Itália. Voto católico liberado pela igreja

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08 Março 2018

Entre os numerosos partidos que se submeteram ao juízo dos italianos nas últimas eleições, figurava inclusive Il Popolo della Famiglia (O Povo da Família). Na Câmara obteve 218.866 votos (0,66% dos votos). No senado 211.273 (0,7%). Era a única formação, entre as que concorram, de inspiração abertamente cristão-católica.

A reportagem é de Alessandro Campi, publicada por Il Messaggero, 07-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Em termos de doutrina, a sua referência explícita era a doutrina social da Igreja. Seus objetivos declarados eram a defesa dos chamados valores não negociáveis.

Em especial, o direito à vida (desde a concepção até a morte) e a centralidade da família.

Querendo ser irreverentes e pouco delicados, poder-se-ia dizer que o catolicismo político na Itália ainda nominalmente católica (se não por prática de fé e modo de vida coletivo, ao menos por história e antropologia) vale menos de 1%.

Mas a questão é muito séria e complexa para ser colocada nesses termos. Também porque ninguém tem saudade (ou deseja) a presença de um partido que atue sobre uma base abertamente confessional. Nem mesmo a Democracia cristã, para além da insígnia que a tornava simbolicamente reconhecível como partido católico, nunca assumiu uma postura desse tipo. Muito pelo contrário, foi por muito tempo dirigida por uma liderança que, a partir de De Gasperi, sempre praticou a separação entre esfera política (secular por definição), e esfera religiosa. Desde que a DC desapareceu, a própria ideia de um partido católico ou uma unidade política dos católicos entrou definitivamente em crise, sendo substituída por uma espécie de pluralismo nas escolhas de militância e preferências de voto, ainda assumido que o povo de crentes tomados individualmente ou inseridos em suas estruturas associativas tivesse uma subjetividade política e um impacto efetivo no cenário público nacional.

À luz dos recentes resultados eleitorais, considerando os principais partidos que, no final, obtiveram assentos (que representam quase 90% dos votos), sobra a impressão de que nenhum deles, em vista dos votos, tenha proposto temas e argumentos que pudessem sugerir que o mundo católico, em sua complexa articulação interna, representasse para eles algo como um interlocutor privilegiado ou uma área sócio-eleitoral de referência, para a qual enviar mensagens específicas ou agradar de alguma forma.

Uma exceção nesse contexto pode ser constituída pelo Partido Democrático, que angariou as simpatias mais ou menos veladas das hierarquias do Vaticano e de diversos altos expoentes eclesiais. Mas o ponto de entendimento ou de convergência entre eles e a formação liderada por Matteo Renzi (com quem havia anteriormente polemizado sobre as questões do biotestamento e dos casais não casados) não foi muito além do tema da integração e do acolhimento aos imigrantes e refugiados. Foi, de certa forma, o encontro de duas éticas, uma laica e outra de inspiração religiosa, apoiadas pela insistência comum sobre o valor da solidariedade. Enfatizar demais esse entendimento ou convergência, no entanto, nos levaria à conclusão de que o voto que a Igreja na Itália consegue orientar, na mais otimista das análises, não ultrapassa o 18%, que justamente foi o resultado nada espetacular conseguido pela esquerda democrática.

De fato, os católicos na Itália, tanto crentes como praticantes, são uma massa sociológica bem mais ampla, provavelmente a maioria da população (especialmente no Sul). Só que eles votaram, essa é pelo menos a impressão, como se o fato de serem católicos ou crentes não tivesse (e não tenha mais, em relação ao passado recente) nenhuma relação com a sua escolha política e com as razões que a determinaram. Foram escolhidos o M5S, a Liga, Forza Itália ou Fratelli d’Italia (ou seja, os partidos que somaram quase 70% dos votos) em função principalmente de opções puramente subjetivas e individuais, sem que do mundo do associacionismo católico ou das instituições mais próximas à Igreja viesse qualquer indicação positiva ou preferência para tais formações (no máximo vieram críticas e denúncias alarmadas quase todas relacionadas com o perigo do populismo).

A orientação ocorreu como seu o próprio credo tivesse uma relevância apenas íntima e pessoal e, portanto, nenhum impacto sobre o próprio agir na sociedade, para o qual a inspiração provém de outros parâmetros e valores.

Os grillini [1] poderiam realmente ter capturado alguma sensibilidade católica com a sua visão despojada da militância política e sua visão de uma economia que deve proteger e defender os mais fracos. Mas, na realidade, no voto ao M5S é mais provável que tenham influído, em um plano puramente material, a dificuldade econômica e a crise do emprego no Sul e certo espírito punitivo contra a velha classe política em geral.

A raiva e o ressentimento, que estão na base do espírito de protesto grillino, realmente são pouco compatíveis com qualquer visão de bem comum que para o bom cristão é construído através do consenso, da prudência, da escuta das boas razões do outro e do controle da emotividade.

Quanto aos partidos de centro-direita, se por um lado, por vezes, tentaram atrair os católicos, em nome de genéricas referências aos chamados valores tradicionais (a começar pela família), por outro lado, orientaram a sua propaganda, com tons muito alarmistas no caso da Liga, em grande parte sobre a necessidade de conter os fluxos migratórios e reavaliar as políticas de acolhimento atuais consideradas demasiado permissivas. Exatamente o oposto da pedagogia que quer educar a população para passar de uma atitude negativa para uma atitude mais positiva em relação aos migrantes, retomando as palavras usadas justo hoje para comentar o voto pelo Secretário de Estado do Vaticano Pietro Parolin. Palavras que, por um lado, confirmam a ideia orientadora do Papa Francisco de que nos migrantes se deva ver uma fonte de enriquecimento cultural e de potencial desenvolvimento econômico. Mas, pelo outro, mostram como uma espécie de indiferença ou resignação à discrasia que inclusive foi registrada claramente entre a orientação oficial da Igreja quanto a essa matéria e as escolhas de muitos cidadãos católicos. Que nas igrejas ouvem com atenta devoção convites dos oficiantes para praticar o acolhimento e não erguer muros, mas que na vida cotidiana (e nas urnas) obviamente se deixam guiar por medos e pulsões que a Igreja deveria tentar compreender sem condenar de antemão como uma forma de egoísmo pelo bem-estar. Os fracos, os mais carentes, os perdidos, os confusos, os marginalizados, os pobres existem também entre nós, aos milhões, e abandoná-los aos demagogos que os consolam é um perigoso engano.

Falar do fim do catolicismo político, ou de uma crescente marginalidade da esfera político-pública das questões que são fundamentais da doutrina social cristã e da sua ética política talvez seja excessivo.

Mas, à luz dos votos de 4 de março perguntar-se como votaram os católicos e por quê, e se votaram também em sua condição de católicos e de que forma, não é tão absurdo. Entre as muitas mudanças radicais determinadas, pelo menos no papel, por estas eleições, talvez haja também o início de uma nova página no relacionamento dos crentes com a política e, em especial, dos fiéis italianos com as diretrizes em sentido amplo que estão na base da Igreja de Bergoglio.

Nota:

[1] Nome derivado do fundador do M5S, Beppe Grillo. (Nota do tradutor). 

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