Cristãos asiáticos podem salvar o Cristianismo da Cristandade - II

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21 Março 2018

Na segunda e última parte (A primeira nota, Cristãos asiáticos podem salvar o Cristianismo da Cristandade, esta disponível aqui), o padre William Grimm argumenta que os cristãos asiáticos nos lembram de que a Igreja é uma comunidade dos que optaram por seguir a Cristo conforme as Escrituras e a tradição e que viveram essa fé através da história, buscando, compartilhando e celebrando o repouso do coração com e para o resto do mundo.

O artigo é publicado por La Croix International, 20-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O Padre William Grimm, MM, é editor do ucanews.com e mora em Tóquio.


Eis o artigo.

Cada um de nós deve fazer uma avaliação de si mesmo e da maneira como vivemos a nossa fé para verificar a forma ampla e profunda com que somos parte da Cristandade.

É o mundo, mais do que a Igreja, que está libertando o Cristianismo da Cristandade, apesar das dos passos que foram dados nessa direção no Catolicismo desde o Concílio Vaticano II (1962-65).

A afirmação da autonomia espiritual, ética e intelectual por parte dos indivíduos e das sociedades, com um êxodo simultâneo da Cristandade em suas formas católica, ortodoxa e protestante é, talvez, um presságio da morte da Cristandade. Adeus, até que enfim.

Como será a Igreja sem as estruturas de poder da Cristandade? Se temos de superar um milênio e meio fazendo as coisas de uma certa maneira, como fazer isso? Onde podemos encontrar auxílio e modelos alternativos? A resposta para o século XXI pode estar na Ásia.

Certamente, o continente tem seus próprios corolários à Cristandade, como Hindutva no hinduísmo, o califado no Islã e o Maoísmo no comunismo chinês.

Em seu império colonial, a Cristandade Ibérica imitou Carlos Magno, após a expulsão dos muçulmanos e judeus da Espanha no século XV e a introdução da mais célebre das inquisições para monitorar quem fosse forçado ao batismo. Mas, com exceção da imposição espanhola da Cristandade na ponta da faca nas Filipinas (bem como na América Latina), a Igreja na Ásia tem sido comparativamente intocada pela maldição.

Quando outras grandes potências europeias exploravam a Ásia, foi em grande parte em nome do ídolo Mamon, e não de uma igreja idolatrada. Os britânicos no sul da Ásia, os franceses no sudeste e os holandeses na Indonésia estavam mais interessados em lucros do que em almas.

A falta de capacidade e vontade política, militar, filosófica e espiritual dos imperialistas de impor o Cristianismo na Ásia quer dizer que sua influência aqui, em grande parte, é considerada secundária, especialmente em lugares como o Japão, que não se submetem às potências ocidentais e onde o batismo nunca rendeu dividendos financeiros ou sociais pelo acesso aos soberanos europeus. A escolha de ser batizado era, em diferentes graus, um ato livre de fé, motivado por um desejo de descanso ao coração em Deus.

E essa escolha é feita em um contexto de minoria impotente. Não há pressão social forçando ninguém a ser cristão. Pelo contrário, se existe pressão, é por não dar o passo radical do batismo. Muitas vezes, até hoje, essa pressão toma a forma de perseguição direta.

À medida que o secularismo se torna cada vez mais a postura religiosa dominante no Ocidente, os cristãos tendem a se reconhecer nos asiáticos. Sem apoio, incentivo ou expectativas sociais ou culturais, o comprometimento com o cristianismo morre ou se aprofunda. Apenas a fé pessoal, não a cristandade, pode fornecer apoio.

O fluxo cada vez menor de missionários do Ocidente deve se inverter. Isso não significa a continuidade da prática atual de importar sacerdotes da Ásia (e da África) para manter a instituição no Ocidente diante de um declínio quantitativo no clero. Significa uma humilde abertura na Cristandade cambaleante da Igreja, permitindo que a forma asiática de Igreja ensine e até mesmo conduza.

Isso exigirá o abandono do paternalismo e do racismo que a Cristandade promove, a atitude de que a Igreja no ocidente é a verdadeira Igreja e que em qualquer outro lugar só é real se refletir o ocidente.

Por outro lado, os cristãos em outras partes do mundo precisam superar o sentimento de inferioridade causado neles pela falta de exemplos de Cristandade. Também precisam ignorar quaisquer vestígios de Cristandade que minem sua forma de ser Igreja.

Os cristãos asiáticos nos lembram de que a Igreja é uma comunidade dos que optaram por seguir a Cristo conforme as Escrituras e a tradição e que viveram essa fé através da história, buscando, compartilhando e celebrando o repouso do coração com e para o resto do mundo. Essa busca e esse compartilhamento acontecem no serviço humilde, no diálogo respeitoso e na abertura ao Espírito de Deus, fora dos limites da Cristandade, ou mesmo do Cristianismo.

Na Assembleia Especial de 1998 para a Ásia do Sínodo dos Bispos, os bispos da Ásia destacaram que não havia expressão asiática significativa nas estruturas de decisão centrais da Igreja Católica. Isso resultou em algumas mudanças simbólicas, mas ao longo do tempo até mesmo esses símbolos desvaneceram.

O Papa Francisco começou a trazer homens (e apenas homens, até agora) das margens da Cristandade para a liderança da Igreja. É um começo, mas muito mais deve ser feito. No entanto, não podemos confiar nos papas ou na administração central para romper os laços da Cristandade.

Cada um de nós deve fazer uma avaliação de si mesmo e da maneira como vivemos a nossa fé para verificar a forma ampla e profunda com que somos parte da Cristandade. Depois, temos de começar o longo e difícil processo de nos libertar dessas amarras. Os cristãos da Ásia podem ser modelos, e o crescente repouso do coração é o sinal de que estamos conseguindo.

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