Os católicos estão compartilhando memes on-line. É esta a nova evangelização?

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20 Março 2018

Uma imagem de São Inácio de Loyola de óculos Wayfarer traz a frase "São Inácio hipster/ canonizado a bala antes de ser Santo". Para entender a piada, primeiro é preciso saber que hipsters têm a mania irritante de fazer as coisas "antes de todo mundo” e depois que São Inácio foi baleado na perna por um projétil antes de se converter. Por isso, a brincadeira com a bala.

A reportagem é de Angelo Jesus Canta, SJ, publicada por America, 14-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Bem-vindo ao mundo dos memes católicos.

 (Foto: Facebook.com/CatholicMemeBase)

Richard Dawkins cunhou o termo "meme" em seu livro de 1976 O Gene Egoísta, como forma abreviada da palavra memética (do grego "o que é imitado”). Memes expressam comportamentos, atitudes e ideias culturais de pessoa para pessoa através de imitação e da variação. Um meme da internet, basicamente, é qualquer coisa que possa ser transmitida de pessoa para pessoa na internet. Isso inclui vídeos, frases, links e, mais popularmente, imagens sobrepostas com texto escrito.

Ainda que quase tudo o que é compartilhado na internet possa ser considerado meme, o termo é mais usado para exemplos bem-sucedidos e duradouros. É difícil prever o que vai pegar, mas os memes que viralizam geralmente têm um equilíbrio perfeito entre humor absurdo e replicabilidade. Os memes virais funcionam na medida em que podem ser interpretados como piadas e também podem ser personalizados e aplicados a diferentes situações e públicos. Os memes mais populares podem ser reutilizados para piadas internas entre grupos de amigos.

(Foto: Brandon Ocampo/Catholic Memes)

É por aí que começam os memes católicos. Brandon Ocampo, ministro de campus da arquidiocese de Newark, lembra o nascimento dos memes católico no Catholic Memes on Tumblr, em uma entrevista à America. Tudo surgiu há oito ou nove anos, quando um grupo de amigos católicos começou a aplicar piadas religiosas a memes conhecidos como All the Things e Success Kid. Quando os memes compartilhados entre amigos cresceu ainda mais, Ocampo, 22 anos, pensou: "Seria fantástico ter nossa própria página. É uma forma muito boa de evangelizar as pessoas." Ele começou com o Tumblr e depois criou uma página no Facebook e no Twitter. "Não precisamos falar sério da nossa fé o tempo todo", explica Ocampo, e os memes nos permitem "provocar perguntas e conversas".

A original página do Catholic Memes no Facebook tem mais de 38.000 seguidores. Ocampo observa que ficou mais difícil criar conteúdo novo depois de começar a faculdade e a trabalhar em período integral. Por isso, a página muitas vezes compartilha mensagens de outra página de memes católicos do Facebook, gerenciada pelo uCatholic.

"O objetivo do uCatholic é alcançar as pessoas onde estiverem", disse Ryan Scheel à America. "O Catholic Memes é um carisma particular dessa missão". Scheel, 37 anos, fundou tanto o portal uCatholic como a página Catholic Memes, que tem mais 359.000 seguidores. Com sede em Cleveland, Scheel e o sobrinho, Billy Ryan, um estudante da Universidade de Akron de 20 anos, são os administradores da página e, segundo eles, o conteúdo atinge mais de um milhão de usuários do Facebook por semana.

"Usamos a mesma linguagem que a internet usa", explica Scheel, mas com o objetivo de promover o ministério da Igreja.

Na verdade, a evangelização é uma marca registrada da missão tanto do uCatholic como da Catholic Memes. A página de Ocampo exibe o seguinte slogan:

"Evangelização através de memes”. “Através de algo que faz rir é que se provoca os corações das pessoas a buscar Cristo de forma mais autêntica", afirma.

Scheel e Ryan também veem sua página como parte da nova evangelização, trazendo a mensagem da Igreja para um universo cada vez mais secular. Segundo eles, 62% do público tem entre 18 e 24 anos. Para Scheel, a página no Facebook permite que jovens "conversem sobre coisas que talvez não conversariam” sem esse estímulo.

"A igreja está esquecendo o que diz São Paulo: primeiro se dá leite, depois alimento sólido”, argumenta Scheel. Referindo-se à 1ª Carta aos Coríntios e a Carta aos Hebreus, ele diz que a Catholic Memes permite que jovens católicos aprendam os princípios da fé. Em vez de discutir temas específicos de dentro da Igreja, como as traduções litúrgicas, os jovens que comentam no Facebook "estão interessados em relíquias, santos, liturgias, belas igrejas [e] abstinência", afirma Scheel.

Apesar de a evangelização ser o cerne da Catholic Memes, Scheel não tem expectativas irreais de criar um meme perfeito para levar os jovens ao catolicismo. "Não convertemos ninguém", diz Scheel, "mas plantamos sementes que mais tarde podem ser regadas na vida dessas pessoas".

