Dois cardeais aconselham não perder o panorama geral de vista em relação à reforma do Papa

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19 Março 2018

Ao avaliar o progresso da reforma do Papa Francisco até agora, é fácil se deter em pormenores, como quem lidera este ou aquele departamento ou a ação mais recente do papa em relação às finanças do Vaticano. No entanto, numa conferência em Roma, esta semana, dois cardeais pediram que o clero e os fiéis olhassem além desses detalhes e concentrem-se em um panorama mais geral.

A reportagem é de Claire Giangravè, publicada por Crux, 15-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Os cardeais italianos Fernando Filoni, líder da Congregação para a Evangelização dos Povos, e Gianfranco Ravasi, líder do Conselho do Vaticano para a Cultura, falaram na dia que marca o quinto aniversário da eleição de Francisco ao papado.

Na conferência "Reformas na Igreja, reforma da Igreja", na Pontifícia Universidade Urbaniana, de 13 a 15 de março, Filoni enfatizou a importância de uma Igreja missionária.

"No fundo, esta reunião marca a determinação do Papa Francisco, ecoando sua coragem e sua paixão, para tornar concreta a ‘reforma da Igreja missionária que se expande’", declarou, no auditório lotado. Filoni definiu essa expressão como "original e significativa", inicialmente apresentada pelo Papa, em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, como condição primária para orientar a Igreja rumo a um novo espírito evangelizador.

Filoni destacou que Francisco não entende a reforma na e da Igreja como desistir dos elementos estabelecidos de sua tradição nem permitir que seja permeada pelos "ventos contrastantes e oscilantes” do secularismo ou do relativismo, que, de acordo com o religioso, estão assumindo tanto o "mundo real" como o "mundo da web".

Em vez disso, afirmou, Francisco compreende a reforma "como a transformação missionária efetiva da Igreja", ou seja, "a ‘reforma da Igreja' que gera 'reformas na Igreja'".

Segundo Filoni, a missão evangelizadora universal do cristianismo torna-se concreta através do chamado de Jesus de "se expandir para todos os lados” e a todos os povos, à luz do Espírito Santo e “dialogando com todos".

O chamado ao diálogo foi abordado pelo cardeal italiano Gianfranco Ravasi, líder do Conselho Pontifício para a Cultura, para quem a necessidade da Igreja de interseção com a sociedade, a tecnologia e a inovação é um foco para reforma, de acordo com sua palestra no evento em Roma.

De acordo com Ravasi, o conceito de reforma no sentido estrutural não pode ser examinado sem considerar uma visão global da humanidade; portanto, "é legítimo e importante refletir social e culturalmente" antes de fazer uma análise mais específica.

Ravasi apontou para o fato de que o termo "cultura" teve até 91 ocorrências em documentos oficiais do Concílio do Vaticano II, refletindo que "a inserção na cultura é estrutural para o cristianismo". Acrescentou ainda que toda a Bíblia mostra exemplos de "aculturação ininterrupta", principalmente representada pela figura de Jesus, cuja existência histórica estava profundamente imersa no tecido cultural de seu tempo.

Para abordar o tema da reforma, Ravasi indicou duas abordagens diferentes: a primeira é "requintadamente transcendente" e, ao fechar os olhos para o mundo, tenta ir além da história, do espaço e do tempo; a segunda é a versão cristã, que é "profundamente enraizada nas diversas sociedades e múltiplas culturas".

De acordo com o cardeal, o cristianismo, "mais do que outras religiões", dedica-se ao aqui-e-agora do mundo. Para explicar isso, buscou inspiração no escritor, poeta e filósofo inglês G.K. Chesterton, que observou que enquanto grande parte da iconografia asiática mostra pessoas e divindades com os olhos fechados, em serenidade meditativa, a iconografia cristã caracteriza-se por santos com os olhos bem abertos.

Seu envolvimento com o mundo “torna a Igreja mais profética e não apenas jurídica e institucional", afirmou Ravasi, o que lhe permite "entrar em diálogo com entidades sociais sem querer determiná-las ou dominá-los, mas oferecendo a contribuição de sua visão moral e espiritual".

Enquanto a mídia, o clero e os leigos estão ocupados em olhar para as várias falhas e conquistas da reforma do Vaticano, Ravasi destacou questões importantes "do secularismo moderno" que desafiam a Igreja e chamam a atenção.

Em relação à ciência e à tecnologia, o czar da cultura do Vaticano mencionou as questões éticas e morais levantadas por desenvolvimentos recentes nos âmbitos da genética, das neurociências e da Inteligência Artificial (IA).

No que tange à Internet ou às redes sociais, que "revolucionaram nosso modo de ser, pensar e nos comunicar", Ravasi retratou uma realidade que, na sua opinião, impactou especialmente os jovens que mais precisam de orientação por parte da Igreja.

As redes sociais "são uma rede fria de relações virtuais, na qual a realidade evapora e as categorias se misturam, criando um pântano disforme de informações e narrativas da qual surgem principalmente excessos, choques, explosões e grandes bolhas", disse o cardeal.

Ele também advertiu sobre a difusão desenfreada de notícias falsas e gatekeepers digitais, como o Google e o Facebook, cuja voz tem grande importância sobre o que as pessoas veem e acreditam.

"Diante de um horizonte tão problemático, é forte a tentação de perder a coragem e agir de forma resignada ou submissa, convicta da natureza incontrolável de tal processo, destinado a criar um novo padrão humano", disse Ravasi. "Certamente, não é cristão ter uma atitude desiludida sobre quem se tranca em seu mundinho antigo, satisfeito por seguir as regras do passado e depreciando as degenerações desta época”.

Para concluir, ele citou os Atos dos Apóstolos, em que Paulo sonha com um homem que pede que ele "passe” à Macedônia. De acordo com Ravasi, o uso da palavra "passar”, ou diabás, em grego, mostra um chamado "para encontrar a humanidade em sua identidade concreta, entrando verdadeiramente em contato, sem medo de ir às favelas e periferias e testemunhar um evangelho que sai do oásis espiritual protegido do templo".

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