancarar horizontes inéditos para o catolicismo: em como viver a fé, em como ser Igreja, em como viver como católico hoje, em como recentralizar na pessoa o discurso moral e em como a misericórdia pode servir de apoio à justiça humana. Uma Igreja moldada assim poderia voltar a ser um ponto de referência decisivo, mesmo para além das fronteiras estritamente católicas, para as mulheres e os homens deste século dramático.

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