De acordo com o bispo auxiliar da diocese de Sydney, Richard Umbers, os memes católicos são "peculiares, têm um apelo imediato, mas também algum mistério". Umbers, 46 anos, recentemente escreveu no The Washington Post: “Sou um bispo católico apostólico romano. E faço memes de Jesus”. Ele diz à America que os memes são como parábolas no evangelho, concebidos para uma cultura oral. É fácil lembrar os detalhes de uma parábola e aplicar diferentes significados com base em diferentes contextos. Da mesma forma, os memes trabalham para a nossa cultura visual, explica Umbers, "porque é possível aplicar diferentes significados à mesma imagem várias vezes".

Para o bispo, os memes tem que ver com "ganhar o coração das pessoas, não discussões". Ele acredita que as pessoas são atraídas para o conteúdo católico on-line por causa da explicação do Papa Francisco em "Laudato Si'" de que "tudo está conectado". Para Umbers, a Catholic Memes pode apresentar uma visão de mundo fora do convencional, mas, ainda assim, racional.

Postar memes no Twitter e no Facebook é uma extensão do escritório episcopal do Bispo Umbers. "O que você vê no Twitter é a minha personalidade de verdade", diz. Em seu próprio interesse pelo inusitado, o bispo interage com católicos e não católicos na internet, em um novo tipo de apostolado. "É um transbordamento da vida espiritual interior", afirma.

Ainda que alguns memes possam levar os leitores a refletir sobre o catolicismo, os criadores dizem que o verdadeiro trabalho de evangelização acontece nos comentários. "É lindo ver uma piada virar perguntas e respostas de verdade nos comentários", diz Ocampo. Scheel concorda com esse sentimento, dizendo que fica surpreso com o quão "tradicional e ortodoxo" o público-alvo é. Os comentários dão às pessoas "a oportunidade de atacar a Igreja e de defender a Igreja apologeticamente".

 (Foto: Facebook.com/CatholicMemeBase)

Como muitas vezes acontece na internet, no entanto, conversas saudáveis entre pessoas respeitosas podem degringolar rápido. Os administradores de ambas as páginas leem os memes e os comentários e excluem os mais ofensivos. Ryan, que se identifica com o título curioso de memeólogo, também analisa todos os memes submetidos à página da comunidade Catholic Meme. Ele diz que "filtra tudo o que vise causar polêmica de forma descarada", como memes com blasfêmia explícita. E quando vê encontros particularmente improdutivos nos comentários, tenta resolver a situação postando um GIF engraçado.

"Temos uma linha de respeito na página", diz Scheel, "mas isso não significa que não sejamos espertinhos". Ao filtrar vulgaridades e blasfêmias explícitas, os administradores dizem que não se intimidam por memes que causam discussão. Memes sobre não católicos, por exemplo, devem ser piadas leves em relação às diferentes visões de mundo. "É como se provocaria um amigo com quem saímos para beber", disse.

Enquanto a ausência de conversa civilizada não é um problema exclusivo da página do Catholic Meme, há uma grande tensão nos comentários. A salvação das almas parece ser colocar um link em cada comentário para uma página apologética. Por mais prudentes que as pessoas sejam, os comentários dos memes controverso sobre os protestantes ou sobre a missa em latim não parecem um debate espirituoso entre semelhantes, mas sim um grito frustrado no vazio.

 (Foto: Facebook.com/CatholicMemeBase)

Este meme relacionou uma cena do novo filme do Star Wars às diferenças entre as bíblias protestante e católica, despertando uma discussão que passou ilesa pelo crivo dos administradores da página. Um luterano comentou que dizer que "Martinho Lutero removeu livros da Bíblia" era uma leitura reducionista da história e os católicos responderam em bando, argumentando e corrigindo.

No final, a discussão ecumênica acabou numa competição para escrever o comentário derradeiro ao argumento dos outros, deixando ambos os lados frustrados. Houve acusações de heresia (ainda que em níveis variados de ironia) de ambos os lados, tentando encerrar a conversa. Mesmo os mais fiéis e ortodoxos acabam sendo vítimas das brigas nos comentário.

Mas para os criadores de meme, trolls e comentários depreciativos são casos isolados. "Talvez, no Juízo Final, olhem os memes que eu não fiz", brinca o bispo, dizendo que é importante não cair na guerra da internet. "Assim como no sermão, é bom ser impactante, mas não é bom bater sempre na mesma tecla”.

Em vez disso, o bispo Umbers, que também é pároco, destaca o senso de comunidade que existe on-line. "São pessoas reais vivendo debates reais", diz. Para ele, as pessoas mudam de ideia sobre várias questões com base nas relações que desenvolveram on-line. Afirma, ainda, que as comunidades on-line não substituem a paróquia, mas são "experiências complementares" da comunhão católica.

É impossível não se seduzir pelo idealismo de ser encontrado nas comunidades católicas de memes. Os memes são um novo tipo de linguagem, afirma o bispo, que a Igreja precisa falar. Enquanto a Igreja Católica nos Estados Unidos continua lidando com a queda do número de jovens na igreja, será que as comunidades on-line como a Catholic Memes vão ser suficientes para interligar Igreja e mundo? Será que as piadas internas dos que já falam a língua da Igreja são interessantes para o mundo externo? Os criadores de memes e seus ávidos seguidores certamente acreditam que sim.

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